31 de março de 2009

GPS on, cérebro off


Desde a popularização do GPS como instrumento-guia para que as pessoas se desloquem de um ponto a outro com precisão, temos ouvido repetidas vezes na imprensa toda uma série de acidentes esdrúxulos, sem o menor senso crítico.

É como se as pessoas ligassem seus GPS e junto desligassem seus cérebros. Os números são assustadores.

Segundo o jornal inglês Mirror, uma pesquisa que levou em conta um universo de 14 milhões de usuários de GPS levantou fatos desconcertantes. Pelas estatísticas, estimou-se que:
- 300.000 motoristas sofreram ou quase sofreram algum tipo de acidente seguindo orientações do GPS;
- 1,5 milhões de motoristas mudaram repentinamente de direção, por indicação do aparelho;
- 5 milhões receberam indicações de conversão na contramão;
- 1 em cada 10 motoristas alega que cometeu infrações ou manobras perigosas seguindo as ordens do aparelho.

Estes números são graves, e indicam um aumento do número de acidentes com o crescimento do uso do GPS.

É difícil para nós compreender como acidentes aparentemente tão sem sentido possam acontecer, causados pelo GPS. Qual seria a origem deste fenômeno?

A resposta, por incrível que pareça, está na estrutura do nosso cérebro.

O cérebro é um órgão que se desenvolveu ao longo de milhões de anos, servindo para orientar o organismo dentro de um ambiente hostil e pouco previsível. Porém, diferente dos computadores a que estamos acostumados, o cérebro não seguiu uma linha lógica de evolução.

Um dos mecanismos-chave de qualquer cérebro de sucesso é a capacidade de resposta rápida a estímulos. Se um animal é atacado de surpresa por um predador, o cérebro não tem tempo para processar muita informação. Há um circuito cerebral elementar (e por isso de resposta muito rápida) que faz o animal dar um salto na direção oposta ao do predador.

Podemos estabelecer uma linha evolutiva do cérebro junto com a evolução das espécies. O cérebro dos peixes é bastante primitivo, reagindo de forma simples ao ambiente que o cerca. Não é um cérebro evoluído que resolva problemas muito complexos, mas que oferece grande diversidade de respostas rápidas a estímulos ambientais.

Já os répteis possuem um cérebro bem mais evoluído, mas que veio originalmente do cérebro dos peixes. A evolução do cérebro dos répteis não criou algo novo, mas adicionou camadas extras ao cérebro dos peixes, e a interação entre as camadas antigas e as mais recentes é complexa. Em algumas situações, os circuitos de resposta rápida da camada mais primitiva foi suprimida em favor de outro circuito na camada mais evoluída. Em outras situações, há dois circuitos, um primitivo e outro mais evoluído, trabalhando em paralelo para oferecer respostas ao mesmo estímulo.

O ser humano, sendo um mamífero, possui camadas sobrepostas ao cérebro de nossos ancestrais longínquos. Assim, temos desde mecanismos primitivos vindos dos peixes, passando pelos de répteis, e com um córtex de mamífero extremamente desenvolvido.
Nosso cérebro é o mais complexo de toda a natureza, e, portanto, o que mais oferece riqueza de respostas a estímulos.

O ser humano evoluiu de espécies de macacos que viviam em bandos. Estes bandos possuem uma estrutura social, e, o que talvez seja surpreendente, muitas estruturas do nosso cérebro são voltadas para facilitar este convívio social. Há vários circuitos de resposta rápida em nossos cérebros para situações sociais.

Podemos ver isto em ação em nossas vidas. Na escola ou no trabalho, nunca se forma um grupo único. Gostamos de formar vários grupos menores (também conhecidos como “panelinhas”).
Torcidas esportivas é um outro tipo de grupo, e grupos dentro da torcida é uma nova divisão dentro de um grupo maior. É assim porque nossa capacidade de formar grupos está impressa em nossos cérebros.

