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23 de outubro de 2008

O Morcego Negro

O Opala acima, conhecido como “O Morcego Negro”, é velho conhecido da turma que faz este blog.
Feito como se estivéssemos em 1977, usando apenas peças usadas ou “new old stock”, o Morcegão é um carro de personalidade única. Originalmente criado pelo meu velho amigo PH, hoje pertence a outra amiga mútua, a Flavinha. Inacreditável é um carro de peito cabeludo como esse ter uma delicada e pequena mulher como a Flavinha como dona…Mas isso apenas ressalta o bom-gosto da menina quando o assunto é carro.

Lembrei dele recentemente, quando um outro amigo mútuo estava preparando uma reportagem sobre o carro para uma dessas revistas de “preparação”, e pediu para que o PH escrevesse algo sobre o carro. Com a permissão dele, e pedindo desculpas pelo texto longo, reproduzo aqui o texto na íntegra:

Não tenho culpa de gostar de Opalas.
Quando nasci, em setembro de 1969, meu avô materno percorreu os 500 km que separam Caieiras (hoje periferia de SP; naquela época uma vilazinha simpática do interior) de Itabira (MG) dentro de seu recém-adquirido 3800 azul-calcinha para ver seu primeiro neto.

Meu avô Hanser sempre teve Chevrolets, e ele foi o culpado. Seu segundo Opala, um cupê Especial bege 1972, 4100 com três marchas na coluna, me marcou profundamente. Quando estava já velhinho, meu pai comprou-o como segundo carro da família e assim permaneceu até 1986.
Aprendi a dirigir nele, lavava o cupezão enferrujado regularmente com um carinho reservado a jóias de família.
Quando meu avô morreu inesperadamente, de infarto, tirei o carro da garagem, começei a lavá-lo e chorei feito criancinha.
Sempre achei que esse carro seria meu, sonhava todo dia com isso aos quinze anos. Mas não era para ser. Acabou trocado por alguns seviços de um pedreiro a quem meu pai devia algum dinheiro.

A essa altura, meu pai tinha comprado a primeira de duas Caravans 4 cil. novas, uma 82 branca com uma absoluta novidade: ar-condicionado. No calor úmido do Rio de Janeiro, aquilo foi uma bênção, e meu pai nunca mais viveu sem o equipamento. Seguiu-se uma outra caravan azul 84, depois um lindo Opala standard verde 88, 4 portas, com rodas de alumínio e ar-condicionado, e depois seu último Opala, um Comodoro 4-p 90.

Hoje deve ser difícil de entender, para as gerações atuais, o que significava o Opala para quem viveu a adolescência nos anos 80. Naqueles tempos de antes da liberação das importações, não havia nada tão rápido ou veloz quanto um 250-S bem acertado. E quem tinha seis cilindros debaixo do capô e uma gravatinha na frente, era Rei. Em terra de cego, mas Rei mesmo assim.

Como não poderia deixar de ser, meu primeiro carro foi outro cupê; um Comodoro 80, 250-S completo, mas já bem velhinho. Chamado de "Poçante", pelo óleo deixado em toda garagem que parava. Com ele vim a São Paulo estudar, com ele conheci minha esposa, com ele vivi aventuras que só a juventude vê.

Depois tudo mudou. Pararam de fazer Opalas novos, meu pai não tinha dinheiro para comprar Omegas. A gente hoje se esquece que Opalas eram baratos nos anos 80. Me lembro bem que o Opala 4-cil. std que meu pai comprou em 88 custou preço de Escort. OK, Diplomatas eram caríssimos, mas se você encomendasse um leve standard em 88 com o motor 6-cil., teria o carro mais veloz do país, a preços bem módicos.

Passei anos longe deles. Tentava me enganar dizendo que era coisa do passado, ultrapassada. Me casei, tive filhos e a fila andou.

Até o dia, em 2002, em que vi o cupê preto em questão. Ano certo (com o tempo decidi que opala bom é de antes de 1980; depois viraram velhas esticadas), cor certa, câmbio na coluna. Não estava querendo ou precisando de um carro com quase 30 anos na garagem. Mas o preço era honesto, estava bonito (repintado e completo, mas com algumas bolhinhas de ferrugem aparecendo, denunciando restauração já perdendo a "validade").
Mas foi quando entrei nele... Tudo voltou para mim como uma porrada na orelha. O cheiro! O sofazão dianteiro! Lembrei de férias em Caieiras, de meu avô, da infância, de tudo.

Não tem jeito, não há como negar a sua própria natureza. Velhos Opalas "just feel like HOME to me". Comprei-o na hora.

Tive que reformá-lo inteiro, a ferrugem já avançava e a antiga restauração (provavelmente nos anos 90; sem história prévia conhecida) não tinha sido das mais bem-feitas. Ficou um ano na oficina de meu amigo Ricardo, em Volta Redonda, sendo desmontado, refeito, repintado e montado novamente. Um sem-fim de borrachas, guarnições e briquebraques foram trocados. O carro ficou como novo, ou tão novo quanto um carro de 30 anos tem o direito de ser. O Ricardo é um perfeccionista cujo trabalho pode ser visto nas fotos. E o melhor é que o preço é justo. Este Opala sempre foi mantido com carinho, mas com um orçamento apertadíssimo de um engenheiro que sustenta uma família sozinho.

