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20 de outubro de 2010

SONHO DE FERRARI

Foto: Arnaldo Keller
No banco do piloto
Assim que cheguei à adolescência nutri enorme admiração por Ferrari e Maserati, que andavam por aqui  como carros de corrrida apenas.  Quero crer por ter sido a primeira corrida que assisti  justamente uma de monopostos de Grande Prêmio (Grand Prix), antecessores da Fórmula 1 que só seria criada em 1950.

Essa primeira corrida foi a de 1947, eu era muito pequeno, quatro anos, e não me lembro de nada. A segunda, no ano seguinte, também não me deixou registro na memória, o que só aconteceria na corrida de 1949. Com seis anos e pouco deu para ter noção de tudo aquilo, que me pareceu fantástico.

Essas corridas se chamavam "Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro" e eram realizadas desde 1933 no Ciircuito da Gávea, em meio a ruas e avenidas e um trecho de serra, passando pelo que é hoje o bairro da Rocinha (que a TV Globo desconhece, chama-o de favela até hoje). A volta era de 11,1 quilômetros.

Fazia três anos que família se mudara para o aprazível bairro de mesmo nome, cercado de montanhas, e a pista  na rua Marquês de São Vicente ficava a apenas uns 100 metros de casa.

Dominavam os italianos Alfa Romeo e Maserati; o primeiro Ferrari só apareceria na corrida de 1949. Era uma marca nova, existente só há dois anos. Foi nesses carros que minha atenção focou, especialmente os Maserati 8CLT de 8 cilindros em linha, 1,5-litro com dois compressores Roots. Que berro tinham! Na prova deu Luigi Villoresi com Maserati e em segundo, Giuseppe Farina, com Ferrari.

Assim foi, chegaram os anos 1950 e em 1957 surgia um dos carros de corrida mais bonitos que já  vi, páreo duro para o Maserati 300 S: Ferrari 250 TR (TR de Testarossa, cabeçote vermelho, era a cor das tampas de válvulas).

Aos 15 anos devorava as revistas e publicações especiais como o anuário L'Année Automobile, mais em busca de fotos do Testarossa do que qualquer outro carro. O meu maior herói, o engenheiro, jornalista e piloto belga Paul Frère, junto com o compatriota Olivier Gendebien, venceria a 24 Horas de Le Mans de 1960 com um 250 TR.

No Brasil, o paulista Celso Lara Barberis corria com um, cheguei a vê-lo andar em Interlagos mais para o final dos anos 1950 (sim, vinha do Rio só para assistir as corridas em Interlagos). A admiração pelo Testarossa se manteve viva nos anos seguintes.

Estamos em 2002 e ocorreu de eu conhecer um sujeito chamado Arnaldo Keller. Foi  no lançamento dos Maserati Coupé e Spyder, em Interlagos. Na apresentação, parte das perguntas, ouvi alguém atrás de mim fazer uma pergunta que me fez virar para trás para ver quem era, de tão e pertinente que foi, fora do padrão que eu estava acostumado a ouvir nessas ocasiões. Era do Arnaldo.

Dali a alguns dias voltei a encontrá-lo por acaso, no encontro de antigos em Águas de Lindoia, e começou o relacionamento e depois a amizade que perdura até hoje. Algum tempo depois ele me convidou para ir com ele a Itatiba, a 90 quilômetros de São Paulo, que ele ia andar em duas reconstruções feitas na Itália: um Ferrari 250 GTO e um...250 Testarossa (o da foto), ambos de um colecionador conhecido dele.

Pronto, realizava-se um antigo sonho. Dirigir aquele carro com seu motor V-12 projetado por Gioacchino Colombo (1903-1988), 3-litros com os seis Weber duplos, foi como entrar numa máquina do tempo e voltar aos dias do adolescente de 15 anos. Bruto, emocionanante, mesmo sem estar em condições mecânicas ideais (pouca precisão de direção e freios não muito potentes), mas a experiência mais que valeu. A satisfação foi enorme, principalmente em razão do trecho em que andamos, arborizado, sinuoso e de asfalto perfeito.

Depois, uma volta com o GTO, mas não tão agradável quanto o Testarossa, especialmente a posição de dirigir. Mas ali estava também parte da História.

Em resumo, uma tarde memorável, um sonho realizado.

Obrigado, amigo Arnaldo!

BS

18 comentários:

  1. Essas Ferraris eram do colecionador Alberto Pamos? são belos carros, logo ele inaugurará um museu de carros antigos dentro de seu condomínio na cidade de Itatiba.

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  2. Bob, o melhor de tudo é que não são re-creation! Vc dirigiu veículos autênticos!

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  3. Arnaldo Keller20/10/10 22:15

    Abel,

    eram do Alberto na época, porém ele os vendeu. Uma pena, porque os donos atuais pouco os usam, enquanto o Alberto os punha pra andar.

    Luis Augusto,

    são recriações. Muito perfeitas, carroceria de alumínio, suspensão e freios de época, etc. Sensação praticamente igaul a dirigir o original.

