30 de janeiro de 2009

Suicídio

Já escrevi sobre isso na minha coluna "Do Banco do Motorista" no Best Cars Web Site (parei de trabalhar lá dia 9 último) faz pouco tempo. Os setores produtivos estão cometendo suicídio ao demitir funcionários. Não sou economista, mas reduzir o tamanho do mercado quando mais se precisa que ele cresça ou, pelo menos, se mantenha, é o mais autêntico suicídio.

Manter funcionários em tempo de crise não é queimar caixa. Pelo contrário, é sinal de inteligência, é assegurar o funcionamento da economia e, por conseguinte, a saúde da própria empresa. Será que é tão difícil entender isso?

Demissões nos volumes que estão ocorrendo assustam e travam inequivocamente os negócios. A empresa que demite até pode festejar a tomada da medida, sob a ótica de estar evitando sangria de caixa, mas está contribuindo para um efeito ainda mais perverso da crise financeira que assola o mundo desde setembro. Ela está realimentado a crise e ela própria sofrerá as consequências. De novo a pergunta: será tão difícil entender isso?

Quando eu era gerente de imprensa da Embraer, vivenciei lá, no meu escritório em São José dos Campos, o ataque terrorista às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Vi o segundo impacto ao vivo e em cores. Os negócios pararam, pedidos de aeronaves foram cancelados ou os compradores pediram adiamento das entregas. Quinza dias depois, demissões. Dezoito por cento da força de trabalho no olho da rua.

Lembro-me como se fosse hoje: as ações da empresa na Bolsa de Nova York subiram. Os acionistas apreciaram a medida que visou salvaguardar a saúde financeira da Embraer...

Então a indústria vem e demite de todo lado. Será que os executivos acham que as pessoas vão começar a comprar de novo, assim, de repente, do nada? Será que acreditam mesmo em milagre?

Veja-se que a sistemática de demitir não está sendo praticada só aqui, mas no mundo inteiro. As notícias que não param de chegar a respeito são, de fato, assustadoras. O que será que estes dirigentes estão pensando, afinal? Que vão salvar seus negócios? Estão completamente enganados. Vão acabar com eles.

Estão cometendo suicídio.
BS

8 comentários:

  1. Impressionante como algo tão claro não é percebido pelos demais. Mais impressionante ainda é saber que esse ciclo crise/demissões/recontratação pouco tempo depois acontece com frequência e, mesmo assim, toda a vez a história se repete...

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  2. Concordo com voces, porém uma andorinha não faz verão. Se uma empresa mantém os empregos e as demais demitem. Acredito que esta empresa que manteve irá sofrer uma perda financeira muito forte já que terá uma queda na demanda de produto e manterá o custo de seus funcionários. Uma solução possível que o governo brasileiro não adotou seria abaixar os impostos de TODA a rede produtiva, não apenas do IPI para carros.

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  3. Rafael, reduzir impostos de toda ordem é mesmo um grande estímulo, mas só dentro de um quadro de emprego normal é que seu efeito aparece.

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  4. Aparece mais evidentemente dentro de um quadro normal, mas quando vários países estão em crise e em recessão financeira, alguem tem que ou injetar dinheiro na economia ou reduzir o custo dos produtos. Já que o Brasil possui um lastro financeiro maior do que todas as empresas, acredito que seja mais facil para ela segurar esta encrenca. Embora concorde que as empresas não podem simplesmente dispensar pessoas visando manter seu lucro e que se dane os funcionários.

