27 de março de 2010

FILOSOFIA DE PROJETO


A notícia de que a BMW apresentará um modelo de tração dianteira foi mesmo surpreendente. Principalmente para quem acredita que fabricantes se atenham a uma filosofia de projeto.
Ainda me lembro quando a Alfa Romeo anunciou o Alfasud, de motor boxer refrigerado a água e tração dianteira, em 1971. Foi um choque. A marca era de carros de tração traseira! Foi fracasso? Até que não, vendeu 1,015 milhão de unidades, se bem que em 18 anos. O VW New Beetle vendeu isso em onze.
A Porsche tem duas filosofias para seus carros esporte: motor traseiro-central e motor "na rabeta". Foi assim desde os primeiros dias, com o 356/1 e 356/2. Hoje, passados 62 anos, continua assim, com o Boxster/Cayman e 911, respectivamente.
Foi comentado por um leitor (Paulo Levi) no post do Miton Belli "Não faz diferença, para muitos..." que a Subaru se atém à fórmula motor boxer e tração integral. Corretíssimo! A fábrica japonesa pertence ao conglomerado de transportes Fuji Heavy Industries (FHI), do qual a Toyota Motor Corporation detém 16,5% do capital. Foi a primeira marca a produzir em série carro de tração integral, isso em 1972, oito anos antes do Audi Quattro. Como a instalação do motor boxer sempre é longitudinal, a Subaru argumenta, com razão, que as forças de tração dos seus carros são simétricas, já que as semi-árvores de tração podem ser de mesmo comprimento. Nesse ponto, Porsche e todos os carros de motor longitudinal se beneficiam de simetria. Mas será isso uma regra imutável? Não é.
Há determinados carros de tração dianteira de motor transversal em que as duas semi-árvores também são de mesmo comprimento, por meio de um artifício totalmente lícito: há uma árvore, apoiada em mancal próprio no subchassi, que sai do transeixo e a partir desse mancal é que se conecta, via  uma junta homocinética, a semi-árvore de tração do lado direito propriamente dita.
Há vários exemplos de excelência de tração dianteira e um que me vem à mente é o Jetta. A arquitetura é a mesma do Golf de quinta geração, com suspensão traseira multibraço. Ao dirigir o  VW Jetta (5 cilindros/2,5 litros/170 cv), que é feito no México e trazido para o Brasil, fica-se realmente em dúvida se a tração traseira é tão importante num carro de rua como se costuma dizer. O comportamento desse VW é exemplar em todas as situações. Esquece-se que a tração é dianteira ou, dito de outra forma, não ter tração traseira não faz a menor falta.
Nem a tração integral do Subaru: nos anos 1990, quando na revista Autoesporte, testei o Impreza de tração só dianteira e achei-o perfeito. Foi uma comparação com o Impreza AWD,  de mesmo motor que o FWD.
Muitos leitores sabem que já fui sócio de concessionária VW no Rio de Janeiro, de 1967 a 1978. Portanto, peguei em cheio a chegada do Passat, em 1974. Pois do mesmo modo que BMW diz que 80% dos donos de Série 1 acham que a tração do modelo é dianteira, uma parte expressiva dos donos de Passat -- a maioria egressa dos VW de motor traseiro -- achava que as rodas motrizes do novo VW eram as traseiras. Ao saberem que eram as dianteiras, ficavam estupefatos.
Isso corrobora o que o Milton disse, que a BMW tem capacidade projetar e fabricar um ótimo tração-dianteira. Ou o que eu escrevi para o Jornauto, que a VW entrou num terreno virgem para ela e já saiu produzindo o supressumo: a picape Amarok. Exatamente o que a Porsche fizera em 2002, com o utilitário esporte Cayenne.
BS

21 comentários:

  1. Pois é, Bob: estamos falando de carros de rua, dirigidos por motoristas comuns, e que não deveriam ser levados aos seus limites, embora muitas vezes sejam, já que uma parte destes motoristas comuns pensa ter as habilidades de um piloto. O resultado a gente vê todo dia: se com carros de tração dianteira, de mais fácil correção, neguinho já cansa de se arrebentar, imagine se derem um de tração traseira para "brincarem" de Ayrton Senna.
    Eu sou dos que acham que tração traseira não faz a menor falta para um motorista comum. E nem por isto sou menos autoentusiasta que aqueles que defendem o contrário, possam supor. Aliás, esta é a razão de eu não ficar babando por estes super-hiper-mega-ultra-maxi esportivos: não são carros para motoristas comuns, e sim para pilotos capazes de os "domar". Será que o empresário comprador do Pagani Zonda em São Paulo, é? Tenho sérias dúvidas, he, he, he!

