29 de julho de 2009

CAPETA, UIRAPURU E BIGBLOCK CHEVY

Hoje foi um dia bem diferente e divertido.

Primeiro, na manhã fiquei montando uns motores aqui de uns amigos.

Depois, recebi um telefonema de um outro amigo que era para eu ir buscar um motor que ele queria que eu mexesse para ele. Já estava esperando isso, já estava combinado, mas como o motor em questão é um Chevrolet bigblock de 496 polegadas cúbicas, bem, digamos que sai de casa bem ansioso para pegar logo ele. Carreguei na Ram e ainda nem abri a caixa. Isso é assunto para outro post. Até porque esse motor é umVortec 8.1, motor moderno, idêntico aos usados nas Silverados gringas, sendo na verdade como uma Geração 7, novos bigblocks com tudo deferente da última revisão, chamada de Gen 6. Não tem distribuidor, cabeçotes são novos, admissão completamente e não-intercambiáveis com as anteriores. Mas pelo que li em uma única reportagem numa Hot Rod há uns tempos atrás, a parte de baixo do motor troca muita coisa com os antigos. Aguardem e verão em detalhes coisas que nem os gringos viram direito ainda.

Depois de pegar ele, um outro amigo me esperava para eu finalmente funcionar um motor que fiz para ele há alguns anos, mas que por conta do carro ainda não estar pronto, nunca funcionou. O carro, um Uirapuru. O Amigo, o Nasser.
Chegando ao Museu, organizei as ferramentas e comecei a trabalhar. Já esperava alguma lenha com os carburadores SU, mas o trabalho que um cara amigo e especialista neles fez valeu muito a pena, uma vez que a bomba carregou todos com gasolina, só alegria e felicidade. Lenta lisa, respostas fulminantes no acelerador, nem acreditei, só tive mesmo trabalho de ligar os cabos de vela e abastecer ele e pôr uma bateria lá. Caramba, todo o trabalho que eu tive medindo tudo, balanceando o virabrequim, equiparando peso de todos os componentes - aqui uma nota: o virabrequim estava perfeito, pediu para tirar coisa de 8 gramas numa ponta e cerca de 20 na outra. As bielas, o máximo que achei foi 6 gramas de variação da mais leve à mais pesada, e acertei o peso compararndo dinamicamente as pontas, pesando pé e cabeça para que ficassem perfeitas dinamicamente, e os pistões, ótimos Metal Leve, estavam todos com peso idêntico - valeu muito a pena, o resultado foi muito bom e eu fiquei muito feliz ao ouvir depois de alguns anos o motor que fechei com tanto esmero.

Fizemos um retrabalho de cabeçote idêntico ao feito pelos preparadores americanos nos anos 50, passando uma broca de 38 mm nos dutos de admissão e três ângulos nas sedes das válvulas, e para fechar, além do vedador acrílico no mancal traseiro, importado, no lugar da odiosa gaxeta e um excelente comando copiado pelo Genial Jorge, da Sobe Retificadora, e fechamos tudo, embrulhando bem para presente.

Não andamos com o carro, porque precisa de uma revisão de freio, mas que promete e muito, isso lá promete.


Depois do Uirapuru, encarei o Capeta. Claro, tinha um cheirinho de enxofre, mas tudo correu bem. Primeira surpresa, o motor estava solto, depois de um bocado de lubrificante nos cilindros através dos orifícios das velas. Logo, conversando, sugeri que retirassemos o cabeçote para ver de forma rápida e segura o que tinhamos lá dentro.




Sugestão aceita, comecei a árdua e extenuante tarefa de retirar o cabeçote dele fora, já pensando no esforço que seria tirar o dito cujo de dentro do cofre do motor, que é bem largo e baixo.