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  5. Caro Bob,
    Concordo com você no princípio da sua colocação, mas como diz aquela frase: na prática e teoria é outra...
    Hoje as condições de treinamento de pessoal, manutenção de experts em algumas especialidades chave para a empresa, treinamento de sucessores destes experts, reconhecimento do capital que a inteligência corporativa de um empreendimento (que muitas vezes está mais nas cabeças de seus funcionários com experiência do que em manuais corporativos – aliás, a salutar prática de coleta e manutenção desta inteligência corporativa sob a forma de manuais internos revistos rotineiramente de há muito é coisa do passado) ocupam segundo ou terceiro lugar nas preocupações de empresas “modernas”.
    Isto de reflete muitas vezes na qualidade do produto final, seja ele serviço, seja ele algum tipo de bem.
    Você sabe que nos EUA, tirando os nababos que ocupam posição de diretoria (muitas vezes sem merecer) e que têm contratos com bônus e multas por rescisão de contrato bilionária, o povo tipo chão de fábrica é massa de manobra, não tendo praticamente nenhum tipo de proteção em demissões. Isto permite uma velocidade muito grande nas decisões de fechar um empreendimento pura e simplesmente.
    Aqui temos as leis trabalhistas que muitos classificam como um fator significativo do custo Brasil. Isto implica num grau maior de delay nas demissões de funcionários.
    Mas, voltando a seu foco, eu me interesso pelo assunto rotatividade de potencias numa empresa desde a década de 70 e vejo que ainda hoje o assunto é uma incógnita para muitos. Aliando este fator, à ameaça, ou melhor, já à presença da crise no Brasil, à mudança conceitual sobre o capital da inteligência corporativa, à globalização que por cruéis vasos comunicantes importa crises do outro lado do mundo para o Brasil, e finalmente à queda real também na qualidade de alguns de nossos executivos, iremos sim enfrentar um turbilhão de problemas devido às demissões muitas vezes incompreensíveis.
    Sei de empresas que começaram a uns 10 anos atrás a exportar suas “inteligências” para as respectivas “casas matriz” para não ter que demitir este povo; só que agora estas “casas matriz” não são mais um refúgio seguro...
    Resumo da ópera: nossa indústria irá perder muito com as demissões, é uma triste realidade, vamos encontrar um ponto de equilíbrio, mas a cada um destes “soluços’ da economia este ponto de equilíbrio cairá para um patamar mais baixo. Sairão fortalecidas as “ilhas de tecnologia” que, por suposto, ficam na sua maioria acima do equador...
    Parabéns pela lucidez de seu comentário Bob!
    Um abraço
    Alexander Gromow

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  6. Marlos Dantas30/01/09 22:45

    O que temos visto diariamente nos noticiários tem se tornado um ciclo. A empresa demite pra enxugar gastos, o desempregado não pode consumir, enfraquece-se a economia e a empresa que demitiu tem prejuízos ainda maiores que a manutenção dos funcionários demitidos. Um clássico círculo vicioso (como naquela propaganda ambientalista “O que você faz volta pra você”).
    Ontem, numa entrevista a um telejornal global, o Ministro Mantega tratou desse mesmo tema, porém, em relação aos juros praticados pelos bancos em terras tupiniquins. Tal como o “fenômeno” das demissões, elevar as taxas de juros nos serviços de crédito para lidar com a inadimplência é absurdamente paradoxal! Segundo a turma lá dos bancos, os juros altos funcionam como uma forma de “fundo” para se prevenirem dos desfalques causados por possíveis calotes. Porém, o mais lógico seria evitar que o calote ocorra, para tal, a vida do cliente deveria ser facilitada com juros menores e, conseqüentemente, prestações mais baixas.
    Estamos vivenciando mais uma (temida) crise cíclica do capitalismo e, acho que desta vez, nem mesmo a Rússia escapa. Economia é realmente uma loucura...

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  7. O Henry Ford desenvolveu a Ford com o dinheiro que ele mesmo pagou a seus foncionários que eram os principais consumidores dos carros que construíam.

    O problema é que o ser humano não está nem aí com o próximo. Como disse o Raphael, uma andorinha não faz milagre. Sempre vai existir pelo menos um Gerson que quer se dar melhor que os outros. Aí quando os outros percebem passam a seguí-lo.

    PK

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  8. Não demitir em época de crise (real ou imaginária) é atitude de coragem. E para se ter coragem é preciso ser gente de verdade, artigo em falta dentro de grandes empresas.

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