22 de janeiro de 2009

RIDE OF A LIFETIME

Prezados,

Desde a última viagem minha com a Ram, fiquei algo decepcionado com o fato de ter deixado coisas legais para trás por não ter conseguido carregar tudo na picapona. Triste, isso não tinha acontecido antes. Não pelo menos com metade dos bens que adquiri com tanto carinho. Muita coisa acabou vindo via transportadora. Isso me deixou muito inseguro.

Há muito tempo que planejo comprar um caminhão de verdade, mas qual? Bom, para iniciar bem a escolha, só aceito comprar algo que seja Chevrolet ou Dodge. Simples desse jeito. Chevrolets são muito mais disponíveis e têm muito mais escolha de modelos, anos e preços bem variados e sempre ou quase acessíveis.

Venho namorando um Chevrolet 1958, nacional, mas como tem uma boa reforma a caminho, penso se é prudente adquirir o veículo, algo antiprático, obsoleto e com uma boa conta de despesas pela frente. Por melhor que esteja, é uma boa obra. Na segunda fui vê-lo novamente, tive o cuidado de entrar entre as longarinas do chassis dele, abri o bujão do diferencial, para ver o que tinha dentro e achei óleo de motor diesel usado. Isso me deixou com um certo receio de que algo não muito legal deveria estar lá antes e que, antes de pensar em continuar, uma boa desmontagem na tampa do eixo deve acontecer antes de qualquer coisa mais séria.

Já vi alguns Dodges à venda, mas sempre com motores diesel xexelentos, tipo MWM 225, ou Perkins 6-357. Claro que prefiro a gasolina, como é sabido, não vou viver de fazer fretes, o caminhão vai servir apenas para me servir quando eu quiser. E por pior que sejam de consumo, não devem ser muito piores que a Ram com seu frugal v10, sendo que já rodei com ele algo perto de 40 mil milhas em viagens pelo Brasil.

Hoje à tarde fui a um ferro-velho procurar peças para alguns carros em que estou trabalhando e conversa vai, conversa vem, descobri que um carinha jovem e aparentemente gente fina, sobrinho da cunhada do meu amigo Samuca, dono do ferro- velho, tinha um D60 77, se não me engano. Não um D60 qualquer, mas um D60 original, de época, com o maldito motor Detroit Diesel 4-53 2-tempos.

Normalmente sou muito contido e evito que minhas emoções transpareçam, porque isso sempre atrapalha a negociação. Mas infelizmente não me contive. Sempre tive motores V8 e motores GM 2-tempos no mesmo patamar, de coisas emocionantes, fantásticas e desejáveis, produtos de uma escola de engenharia muito diferente de nosso cotidiano e representantes de toda uma maneira de pensar e projetar motores. E claro que, ao contrário dos V8, os 2-tempos GM sempre me foram coisas raras, exóticas e fora do meu alcance.

De modo que uns 10 minutos depois de iniciada a conversa, saímos do ferro-velho e fomos à casa do pai do carinha ver o tal D60. Surpreendentemente, o caminhão estava em excelente estado de conservação, pintura da cabine, chassis e carroceria de madeira aberta, tudo muito bem cuidado. O interior da cabine ainda merece sérios cuidados, mas isso são outros quinhentos. Literalmente. Ele me avisou dos pneus dianteiros ruinzinhos, do embuchamento gasto e folgado do eixo dianteiro, da ineficiência dos freios e de uma certa dureza na direção.

E então depois de todo o briefing, ligou o motor. Já tinha algum tempo que eu não ouvia um motor desses funcionando, mas ao ouvir de novo o som, me soou como apenas um velho conhecido a quem não ouvia há um bom tempo. Tive a mesma sensação maravilhosa que sinto ao ouvir meus tão amados V8, mas com apenas um único cano de descarga a fazer barulho.

Como já havíamos falado e combinado antes de saírmos, eu iria dirigir o dito cujo. Manobrei ele algo desajeitado, virei o caminhão em um beco e saí da vila onde ele estava de frente, normalmente. A direção já de cara demonstrou que iria fazer minha vida o mais miserável possível. A folga, se é que é justo que a chamemos desta forma, variava entre 1/4 e 1/2 volta. E os freios, ou melhor seria dizer uns certos retardadores, me lembravam que nada de engraçado poderia acontecer. Ou então quem sabe eu até poderia morrer de tanto rir. As relações de câmbio lembraram-me que se trata de um veículo de trabalho, feito para puxar peso. Primeira simplesmente inútil, segunda quase dispensável, usa-se bem terceira, quarta e quinta. E o câmbio, apesar de sincronizado, é bem dificil.

O motor é completamente diferente de tudo que já dirigi a diesel. E a gasolina também. É suave, quase morto em lenta, mas à medida que se acelera, ele começa a dizer ao que veio e do que é capaz. Como dispõe de um superalimentador mecânico, não depende de boost de turbina para subir. É linear, é liso, é fantástico.