Foi quando tive a maior surpresa dos últimos tempos: o cabeçote é feito de aluminio. Isso, de alumínio! Eu sei que o pessoal do Willys Club of America importou vários Aero-Willys brasileiros para lá por conta de serem únicos e sem similar por lá. Quando eles souberem que a própria Willys-Overland do Brasil se deu ao trabalho de fazer um supercabeçote em aluminio para os motores BF, acho que todos piraram o cabeção em uníssono. Essa foi uma das descobertas mais fantásticas que fiz, uma grande surpresa, inimaginável, e que atesta o quanto esse projeto foi prezado e tratado com tanta seriedade por eles à época. Mais incrível ainda, a peça é o protótipo industrial que deu origiem ao bom cabeçote com coletor de admissão separado exclusivo dos Itamaratys que estavam por vir.
Desta vez, em contraste com a decepção ao desmontar o motor do Uirapuru, quando esperávamos, em função do que ouvíamos, de comandos Iskenderian, cabeçotes rebaixados, e outras mumunhas, e nada achamos, nesse capetinha a surpresa já veio de cara. Ainda tem o resto do motor para abrir, mas essa surpresa já faz quase que qualquer outra ser apenas ou quase irrelevante!

AG

33 comentários:

  1. É o grande AG e seu destemido amigo Nasser mantendo a história !!!!
    Parabéns e continue nos brindando com esses posts sensacionais.

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  2. Arnaldo Keller30/07/09 08:59

    Bárbaro, AG!

    Ótimos relatos. Muito bem descritos. Perfeitos para entusiastas sedentos de graxa.
    Manda bala!
    Manda o diário de bordo aí.

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  3. Tem que abrir um Fotolog pra colocar os detalhes sórdidos do motor, do carro etc etc etc....

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  4. Cesar,

    Quando se mexe num carro assim especial e unico, todo cuidado é pouco para poder ver o que tem de diferente nele. Ainda leva um tempo para começarmos a mexer no motor mesmo. Quando tiver novidades, mando!

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  5. Mestre Ogro, foram feitos só 2 diabinhos desses, não ? E só esse sobreviveu ?

    Como está o carro no geral, tem salvação?

    Sensacional esse relato, nos conte tudo. :)

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  6. Rodrigo Laranjo30/07/09 10:29

    Eu PAGARIA pra trabalhar nessa oficina...

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  7. Alexandre,
    A sua coluna deve ter ficado muito feliz na hora de suspender o cabeçote. Espero que não tenha batido a cabeça no capô. Não esqueça que um mecânico legista precisa fotografar tudo e registrar nos autos(entusiastas).

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  8. Carlos Galto30/07/09 12:03

    Isso não é trabalho...

    Quando eu passar dessa pra melhor, quero ir pra esse paraíso!!
    Mas podem esperar um bom tempo ainda.

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  9. AG,

    Vc está escarafunchando a alma de Rigoberto Soler!

    Cuidado, mexer com defuntos e capetas não é para qualquer um.

    Sua sorte é que, sendo uma criatura mítica também (Ogro), corres menos risco do que um ser humano.

    MAO

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  10. Sensacional e emocionante de ler Ogro. Indescritível deve ser a sensação de estar mexendo e descobrindo tantas coisas dessas num dos primeiros tesões de quatro rodas da história do automóvel nacional.
    Como sugerido nos comentários já feitos, esperamos um diário de bordo desse aí.
    [ ]s,
    CZ

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  11. AG

    Sacanagem. Sério mesmo. Isso num se faz. Capeta E Uirapuru ao mesmo tempo, é sacanagem pura. kkkk

    abs

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  12. AG, sensacional acompanhar esse texto. Filhos já tem , plantar arvore (não lhe caberia bem)...só falta escrever o prometido livro com varias historias do Ogro !
    [ ]s
    EZ

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  13. Prezado Italo,

    Eu não sabia do segundo, achava que era apenas esse. Esta em excelente estado. A fibra e a pintura estão excelentes, o carro é impecavel. Precisa de atenção e carinho no interior e na mecanica. E tudo será muito bem documentado. Esse projeto vai andar um pouquinho devagar no incio, mas breve decola com força.

    Rodrigo,

    Apareça e a gente bebe umas coca colas juntos aqui!

    Giovanni,

    A sorte é que eu usei primeiro uma alavanca para descolar ele do bloco. Nesse momento vi que tinha algo errado. Muito fácil, pensei eu, já pensando na coluna. Aí na hora que meti a mão para levantar ele veio tão fácil que nem acreditei. Mas pode ficar sossegado, tudo será documentado nos minimos detalhes.