Fiz este carro como se tivesse sido preparado nos anos 70; rodas palito de magnésio compradas de meu amigo Cruvinel, comando de válvulas da época da Isky, cabeçote trabalhado, 6x2 e um DFV 446. O painel ganhou um contagirozinho no meio.

As rodas de magnésio são o melhor: o carro, que antes usava rodas e pneus de Diplomata 92, se transformou: mais macio, leve, ágil. Prova que esta moda ridícula de rodas enormes é uma bobagem, especialmente em carros antigos. E o melhor: com o dinheiro que consegui vendendo as 92 com pneus ressecados, reformei as palito e comprei 4 GPS3 novinhos!!!

O carro ganhou logo o apelido de Morcegão, dado por um colega de trabalho na VW em Resende. O apelido pegou, assim como Morcego Negro, BBB (Big Black Bat) e outras variações. Em Resende ia sempre ao trabalho com ele, acompanhando os Golf GTI dos gerentes, que depois vinham assustados me perguntar donde tinha saído tanta velocidade de um velho Opala. Brincava que era tão malvado que as flores murchavam à sua passagem. E que a velocidade final tendia ao infinito, visto que até o ar atmosférico fugia de medo do morcegão, mas ficava por volta dos 190 porque nem o ar conseguia ser mais rápido que ele.

Fiquei com ele até 2007. Durante o tempo que ficamos juntos ele rodou sempre e regularmente, nunca levando uma vida de tranqüilidade. Eu acredito que carro é para ser usado, e assim o fiz. Sempre o conduzi com vontade, à moda, o que causava estranhamento na maioria das pessoas, que acreditam que uma carro com mais de 30 anos de idade é só "para passear". Fui para todo canto com ele, e ele se tornou um grande companheiro.

Quando me mudei para São Paulo de novo em 2006, porém, acabei precisando vendê-lo. Fiquei feliz que a Flavinha acabou ficando com ele, pois sei que ela gosta e respeita o velho quiróptero.

Por mim, digo que foi um companheiro inesquecível, um carro com personalidade tão forte que chegava a ter contornos humanos. Todo mundo que me conhece não acredita até hoje que o vendi, como se ele fosse uma parte indissociável de minha personalidade.

No último dia como dono dele, prestei uma homenagem a meu avô e tirei a foto aí embaixo. Mesmo lugar, 33 anos depois.

Mas tudo está bem. Sei que a Flavinha hoje deve gostar mais dele do que eu mesmo e vejo toda esta história minha com o Morcego como um ciclo fechado. A gente não é dono de carro nenhum, apenas cuidamos deles para as gerações futuras, e o velho quiróptero segue iluminando a vida de outra pessoa. So be it, and godspeed, old friend!

E o pior é que, na verdade, pensando friamente, não gosto de Opalas. Eu só não consigo me manter longe deles...
PH

7 comentários:

  1. Citando o véio Mahar, rolou-me uma furtiva lágrima pelo canto do olho... A cada dia olho para os meus Opalas com mais carinho, mas a partir de agora...

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  2. opala é tudo de bom, eu tenho 2 e não cogito vender eles. Um coupe 73 igual ao morceguinho do PH e a caravan verde 76 350. Por mais que eu seja do time do Mopar Rules, acho que opala é um carro fantástico. Tenho até outros Chevys americanos e não deixo os opalas de lado não.

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  3. E esse comentário, vindo de você, me deixa ainda mais orgulhoso dos meus e do Clube. Você pode postar fotos dos seus?

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  4. É um grande prazer ler uma historia tão bonita de um carro que faz parte da historia de quem viveu andando nessas maquinas nos anos 80!!Tb tenho um 74 preto 4100 e quando entrei nele(somente nele) a primeira vez na hora da compra senti o cheiro dos carros de meu pai(já falecido) na decada de 80...
    Abraço

    Ricardo
    Opala CLube Brasilia
    www.opalaclubedf.com.br

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  5. É difícil algo me fazer chorar, mas quando vi as fotos sua e de seu avô eu desmontei. Parabens pela história e pela homenagem.

    Sabe de uma coisa, vou vender meu Lancer GTI turbinado e comprar uma Variant, foi o primeiro carro do meu "Ditchan" (Avô em japonês.r.s..)

    Grande Abraço!

    Carlos E. Sato

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  6. Francisco Neto29/03/10 16:29

    É por essas e outras histórias que me atenho a carros antigos. Eles têm muito pra contar de seus antigos donos, e ainda muito para rodar com os próximos. Seja entre família ou entre amigos, um carro marcante como o Opala não deve morrer: deve prosperar nas mãos dos que realmente se entusiasmam com tanta história debaixo do capô.

    Obg MAO. Por compartilhar um trecho da vida do PH conosco, leitores do AUTOentusiastas!

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  7. MAO, essa frase é muito boa:
    "A gente não é dono de carro nenhum, apenas cuidamos deles para as gerações futuras".
    Grato por essa!

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