Tratei-o com respeito e dignidade, lembrando que as limitações na manutenção e a minha completa inexperiência com o caminhão em questão recomendavam o máximo de prudência ao conduzi-lo. O dono gentilmente me disse para pegar a via estrutural com ele, mas eu agradeci e disse que não estava nem um pouco à vontade de dirigir um caminhão que eu não conhecia, com o qual tinha nenhuma intimidade e que estava com algumas dificuldades de manutenção em itens sérios no fim da tarde em uma via movimentada.

Retornei ao condomínio dele, estacionei, agradeci imensamente a gentileza dele ao permitir que um desconhecido qualquer conduzisse o seu veículo e me permitisse matar a vontade de guiar um caminhão antigo com motor tão exótico e raro. Um sonho antigo, que eu nem considerava mais ser possível realizar.

Agora vamos ver o que tem de motor aqui para vender para que eu possa resolver essas pendências desse maldito caminhão....perdi mais uma. Ah, e o 58 verdinho? Acho que vai ficar parado mais um tempinho onde está.

17 comentários:

  1. Alexandre,
    Muito legal essa experiência de dirigir um Detroit Diesel. Esses motores estão vívidos na minha lembrança e você trouxe-a de volta de uma maneira ímpar. E compre um caminhão, sim, você precisa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bob, gostaria de deixar aqui uma sugestão de post sobre caminhões antigos americanos e seus motores 2 tempos. Tenho muita curiosidade a respeito dessas maravilhas mecânicas.

      Fabiano.

      Excluir
  2. Ih, vai deixar este escapar?
    Pô, devia ter comprado na hora!

    FREIROLA!

    MAO

    ResponderExcluir
  3. Bob,

    Na ultima ida ao Rio, já na saida da cidade conheci um cara que tem uma firma dedicada inteiramente a eles. Fantástico, muita coisa legal por lá, em são cristovão.

    MAO,

    Não é tão simples assim. Mas pelo menos ele pulou para a pole position, se for catar um caminhão hje, é esse D60 que vai ser a vitima.

    ResponderExcluir
  4. Clésio Luiz23/01/09 14:12

    Alexandre, você poderia comentar mais sobre esses motores diesel 2T, em especial esse Detroit Diesel?

    ResponderExcluir
  5. Marlos Dantas23/01/09 17:30

    AG,
    E você ainda parou pra pensar? O caminhão já deveria estar em sua casa!
    Realmente em São Cristóvão tem muita coisa legal, inclusive se tratando de peças de antigos. Tem uns lugares que passando em frente nem se desconfia, mas quando se entra se encontra uma ou outra "fera" sendo mechida lá nos fundos.
    Passei por lá na 3ª mas estava com pressa e, devido a chuva, nem pude descer do ônibus pra "dar um passeio"...
    Boa sorte na busca do caminhão.

    ResponderExcluir
  6. Antes óleo do que Peido!!

    ResponderExcluir
  7. AG,

    Outro que poderia pintar na lista de pretendentes é daqueles grandes, lentos e amarelos School Bus americanos.

    Vieram alguns para o Brasil, são raros e tem motor V8. Nada mais justo.

    ResponderExcluir
  8. Alexandre,

    Afinal o motor era a diesel ou a gasolina?

    ResponderExcluir
  9. nada mais coerente para quem ama(nós) v8 americano do que gm 2t.se for v8 2t e coisa dos deuses.popr favor,compre. fasça uma vaquinha,eu ajudo

    ResponderExcluir
  10. Pra ver como são as coisas, li esse Post e não estava conseguindo lembrar direito do tal barulho do danado do D60. Lembro que um tio tinha um e eu era moleque, era um verde que não vou arriscar afirmar mas era bem parecido com os "super verde" dos Opalas. Pra tentar avivar a memória fui conversar com um colega do serviço que começou a vida como motorista. Hehe enquanto o AG viu todo o relato como uma sensação memorável meu conhecido descreveu bem o barulho (me fez lembrar afinal!) mas em compensação só conseguia falar mal da 1 ao lado da segunda, que as marchas arranhavam, que a direção é extremamente pesada, dentres outras "Alegrias" proporcionadas pelo chevrolet... Por essas e por outras que a gente vê que o bom ou ruim depende mais da gente que da coisa em si! Ainda bem que to mais pra pensar como o AG, como o MAO no post do seu Chevette e etc... Feliz de nós que olhamos pra esses maravilhosos carros, ou caminhões, com os olhos de quem sabe(ou no meu caso, pensa que sabe) o que cada um tem ou teve de importante pra sua êpoca e talvez até se comparado as nossas modernidades! Parabéns pela descrição do passeio... Me deixou o dia inteiro encucado tentando lembrar os detalhes do D-60!

    Luís F.