    Bob,

    Foi realmente uma tarde inesquecível, principalmente quando saímos, primeiramente no GTO -- que esse tinha 400 cv, era o motor de 4 litros, e tinha comando mais bravo que o Testarossa, e 5 marchas, enquanto o Testa tinha 4, daí o GTO tem a primeira mais curta e estúpida -- então, ao nos ajeitarmos para sair, vc guiando primeiro, fiquei emocionado, porque eu estava prevendo certo o que ia acontecer, uma tremenda aula prazerosa de como domar uma fera, de saber prever o que um bicho danado daqueles ia fazer.
    Ainda bem que vc preferiu o Testarossa, porque eu preferi o GTO. Assim nóis não briga e tenho 100 cv a mais pra compensar o piloto.

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  4. Que demais, que demais, que demais. Ferraris de verdade, de corrida, cruas, como têm que ser.
    Que sonho .............

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  5. João Gabriel Porto Bernardes21/10/10 00:54

    Minha primeira miniatura....Era da BBurago ganhei de aniversário da minha avó quando eu tinha 11 anos,comprei ainda na Mesbla,na época(1995)custou R$ 20,00...Lembro que até dormi abraçado com ela na caixa rsrsrs...Um belo dia quando cheguei da aula e fui brincar com ela,a delicadas rodas raiadinhas estavam quebradas,meu irmão mais novo a pegou e brincou de qualquer jeito com ela quebrando as rodas...Que tristeza rsrsrs

    Abraços!

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  6. Eduardo Martins21/10/10 02:03

    Bob,

    Por favor considere a idéia de registrar as suas histórias / memórias de competições, etc num livro !!!!!!!
    Já esta reservado um espaço na cabeceira aqui....
    abs

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  7. Dois post sobre Ferrari Seguidos!?!

    Isso é um belo presente de aniversário pra mim, hehehe


    Belo texto, Bob. Gosto muito dos carros da série 250.

    Abraços

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  8. Eduardo Martins, faço da sua preza a minha também. Considere este pedido Bob, minha cabeceira precisa de algo grandioso. "As histórias do Vovô Bob", escreverá teu neto se você não o fizer.

    Grande abraço,
    GiovanniF

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  9. Mister Fórmula Finesse21/10/10 09:02

    Que legal Bob!

    Tenho os dois carros em escala 1:18da marca Burago; muitas e muitas vezes já fiquei com a TR na mão, em silenciosa reverência das suas linhas e proporções perfeitas, fico estudando cada detalhe daquela sinuosa e apaixonante máquina.

    Que carro, imagino as sensações que ela deve passar ao piloto em um simples passeio mais veloce... as retomadas agudas, o modo como mudar de marcha na grelha para poder explorar com certa intimidade todo aquele organismo mecânico, a sinfonia do motor - pleno de vida - ouriçando até as pedras ao redor, o toque preciso e delicado para lidar com o enorme volante, tudo falando de classe, tradição e envolvimento.

    Deve ser algo fantástico! E sem precisar obliterar antigas marcas de aceleração ou correr verdadeiros riscos....um dia chego lá!

    Parabêns Bob por ter realizado um sonho, difícil imaginar gente mais legal e tarimbada que você e o Arnaldo para tocar essas máquinas.

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  10. Ah... a 250 GTO... 36 unidades oficiais (há quem diga que foi mais...). Tenho uma Sport Auto de uns 20 anos atrás que mostra um encontro de proprietários de 250 GTO. O curioso era que, no grupo, havia uma 250 GTO "apócrifa". Parece que, na época, alguém não conseguiu comprar uma, daí contratou um engenheiro da Ferrari para que, com as peças originais, construisse uma para ele. Essa versão única difere das originais pelo desenho do "capô" traseiro, dando uma aparência de, digamos, "station wagon" à máquina!

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  11. Bob,
    Post Épico!

    Cara, meu sonho guiar um ser desse.
    Digo "Ser", porque um carro desse não é só um objeto. Esse carro tem mais personalidade e fibra que a maioria das pessoas que eu conheço. Literalmente, é um ser com vontade própria que só seguirá o caminho escolhido por um piloto se o mesmo tiver fibra e bons argumentos.
    Esse não é um carro para fracos.

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  12. é, Bob. Na época do Pamus ainda dava para ver os brinquedos fora da Ville de Chamonix, onde ele guardava os carros. Agora tem que ser amigo do Haberfelt, ou seja, nunc amais vamos ver as tais Ferraris nas ruas. Uma pena.

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  13. João Gabriel Porto Bernardes
    Pena mesmo, as rodas raiadas se quebrarem.

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  14. Songa,
    Lamentável, esses carros ficaram ocultos agora.

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  15. Mister Fórmula Finesse
    Foram mesmo momentos inesquecíveis.

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  16. Bob, post indiscutível como sempre.

    um link com algumas fotos da belissíma TR: http://www.conceptcarz.com/vehicle/z12478/Ferrari-250-TR.aspx

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  17. Com o perdão da expressão, mas... PQP!!! Ter o prazer de dirigir dois ícones da casa de Maranello, no mesmo dia, é experiência para o resto da vida! Dois dignos Ferraris de macho, como diria o Arnaldo.

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  18. pessoal!
    Dei uma lida nos comentarios e realmente existe uma tal de Alberto Pamos que tem alguns brinquedinhos caros para satisfazer seu ego de colecionador...sem duvida ele exibe seus carros para ganhar prestigio... é um pobre homem metido a besta...
    Feliz de voce Bob!
    Realizou um sonho, mas nao perdeu a essência!

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