    Carlos,

    Não é mesmo não. Me lembro sempre da Elis que dizia que não via graça na vida em fazer outras coisas como via em cantar. Eu amo essa coisa de graxa também, tenho certeza absoluta que se pudesse fazer apenas isso, e para pessoas sempre entusiasticas, como o Nasser, eu não ia querer saber de mais nada.

    MAO,

    Pois é cara, por vias das duvidas, levei um bom charuto baianinho no bolso, um par de patuás pretos e vermelhos, pedi licença e cai para dentro! Mesmo assim uma chave L escapou e deu uma bela martelada no meu dedo médio da mão direita. Meia unha de ogro preta agora...mas sério, eu acho que o Milton acertou na mosca, Capeta e Uirapuru juntos é dose até mesmo para um ogro velho, verde e horroroso que nem eu! E se for olhar bem, os carros tem tudo a ver um com o outro, tem muito a ver mesmo. Uma sessão de fotos com ambos em um local averto, legal e com um bom fundo seria algo sensacional. PK, cadê voce, homem?
    Mas teremos outro post seriamente sacana em breve, com dois opalas, um azul em obras e um branco pronto! Ambos ogro powered!

    EZ,

    cara, voce nem imagina quantas arvores eu já plantei, quero meu pantano bem arborizado! E o livro, bom, breve, assim que arrumar um tempo escrevo. Prometo!

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  14. EZ,
    Você está enganado, não conhece a outra face do ogro. Ele é o cara que mais planta árvores e adota cãezinhos abandonados que eu conheço. Ele tem muitos créditos de carbono para vender mesmo com tantos motores grandes que ele coloca nas ruas.
    Melhor aguardar o livro.

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  15. É, agora eu me lasquei...como vai ficar minha fama de mau? plantando arvores e recolhendo cãezinhos abandonados... tsc tsc, não se fazem mais ogros como antigamente.

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  16. Marlos Dantas30/07/09 23:39

    Boa AG, ótimo e emocionante relato.

    Como já disse em outro post: você deveria “converter” o Nasser a colunista desse blog...

    Será que esse Brasinca foi além da máxima "coisa pra inglês ver" e acabou sendo "coisa pra inglês copiar" no caso do Jensen Interceptor?

    Abraço.

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  17. Como é que é?
    Um segundo Capeta????
    Quem sabe, conta pelamordedeus!

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  18. Alexandre,o Museu do Habib é para deixar qq um doido, vc se divertindo com essas relíquias e eu sofrendo com uma Djet de uma 280E 73 que não consegue retornar combustível para o tanque , em vez de 2 bar na linha tem 6bar!!!vai explodir tudo o que é mangueira,hahahaha, bons trabalhos aí,abraços do Maluhy!

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  19. Mais um trabalho do Ogro, hehe.
    Isso sim que é botar a mão na história.
    Parabéns e documente tudo.

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  20. Muito legal, fiquei surpreso tbém, não imaginava que naquela época estariam tão a frente dos outros.

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  21. Alexandre:
    Ao que consta foi feito apenas um Capeta. O tal segundo, acho que as pessoas se referem ao chamado Interlagão: na verdade o primeiro protótipo do Capeta, que foi desmontado ao final dos testes.

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  22. Rodrigo Laranjo31/07/09 15:43

    Alexandre, eu não moro muito longe, moro ali no final da vicente rao, na vila mascote, vou levar meu Opala bege aí pra passar vergonha :D

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  23. Cesar concordo com voce
    Eu estava estranhando essa noticia da existencia de 2 carros .
    O Capeta é único, porem o Interlagão (que estava exposto em A.Lindóia em 2007) tem a frente parecida e muita gente confunde.