    ResponderExcluir
  11. Fábio Pinho23/01/09 22:58

    AG,

    Deixe-me dar um pitaco na sua busca por um caminhão: eu não procuraria mais nada, fechava com esse D60 1977. Os motores Detroit diesel que equiparam alguns caminhões Chevrolet daquela época eram uma "jóia" mal usada e incompreendida pela maioria. Confesso que sou fã desses motores.

    Quanto ao freio hesitante e a caixa de direção com "férias", nada que uma boa revisão não resolva. O importante é que a estrutura está perfeita. O câmbio é bem chatinho, mas com o tempo se pega a manha e as marchas entram mais facilmente (à exceção da primeira para segunda, essa é mesmo um nojo...)

    Quando prestei servço militar obrigatório, havia um Chevrolet C-65, com motor a gasolina (o famoso 4200). Nas poucas vezes que dirigi o dito cujo, em geral esquecia da primeira marcha, por dois motivos: era ruim de engatar e nunca conseguia passar para a segunda sem arranhar. Só me convenci que a primeira e segunda marchas eram sincronizadas após ler seu post...

    ResponderExcluir
  12. Clesio,

    É um 2t valvulado, as aberturas de admissão existem nas camisas, mas o carter tem óleo e bomba como um 4 t normal. O escape é pelo cabeçote e boa, o que comprime ar é o compressor rootes, igual ao usado nos Dragsters.

    Villa,

    Minha religião não permite nem fart power nem alcool se não for para misturar com nitrometano. Diesel só se GM 2 tempos ou scania V8

    Luiz,

    Onibus tem um D700 aqui do lado de casa, com 318 original ainda, excelente estado, carroceria caio gabriela, o dono pede 16 mil...vou pular isso por enquanto, huhuahuahauha

    Giovanni,

    O Brasil 58 era 261 a gasolina, mas o D60 era diesel 2 tempos.


    Ary,

    Obrigado pelo incentivo. O alento é que o dono me disse: preciso vender para comprar outro caminhão mais moderno e pratico de usar, mas não vou vender para que alguém estupre ele com um motor mercedes ou perkins. Me disse sério, quero que voce compre ele, eu te vendo em paz, mas não para outro.
    Eu quero, muito mesmo, mas hoje não posso. Vou receber o resto dos V8 amanhã de manhã, chegaram agora de noite na transportadora, e vou ver se vendo alguma coisa para poder encarar ele. Mas sempre tem alguma coisa para pagar e comprar antes, um saco. E claro, não tenho lugar para enfiar ele ainda. Um amigão (Giovanni) me arrumou um excelente terreno que comprei, mas ainda não consegui construir nada lá ainda, é lá que ele deve ficar junto com o resto de minhas coisas, espero poder me mudar em breve. Na oficina do RJ tinha até 12V71, isso sim algo fora de nosso mundo!

    Luis,
    As coisas valem apenas pelo que representam para nós. Ter algo para demonstrar status é algo de uma pobreza de espirito impar. O MAO, eu e muitos outros aqui vivemos para o que amamos. Eu tenho o que posso e gosto. Não cataria alguma coisa para parecer bacana ou algo no genero. Tem que ter vontade, emoção na escolha. Esse detroit fez eu sentir isso. Agora vou ter que rodar um pouco a bolsinha e ver o que acontece....

    Fábio,

    Mas são sincronizadores muito ruins e ineficientes. 1 para 2 é dificil sim. Eu planejaria uma troca de cambio num futuro proximo se ficar realmente com ele. Poria algo mais moderno e eficiente. E com a primeira para trás, e nunca ao lado da segunda. Esses cambios fuller e primeiros e antigos modelos de clark são mesmo péssimos de usar. Eu achei o caminhão meio curto, pior é que nem tem opção de deixar mais longo no eixo original dele, na alta a relação final é 5,57/1.

    ResponderExcluir
  13. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  14. Xará, ele deve ir bem com autotrans. O problema é arrumar uma.
    Se você pegar o caminhão, qualquer dia desses te acompanho numa viagem dessas para irmos revezando ao volante, blues no cd player e o Detroit diesel tocando musica na descarga.

    ResponderExcluir
  15. Xará,

    Pensei exatamente nisso, numa da ZF que usam muito em onibus. Imagino que ficaria perfeita. Essa ia ser uma viagem memorável. 2 stroke blues all the way.....

    ResponderExcluir
  16. [b]Aqui na minha cidade,um camarada me ofereceu um detroit 4cilindros por 300 reais,fiquei louco pra comprar,ele trocou o detroit por um perkins e esta arrependido até hoje.entre uma conversa e outra ele chegou a me contar que o detroit consegui rodar sem diesel, apenas queimando oleo do carter por até 3 km! esperiencia propria ele me disse.

    ResponderExcluir

O Ae mudou de casa! Todos os posts do blog foram migrados para o site. Por favor busque por este post no site e deixe o seu comentário lá.
Um abraço!
www.autoentusiastas.com.br

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...