O mesmo mecanismo explica a violência de torcidas. Num bando de predadores, quando um do grupo é atacado, a resposta rápida do cérebro é revidar a agressão contra o agressor, defendendo o membro atacado. Brigas de torcida começam entre poucos elementos, mas o clima de defesa e retaliação se propaga entre duas massas de pessoas que, fora dos estádios, são pacatos e honestos cidadãos. Este comportamento grupal tem paralelo direto no comportamento de matilhas de lobos que nossos cães herdaram.

Dentre estes comportamentos imediatos há um em particular. É a capacidade de seguir ordens de forma imediata e sem questionamentos.

Durante uma caçada, o risco sempre era enorme. Se desse algo errado, o perigo rondava a todos. Num grupo de caçadores, a coesão do grupo e o sincronismo de cada membro era fundamental para uma caçada ser feita com êxito e o mínimo risco. Não havia tempo para pensar ou questionar. Um líder dava as ordens e os demais obedeciam. Circuitos cerebrais de resposta rápida foram estabelecidos favorecendo este aspecto social.

No entanto, como a evolução humana foi muito rápida, estes mecanismos cerebrais não tiveram tempo de serem desarmados ou suprimidos. Ainda somos muito parecidos com nossos ancestrais trogloditas.

GPS possuem sintetizadores de voz com frases previamente gravadas. Elas são pronunciadas de maneira firme e compassada, e em nada carregando a entonação em sincronismo com a situação vivida pelo motorista.

Se o motorista estiver dirigindo “no automático” (usando circuitos cerebrais mais primitivos que guiam suas ações), então muitas de suas atitudes ao volante não passam pelo crivo da parte crítica racional que está no córtex, e interpretar e obedecer de forma imediata a voz do GPS como uma ordem dada por um líder é um passo. Esta é a razão para tantos desatinos ao volante na presença de um GPS-guia.

O uso de computadores tem agravado um aspecto da vida moderna. Há um limite de fluxo de informações com as quais o cérebro é capaz de lidar, e com os computadores esse volume cresceu muito nos últimos anos.

Antigamente, o motorista tinha apenas que dirigir e conversar com os passageiros. Hoje ele tem de dirigir, controlar a velocidade para não ser multado, atender ao celular (e ter de segurar o aparelho junto ao ouvido), seguir as indicações visuais e auditivas do GPS, com a pouca distância dos carros ao lado e o tempo perdido nos congestionamentos, informações do trânsito passadas pelo rádio.
Algumas pessoas não toleram esse volume de informação, e passam a realizar várias destas tarefas no “automático” (usando circuitos cerebrais primitivos e sem senso crítico). O resultado, algumas vezes, é o desastre.

Este fenômeno foi observado pelos militares quando entraram em serviço as aeronaves hoje em operação, como o F-15 e o F-14. A resposta à crescente carga de informações sobre o piloto direcionou muitos dos desenvolvimentos de substitutos, como o F-22 e o F-35, onde funções mais “prosaicas” como pilotar o avião são passadas do piloto para os computadores de bordo, permitindo ao piloto se concentrar na parte mais crítica da missão.

Hoje, a sobrecarga de informações e a resposta instintiva inapropriada a várias delas já vem sendo considerada como doença epidêmica pelos especialistas.

Fica a questão de quanto tempo irá demorar para que os computadores embarcados passem a agir por conta própria para evitar enganos cometidos pelo prodigioso cérebro humano.

16 comentários:

  1. tem muita gente tambem que acha que o GPS é 100% correto, quando na verdade nós sabemos que não é bem assim...

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  2. Clésio Luiz31/03/09 13:33

    Nem sempre o computador no comando é a opção mais segura. Já ouve muitas mortes na aviação por causa de tomadas de decisão erradas por parte do computador. O acidente com o Airbus da Tam em São Paulo teve um pouco disso. Não foi falha única dele (o computador) mas certas lógicas adotadas pelo fabricante na hora da programação podem ser uma grande armadilha em algumas situações de emergência. Geralmente o aviões dotados de FBW (vôo por fios) possuem um modo de comando direto (override?) sobre a aeronave para situações críticas. Dois exemplos:

    - Os pilotos de caças Su-27 russos executam a manobra "Cobra" acionando um botão que corta o intermédio do computador e faz com que o avião obedeça ao piloto, não importando o que o FBW pense sobre isso. O Su-27 tem um limitador de AOA (angulo de ataque) em torno de 25°. Desligando o FBW, o caça chega a alcançar 120° durante a "Cobra";

    - Lembram daquele F-16 da equipe acrobática "Thunderbirds" que se esborrachou na pista durante uma apresentação? Claramente o limitador de AOA estava impedindo que o piloto levantasse o nariz do caça para sair daquela situação. Embora precisasse exceder esse limite para sai daquela emergência, o computador não era programado para isso, o limite não foi excedido e no fim o jeito foi o piloto cair fora junto com o assento ejetável. O F-16 possui um comando para cancelar o limitador de AOA, mas nos poucos segundos que o piloto tinha desde que percebeu que iria se esborrachar no chão, quem disse que ele se lembrou desse bendito comando?

    Um exemplo automotivo são os freios ABS. Quem nunca ouviu falar que ao precisar de uma frenagem de emergência numa estrada com muitas ondulações ("costela de vaca"), o ABS simplesmente deixou o carro ir em frente? Câmbios automáticos eletrônicos nem sempre fazem o que a gente quer.

    Confiariam vocês num volante que se liga as rodas por fios elétricos? O pessoal da aviação confia a décadas, mas são sistemas com 4 canais de redundância e obviamente a manutenção dos aviões em geral é levada muito mais a sério do que a dos automóveis.

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  3. boa colocação Clésio, eu as vezes fico com um pé atrás com esses carros que usam uma grande tecnologia embarcada, controle de tração, controle eletronico de suspensão, e etc... quando são novos ainda vai, mas depois de um tempo...a eletronica, informática é muito evoluida, mas nem tanto confiavel quanto a mecânica...

    isso me lembra uma piada que ouvi de um professor quando eu cursava a faculdade de ciências da computação:

    estavam em uma carro um engenheiro mecânico, um engenheiro elétrico, e um engenheiro da computação, quando derrepente o carro parou e não queria mais pegar, o engenheiro mecânico disse: - ah, isso é a correia do alternador, foram lá, trocaram a correia e nada.. o engenheiro eletronico respondeu: - isso é só a bateria, trocaram a bateria e nada, foi então que o engenheiro da computação falou: - vamos todos entrar no carro e fechar a porta ao mesmo tempo! os outros começaram a rir, porém o fizeram, e logo o carro voltou a funcionar perfeitamente

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  4. 1/3 do universo pesquisado entrou na contramão? Sério isso?

    O que está havendo é que o cérebro está levando o GPS muito a sério e liga a linha direta.

    Portanto, para voltar o cérebro à ligação indireta ,com todas as indagações milissegúndicas a serem feitas, recomendo aos programadores de voz de GPS iniciarem assim:

    Voz Feminina,doce e suavíssima, do New GPS :

    " Querido, você está me ouvindo?" Ao que o motoristorista murmura

    " Uhum"

    " então tá, amor. Que tal na próxima esquina nós virarmos,pode ser ? "

    " vou pensar"

    Uma brecha de tempo depois, tempo suficiente para ter assegurada e marcada sua posição de macho dominante no território que no momento é o carro e ainda tentar abduzir a voz feminina, o gaiato responde :

    " Tá ok, eu viro lá, mas só dessa vez , e capriche no jantar hoje hein? "

    PRONTO. O que falta para a indústria do GPS é estudar um pouco a logística do ser humano.

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  5. Marcelo Augusto31/03/09 19:54

    Próximo aqui de Mauá divisa com São Paulo tem uma rua de dá num barranco. Detalhe que ela é acesso a uma importante avenida, e vc não tem visão, só vê que acabou a pista quando chega na beira do precipício, pois há casas e asfasto bom até o ponto de cair.

    Quanto ao GPS, não há nada mais útil. Mas é preciso planejar o caminho do mesmo modo que com um mapa, o aparelho até tem esta função. Pois muitas vezes ele se atrapalha. Certa vez precisei sair de Poços de Caldas para Areado e ele sempre indicava retornar o caminho, aumentando em 1h o percurso, tanto indicando pedágio ou não. Quando indiquei passar por uma cidade no caminho para Areado ele entendeu qual era o caminho mais curto e de menor tempo.

