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18 de setembro de 2010

DODGE E DELAGE, ANOS ATRÁS, HOJE


Tenho a mania de prestar atenção em eventos que aconteceram na história do automóvel perto do dia de hoje, data do meu aniversário (nasci em 18 de setembro de 1969). Já contei aqui que Ferry Porsche faria amanhã 101 anos, e que Ed Cole também, só que ontem, dia 17.

Outro evento importante acontecido a 41 anos atrás foi a estréia dos Dodge Charger Daytona, o incrível carro de competição para as superpistas de NASCAR americanas, que tinha um gigantesco aerofólio traseiro e um sem fim de outros aprimoramentos aerodinâmicos. O carro estava fadado a se tornar o primeiro carro da NASCAR a atingir 200 mph (321,8 km/h), e em 14 de setembro de 1969 os incríveis Dodges, equipados com versões de competição do enorme Hemi V8 de sete litros, tiveram o brilho de sua estréia minimizado por uma greve de pilotos, que liderados por Richard “The King” Petty, abandonaram a nova pista de Talladega, no Alabama, alegando condições inseguras.


O Charger venceu a prova com facilidade, em um grid onde a maioria dos potenciais competidores estavam ausentes. Mas mesmo assim os Dodges mostraram a que vieram: em uma época em que os carros mais rápidos faziam médias de 185 mph (297 Km/h), na primeira volta de testes o novo Dodge chegou a 198 mph (318 km/h).

Os Daytona foram tão velozes e estáveis na pista, por seu avançado desenho aerodinâmico, que fizeram até Petty voltar à Chrysler, quando a Plymouth criou a sua versão de carro alado no ano seguinte, o Road Runner Superbird. Como todo carro de corrida muito superior a seus pares, foi legislado para fora da competição em 1971.


Mas a história que eu realmente queria contar para vocês aconteceu muito tempo antes disso, em outro continente. Na Paris dos anos 30, terra de Louis Delage (abaixo).


Delage foi um dos pioneiros da indústria do automóvel na França, e durante os anos 20, alcançou prestígio e fortuna. Uma grande fábrica de automóveis em Levallois, um centro técnico e oficina em Paris, um grande e chiquérrimo showroom na avenida Champs Elysées, e uma mansão para sua família são alguns exemplos da prosperidade de “Le Patron”, como era chamado. Seus sofisticados carros de competição venciam provas Europa afora, e Louis Delage vivia a boa vida de um milionário francês da época, andando pela noite de Paris com várias atrizes e vedetes a tiracolo.


Mas tudo isso começou a desmoronar em 1929, com a crise mundial que se seguiu à quebra da bolsa de Nova Iorque. As vendas dos caros Delages começou a baixar, e Louis começou uma batalha para sobreviver que durou longos seis anos.

Em 1933, tentou uma cartada desesperada; aproximou-se de Robert Peugeot tentando uma fusão, mas Peugeot declinou. Com os credores em suas portas, Delage então procurou Paul-Louis Weiller, dono da Gnôme et Rhône, outro fabricante tradicional francês. Weiller tinha salvo o grande Gabriel Voisin recentemente, e estava interessado. Fez uma proposta tentadora para comprar a empresa, e Delage prontamente aceitou.

Foi quando o seu passado começou a alcançá-lo. Madame Delage, casada em comunhão total de bens com Louis, se recusou a assinar a venda. Pouco se sabe dos motivos que levaram a esta atitude, mas a gente não pode deixar de pensar que todos os anos de infidelidade explícita de Louis podem ter algo a ver com isso.


O fato é que, com o negócio com Weiller impossível, Delage se viu definitivamente sozinho. Vendeu as propriedades em Paris e reduziu a produção drasticamente. Num ato desesperado, mandou representantes de venda para toda a França, tentando a todo custo vender algum carro. Mas em fevereiro de 1935, um telegrama pedia que todos voltassem a Paris. Em dez dias a empresa estava nas mãos das cortes de falência, e Louis Delage com seus bens indisponíveis.

Delage não desistiu, e tentou ainda a todo custo um acordo com algum potencial comprador da massa falida em que pudesse manter controle de sua querida fábrica. Mas em 18 de setembro de 1935, a exatos 75 anos atrás no dia de hoje, a fábrica era vendida para a Delahaye. A marca sobreviveria até 1953, mas a partir desta data, Louis Delage não tinha mais nada a ver com ela.

E o que aconteceu com ele? Com a palavra, o autor americano Griffith Borgeson, na Automobile Quarterly vol XIV, nr2 :


“Durante 1941, o ex-piloto da Delage, Robert Bernoist estava andando com seu Simca Cinq por uma estradinha no interior da França, quando reconheceu “Le Patron” andando pela beira da estrada. Bernoist parou, saudou o velho senhor, e perguntou se ele não queria uma carona.