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  2. O que interessa é a excelência da tração, não onde ela se encontra. Sobre este ponto de vista, concordo que não vai fazer diferença alguma, ou mesmo um endeusado tração traseira ser pior que um dianteiro.

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  3. Clésio Luiz27/03/10 21:34

    Tem mais coisa aí. Na Europa, os fabricantes tem que atender uma certa média de emissão de poluentes produzidos pela soma de todos os veículos que elas produzem. Um exemplo disso é aquele subcompacto da Toyota que está sendo vendido com grade e símbolo da Aston Martin. Ele serve apenas para fazer a média da Aston cair na faixa exigida pela legislação européia. Me parece bastante provável que a BMW precise de um modelo menor, mais leve e econômico que o Série 1 para fazer com que a empresa tenha um modelo de baixo consumo e de baixa emissão de poluentes.

    Outro motivo seria a necessidade de um modelo de grande volume de produção, para melhorar o caixa da empresa e melhorar a sua posição financeira perante as rivais Mercedes e Audi.

    E querem apostar como esse novo modelo deve compartilhar a plataforma com um futuro modelo do Mini?

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  4. BS,
    Apesar de eu concordar com voce que o comportamento do Golf/Jetta V é exemplar, tenho que discortar quanto a licitude técnica do artifício do semi-eixo direito "bipartido".
    O problema todo é o seguinte: a parte "fixa" do semi-eixo direito, apesar de não ser oscilante nem esterçante (ou seja, ser fixa), continua impondo inércia à saída do diferencial, ou seja, o diferencial, por estar fora da linha de centro longitudinal do veículo, faz com que as inércias acopladas às duas saídas do diferencial sejam diferentes. Isto nos leva ao tradicional efeito de torque-steering, que ocorre independente da existência deste semi-eixo "bipartido" ou não. O único benefício deste artifício é redução de vibrações, o que é perfeitamente possível através de um compensador harmônico (damper no semi-eixo). Portanto, tecnicamente, não há como defender esta solução "bipartida" em detrimento à outra.
    Gostei muito do seu comentário e avaliação do Golf/Jetta V. Ele vai de encontro a uma declaração recente do FB, onde comentávamos sobre câmbios automáticos de 4 marchas. Ele argumentou que o câmbio de 6 marchas era uma "muleta" para o motor arcaico do VW. Como voce mesmo descreveu, isso é furadasso. Os atuais motores do Golf/Jetta V são excelentes, com ótima curva de torque, e se tornaram muito mais eficientes com este câmbio. Não há como defender um câmbio ruim sob o argumento de elasticidade do motor.

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  5. Bob,
    Tudo bem? Obrigado pela menção ao Passat. Quando você vai ter um tempinho para voltar no tempo e andar no meu Passat TS? Quem sabe neste fim de semana de Páscoa?
    Veja o link: http://www.garagemdobellote.com.br/2008/08/passat-ts.html
    Para refrescar a memória, aqui é o Marcio Valente da MD 27 em Moema.
    Abs

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  6. Tem muita gente que vai com a maré, sustentando falsas premissas. Só a experiência do Bob para clarear o assunto. Tem muita tecnologia ou supostas soluções para alegrar "entusiastas" que só se justificam na teoria, no uso prática nada.