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  6. De Poços a Areado tem que explicar Monte Belo para o GPS, se explicar Serrania darás uma boa volta.

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  7. Marcelo Augusto31/03/09 21:22

    Pior que não adianta explicar Monte Belo, eu fiz o teste. O caminho padrão é voltar pra Mococa!! Tem que dizer que vai por Cabo Verde/Divisa Nova, eu achava que ali tinha estrada muito ruim ou de terra, mas não, o GSP é burro mesmo. Tem muita coisa pra melhorar, ainda bem que descobri cedo que ele faz destas besteiras antes de abandonar o velho mapa e sair por aí.

    Vc mora por aí Alexei?

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  8. Marcelo

    Isso, Cabo Verde e o GPS entende

    Sim, moro nessa região de serras deliciosas de guiar, e retas na estrada que contorna Furnas, em descidas e subidas longas e fortes onde todo carro dá o máximo

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Se um GPS funcionasse precisamente, no WRC estaria extinto o copiloto. Porém num país onde entrar errado em uma esquina pode ocasionar um assalto, o aparelho torna-se utilidade pública.

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. abandonei o gps pois seguidamente ele me orintava a seguir por ruas sem saida, ou então a fazer conversões proibidas, muito perigoso essa porcaria

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  13. O navegador por GPS hoje é tão essencial à vida quanto o telefone celular e a internet O fato de às vezes errar não lhe tira o mérito de ser o melhor auxiliar que o motorista pode ter.

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  14. Há várias coisas a serem consideradas nesse caso.

    O GPS erra porque é um produto humano como outro qualquer.
    Há imprecisões nos algoritmos de roteamento, erros, falhas e falta de informações nos mapas, Falta de atualização de informações, etc..
    Por tudo isso o GPS erra.

    Mas o pior que o artigo tenta mostrar é que, por mais que o GPS erre, não é ele quem está comandando o veículo, mas um ser humano. O GPS pode até errar, mas com bom senso, o motorista evitaria situações constrangedoras ou perigosas.
    No entanto, pela sua natureza, obedece cegamente o aparelho e dá seguimento ao erro do equipamento. Esta é a falha mais grave, e é ela o foco da discussão.

    Sobre o uso de automações nos aviões, posso dizer com tranquilidade que há muito preconceito até por desconhecimento da engenharia que há por trás dela.

    O setor aeronáutico civil sempre foi muito sensível a acidentes. Basta haver um acidente aéreo grave, e logo todos os vôos passam a voar com capacidade parcial. As pessoas tem medo de voar.

    A automação do vôo oferece seus riscos como qualquer outra peça de engenharia, mas ela é usada porque ela é muito superior ao ser humano na toamda de decisões.
    Acidentes onde a automação leva a culpa logo são destacados pela imprensa, mas o número imenso de acidentes que ela evita só são percebidos nos simuladores de vôo. Para cada acidente simulado causado pelos computadores, há mais de uma dezena dos causados sob comando humano pleno.

    Sobre a manobra "Cobra" do Su-27, ela foi amplamente estudada pelos engenheiros. Um Su-27 foi especialmente instrumentado e o piloto criador da manobra a ralizou repetidas vezes. Os resultados foram levados para simuladores, e os resultados viraram uma nova função do computador de fly-by-wire do avião.
    Hoje qualquer piloto que voe pela primeira vez no Su-27 pode executar essa manobra com precisão maior que a do piloto que a criou.

    Quem acredita que o homem é sempre superior à máquina, é melhor rever seus conceitos. Um dia pode ser que a máquina tome seu lugar.

    Isso é legal de ler nos contos de ficção científica, não existe na vida real.

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  15. não que o homem seja superior a maquina, mas quando se junta a lei da fisica, com a lei da quimica, com os algoritimos.... ja viu né?
    é mais ou menos a resposta que o diretor da GM deu ao Bill Gates, hehehe

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