“Fora de questão!” – disse Delage. “Estou fazendo uma peregrinação até Chartres, a pé!”

Como Charles V, parece que Delage encontrou na fé o que não encontrou no império. Parece que levou uma vida religiosa séria, e se sabe que em 1947 fez uma peregrinação de bicicleta de Paris a Lourdes, em Portugal – com setenta anos de idade.

Ao final de 1946, Paul Yvelin (ex-funcionário na Delage) estava andando pelo Champs-Elysées quando, bem em frente ao velho showroom, topou com Delage. Ele estava usando roupas simples, velhas e meio sujas, e a lente de seus óculos estava quebrada. Mas ele reconheceu Yvelin, e veio até ele.

“Como está o meu pequeno fujão? Sabe, você fez bem em ir para a Peugeot. É um lugar bom. Foi onde comecei, sabe?”

Aí, sem dúvida com a cabeça cheia de incríveis memórias, ele saiu andando, e desapareceu completamente na multidão.”

E foi a última vez que alguém soube de Louis Delage.

MAO

17 comentários:

  1. MAO, parabéns pelo seu aniversário!

    Duas histórias interessantes. O Dodge Daytona é "velho conhecido", sem dúvida um verdadeiro marco na Nascar. Mas a história de Louis Delage foi total novidade para mim. E mais um personagem famoso que simplesmente desaparece de uma hora para outra...

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  2. é isso aí, MAO, parabens. Muita paz e saúde. Ótimo texto.

    Abraço

    Lucas crf

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  3. Parabéns pelo seu aniversário! Sucesso e felicidades!

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  4. Que coisa triste, essa história do Louis Delage. Interessantíssima, contada com maestria, mas triste demais. Vejo nela alguns paralelos com a história do André Citroën.

    Falando nisso, os franceses têm uma certa falta de imaginação na hora de dar apelidos aos seus capitães da indústria: é "le patron" pra cá, "le patron" pra lá...

    Last but not least: FELIZ ANIVERSÁRIO, MAO!

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  5. MAO,

    Feliz aniversário!

    Bem que poderia aparecer um Daytona no Mopar Nationals!

    Abração,

    PK

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  6. Francisco Neto18/09/10 20:43

    Parabéns MAO!

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  7. Bera Silva18/09/10 21:50

    Feliz Aniversário Marco Antônio, que Deus te ilumine!

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  8. Aé, parabéns! Felicidades!!!
    Mas para mim o moral da história aí é dar um valor para as patroas! KKKK
    Abraços.

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  9. Feliz aniversário MAO!
    Tudo de bom pra ti.

    C'est magnifique!

    E a história nos ensina uma coisa dessa vez. Trate bem a esposa ou senão acabe como Delage.

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  10. MAO, parece que 18-09 é data onde nascem grandes autoentusiastas, parabéns para nós.(78 para mim).

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  11. vc no 18 e eu no 19, só que estou 22 na frente...
    Aproveite sua juventude; passa rápido demais.
    Sem problemas.
    Não me queixo. Me diverti um bocado. Tive um Dodge. Não tenho boas lembranças, mas é (era) um carro que impunha respeito.

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  12. Parabéns MAO!
    Pra variar, nós é que recebemos o presente, um ótimo texto. E essa foto que abre o post é ultrajante...

    PK,
    Sabe da existência d'algum Daytona no Brasil?

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  13. Parabéns pelo seu aniversário, MAO!

    Mais um belo texto seu, sem dúvidas, e um triste fim para o sr. Delage...

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  14. Mister Fórmula Finesse21/09/10 09:37

    Parabéns MAO! Pé no acelerador por mais setenta anos.

    Sobre o post, olha o que dá assinar comunhão de bens...brincadeira, mas pena pelos últimos dias do patrão.

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  15. Todos,

    Grato pelos votos!

    (e desculpem a demora na resposta)

    MAO

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  16. Sem querer imaginei uma cena: uma máquina dessa imponência emparelhando com um trAgile em um sinal de trânsito! O motorista da desgraça 1.0 vai pensar: "que barca velha, não deve andar nada!", e dá aquela acelerada no anêmico 1000 que quase não faz barulho, pra tentar por moral e impressionar o piloto (motorista não) do Daytona. Em retribuição, o piloto dá aquela acelerada no V-oitão, fazendo algumas peças do tranqueirão 1.0 caírem no chão, como para-choques por exemplo, além de algumas trincas nos vidros. Maldita evolução, que está fazendo as coisas andarem pra trás.

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