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  7. Valente,
    Tudo bem? Tenho muita curiosidade em revisitar o Passat TS. Quanto mais o seu, branco (minha cor predileta) e 78, já com o comando de câmbio evoluído e perfeito (o do lançamento, em 1976, era muito ruim). Vou passar na loja para combinarmos.
    Eu já havia lido sobre o seu TS na Quatro Rodas, em "Grandes Brasileiros". Há instantes vi a matéria no site do Bellote.
    Aos leitores: conheci o Márcio Valente em meados dos anos 1990 após uma recomendação para procurar a MD 27, negócio do qual ele é sócio e que fica a uma distância de caminhada rápida daqui de casa. Sabem para quê? Para colocar um espelho convexo no lado esquerdo num Kadett 93 que eu tinha. A MD 27 pegou um espelho convexo lado direito de Veraneio e cortou-o com as dimensões da carcaça de espelho do Kadett. Ficou perfeito! Desde então a MD 27 tem sido a "instaladora oficial" de espelhos convexos para os meus carros que vieram com espelho esquerdo plano. Consigo obtê-los com o fornecedor Metagal, que os produz para exportação.
    Cedo aprendi a apreciar o espelho esquerdo convexo. Quando trabalhava na Fiat, final dos anos 1970, arranjei com o pessoal da fábrica (eu ficava na Diretoria Comercial, que era em S. Bernardo do Campo, depois na Av. Paulista, em São Paulo) um espelho de exportação, que eu ia passando para os Fiat que usasse.
    Dirigir um carro com espelho esquerdo plano é suplicio para mim, pela falta de campo visual amplo. É preciso desenconstar do banco para ter a visão necessária.

    28/03/10 10:

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  8. Curiosidade : MD 27 tem algo de inspiração no motor 1.6 VW pré 1985?

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  9. Bob,

    Essa questão da simetria dos eixos é tão influente na dinâmica do veículo assim, ou um bom projeto e ajuste de suspensão suprime ela?

    Abs!
    Chiavaloni

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  10. André Andrews28/03/10 16:23

    Bob,

    Eu lembro que vc citou isso dos espelhos numa coluna. Eu comecei a usá-los apartir daí. Foi um dos melhores aprendizados que eu tive como motorista.

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  11. De fato, retrovisor plano é sempre uma calamidade.
    O pior de tudo é que, nos USA, o retrovisor esquerdo tem que ser plano por lei. É um absurdo, coisa de redneck mesmo.

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  12. Para uso "civil" pouco importa onde está a tração desde que o carro seja equilibrado. Mas brincar com um rwd é muito mais gostoso!

    Curioso é como o Drift, que é uma categoria tão sem sentido, representa o sonho de como muitos gostariam de fazer as curvas.

    PK

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  13. Bussoranga,

    Será que a lei não obriga o espelho a ser plano, por causa das "habilidades" dos motoristas comuns, que não conseguirão entender que um espelho convexo deixa as imagens mais distantes?

    Isso faria com que eles batessem com mais facilidade a lateral das barcas de 6m que usam por lá...

    O engraçado, é que são vendidos espelhos de reposição por aqui, com inscrições em inglês, avisando que as imagens refletidas neles, poderão parecer mais distantes...

    Essas lentes não são para o mercado dos EUA?

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  14. Bob,
    Obrigado pelos elogios. Por favor fale com o meu irmão lá na loja e ele te coloca em contato comigo para combinarmos os detalhes do "test drive".
    Abraços,
    Valente

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  15. Bussoranga

    Gosto muito de VW, mas continuo discordando de você.

    Veja bem, 2 litros de Golf tem um spread muito bom, torque máximo a 2400rpm e potência máxima a 5200rpm, ainda que essa potência estacione em parcos 116cv. Quanto mais você pisa, menos ele rende, é uma coisa realmente incrível, fora a calibração que é todinha "low end power".

    Mas é torcudinho em baixa, foi durante muitos anos o motorzinho mais vendido pela VW nos EUA, principalmente em seu carro chefe, o Jetta de terceira geração. Continuou equipando Golf e derivados até a geração posterior, quando decidiram voltar com um motor maior para melhorar o rendimento de um carro mais pesado, já que tecnicamente o 4 cilindros encontrava no limite de cilindrada.

    A solução foi ressuscitar o bom e velho funfzylinder Audi, com o bom e velho cabeçote multiválvulas Indra: conservadores 150 cv a 5000rpm e torque de 23,2 kgfm a 3750rpm, números muito fracos, posteriormente alterados para 170 cv a 5800rpm e torque de 23,3 kgfm a 4250 rpm.

    Ainda assim, um rendimento específico inferior ao 4 cilindros de 2 litros e 16 válvulas que equipava Gol e Parati na versão GTI, além de apresentar elasticidade semelhante, já que se trata de um motor sem nenhum artifício tecnológico.