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  24. multi citado, esclareço:
    houve dois capeta. o primeiro, da lavra do prof soler. chassi em treliça, mecanica de aero, travestido durante testes com uma carroceria de interlagos cupê esticada e alargada.
    a willys condenou o projeto, mandou esmagá-lo, demitiu o soler - que foi fazer o projeto uirapuru.
    mantendo a exigencia de um esportivo para proprietários com mais idade, mandou a área de estilo da willys criar um segundo capeta.
    é o automóvel mencionado e que espero renascido mecânicamente pelo ag. é sadio e os 323 km indicados no odômetro parecem reais.
    o automóvel exposto em lindóia e depois vendido, um verdadeiro interlagos berlinette com frente modificada, foi tentativa do mesmo departamento em atualizar o automóvel, tentativa de melhorar vendas. o protótipo foi vendido, muitos anos após recuperado e novamente vendido.
    interlagão é como referido sobre o capeta do soler - aliás, coerente, pois ele era criativamente endiabrado.
    no tema capetício. quinta feira o nelson brizzi, ex 1o. mecânico da equipe willys, passou.
    foi o brizzi quem desenvolveu a caixa de 4 na carcaça de 3 velocidades - aplicada ao capeta citado -; e fez o motor antecipando detalhes que posteriormente seriam empregados nos aero e itamaraty.

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  25. Quem sabe, conta tudo e esclarece!
    Obrigado Nasser!

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  26. Nasser:
    Longe de mim querer discordar de você, mas na história deste chamado Interlagos II algumas coisas me deixam cabreiro. Como um Departamento de Engenharia, como da Willys, que criou um Mark I e um Bino Mark II, foi cometer um "equívoco estilístico" destes? E como uma Willys repaginou um dos seus principais produtos, usando faróis e lanternas da linha de caminhões da Chevrolet. Não faz sentido...

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  27. césar, os mk I e II, dito bino, não foram da lavra de departamento de engenharia ou estilo, mas da área de competições da willys- greco, bianco, etccc
    quanto à dúvida sobre o interlagão, procede. mas a verdade documental é que foi uma tentativa da divisão interlagos, mesmo greco à frente, e matéria de jornal à época, como exibia o antigo proprietário para provar a origem e tirar dúvidas.

    diria, foi um ato de coragem individual de um designer espanhol - sem ser o soler -, consentido, e com produto final apreciado pelo presidente. mas não foi à frente.

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  28. Nasser:
    Imaginava que o Mark II, antes de ser Bino, havia sido idéia da Engenharia, uma vez que foi apresentado como conceito no Salão do Automóvel. Quanto ao Interlagos II, imagino então que se basearam na frente do Capeta, ou será que foi ao contrário, para "cometerem" este equivoco.
    De qualquer maneira, parabéns pelo empenho em salvar o Capeta (imagine hoje uma fábrica lançando um carro com o nome de Capeta, a confusão que não daria entre evangélicos).
    Aliás, o que você sabe sobre aquele protótipo quadradinho com mecânica de Gordini? Só vi uma foto dele até hoje, quando foi apresentado à Diretoria da Willys. Será que ainda existe?

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  29. césar,
    era o projeto 'e', indicando carro econômico. teria o motor gordini na dianteira, e seria seu sucessor mercadológico. dado o comportamento industrial padrão, imagino ter sido esmagado, conseqüencia do cancelamento do projeto, com a transferencia de controle acionário para a ford.

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  30. Nasser:
    Será o mesmo projeto? Este, pela foto, teria motor traseiro
    http://www.fotolog.com.br/berlineta/41620979

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  31. césar, o carro é este. equivoquei-me. o motor seria traseiro. não disse que seria o sierra.

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  32. Brasinca 4200 gt.
    Primeiro carro que andei, do lado é claro, com 200 HP e a 200 km/h.
    Eu tinha 14 anos, Sr Sady Moura estava em sua Fazenda Monte Azul, perto de Lins, tinha vindo de São Paulo com o protótipo, em desenvolvimento, tendo como motorista ninguém menos que Ciro Cayres.
    Uma aventura para mim e meu primo Rony, subrinho do Sady.
    Fomos de carona no carro, sob o comando de Seu Henrique, até a fazenda, uns 15 km de bom asfalto, uma reta só.
    1a - 100 km/h
    2a - 160 km/h
    3a e última marcha - 200 km/h

    A melhor viagem da minha vida.

    Beto

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