    Nesses motores, uma caixa de 6 marchas melhora muito o comportamento do carro. Se você ainda tiver alguma dúvida, basta pegar um Golf/Bora/Beetle automático com a caixa antiga de 4 velocidades.

    FB

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  16. João Gabriel Porto Bernardes28/03/10 23:16

    Ô... quem dera se o Passat fosse tração traseira,seria um carro bem mais atraente do que é rsrsrs

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  17. João Gabriel Porto Bernardes28/03/10 23:20

    Ô...Quem dera um Passat de tração traseira...seria bem mais atraente do que é rsrs

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  18. Bob,

    Não sei se concordo.

    Com certeza concordo que é possível fazer carros de tração dianteira sensacionais, e a BMW já fez um deles (travestido de carro pequeno inglês da década de 60).

    Ma é só dar uma volta numa série 3 para questionar seriamente essa idéia da BMW.

    MAO

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  19. Alexandre,

    Talvez (bem talvez mesmo) essa lei que obriga o retrovisor esquerdo ser plano seja com base no motorista medíocre. Mas isso representa o tradicional e infame nivelamento por baixo! Se até lá, que se diz "primeiro mundo", se faz isso, no .br estamos mesmo ferrados (pois tentamos nos "espelhar" nos povos errados).

    Sabe qual é a consequência disso? Uma outra lei que diz que, sempre que voce vai mudar de faixa, "you have to look over your shoulders". Na primeira vez que vi isso achei que era extremamente imbecil, e na verdade é um conjunto de imbecilidades. Acontece que como as faixas são bem largas (e confortáveis), com um espelho plano voce não tem um ponto cego, e sim um mega espaço cego. O resultado é que, por mais que nos "ajeitemos" olhando o retrovisor antes de mudar de faixa, sempre há risco de estarmos jogando o carro contra outro. Por isso eles exigem que se gire a cabeça para olhar num ângulo de cerca de 120 graus à esquerda, para mudanças de faixa à esquerda (a mesma regra vale para a direita, mesmo tendo retrovisor direito convexo).

    Eu sei bem disso pois, ao fazer exame para Californa driver's license, quase fui reprovado por não fazer isso. Trata-se de uma imbecilidade, pois ao se fazer isso, ficamos algumas centenas de milisegundos sem olhar para frente. Cheguei a conversar com algum pessoal do DMV (Detran de lá) sobre isso, e eles simplesmente não entenderam absolutamente nada das minhas alegações. Ou seja, burrice e safadeza não são exclusividades das "otoridades" brasileiras.

    E pensar que tudo isso poderia perfeitamente ser resolvido com um simples espelho convexo! Jogo duro. :-(

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  20. FB,

    Concordo em boa parte da sua argumentação. A única coisa da qual discordo é da insistência nesse conceito de "potência específica". O que importa como os HP e kgfm foram obtidos?

    Os motores Toyota também tem um spread pequeno (algo como 4000rpm para maxtorque e 5800rpm para maxpower) e são elásticos.

    A questão toda é a seguinte: se num motor que voce considera ruim o câmbio de 6 marchas obteve bom resultado, seria melhor ainda se ele tivesse sido empregado num motor que voce considera bom! Portanto, se a Toyota e a GM tivessem empregado 6 marchas, ambos teriam sido beneficiados.

    Em câmbio automático não faz sentido se economizar marchas. Parabéns para a Lexus e o seu câmbio automático de 8 marchas. Isso garante a eficiência de transmissão, nunca esquecendo que o melhor dos mundos é o CVT.

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  21. Bussoranga

    Quis salientar apenas que dá pra viver com apenas 4 marchas numa caixa automática e apenas 5 em uma caixa manual.

    Um Dodge Viper precisa de 6 marchas? Jamais, é tanta força que poderia muito bem funcionar com apenas três.

    Mas ele as tem, marketing puro, mas nesse caso eu faço questão de 6 marchas, adoro trocar marchas.

    No Corolla, mesmo que eu tivesse a opção das borboletas, não optaria por elas. A alavanca no console dá conta do recado.

    E com apenas 4 marchas funciona muito melhor do que o jurássico 2 litros VW (tenho um na garagem, gosto muito do torque, mas só tem isso, mais nada).

    FB

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