Não sei se todos leitores sabem, mas o AE surgiu da ideia de tornar públicas algumas discussões que os colunistas do blog tinham em um grupo fechado. Ao longo de anos trocamos muitas experiências e conhecimento entre nós. Certo dia nos caiu a ficha de que o que falávamos nesse grupo poderia ser de interesse geral. Criamos o AE.
Na semana passada uma de nossas discussões foi a respeito do novo Mini, o "aventureiro" Countryman. A marca estaria sendo desvirtuada, ou sendo expandida demais, perdendo sua identidade? Dessa discussão saíram três abordagens bem diferentes que resolvemos juntar aqui.
foto: divulgação
Como nasceram os SUVs e os crossovers
Paulo Keller
Na essência esse Countryman está errado. Mas o Mini, incluindo o Clubman vende apenas umas 230.000 unidades por ano no mundo todo. É pouco, muito pouco para manter uma marca e pagar pelo desenvolvimento de novas gerações ou pelas evoluções tecnológicas. A Saab fabricava 100.000 carros por ano e morreu (ou está morrendo).
Que outro modelo, nos dias de hoje, adicionaria o maior volume possível à marca que não fosse um crossover? Veja que eu falei sobre volume adicional. Gostemos ou não, o mundo mudou. Tenho dúvidas em entender se nossas necessidades mudaram os produtos ou os produtos mudaram as nossas necessidades. Tendo a acreditar que a segunda opção é a mais real -- embora se origine na primeira. Explico minha teoria.
Quando todos os carros tinham a mesma altura ninguém sentia necessidade de um carro mais alto (e que incline mais, que seja menos seguro etc). O commanding view não era uma necessidade.
Aí um espertão inventou que os consumidores ($$$) precisam de um carro alto para superar obstáculos off-road nas duas vezes na vida em que saem para o campo em estradas ruins. Então, um bonitão que queria parecer aventureiro (aí está a necessidade não explícita) resolveu comprar um SUV para que seu vizinho ou vizinha o achassem além de bonitão, também gostosão.
A tiazinha que ficava atrás ou na frente dele no trânsito todos os dias de manhã para levar os filhos à escola, ou não enxergava nada, ou ficava intimidada com o trambolho quase encostando na sua traseira. Seu sabido maridão, para protegê-la, resolveu o problema comprando um SUV para ela também.
Isso foi se multiplicando até que todo mundo achava que realmente precisava de um SUV. Afinal, quem não quer ser espertalhão, bonitão e gostosão, tudo junto? Chegaram ao extremo de vender Hummer H1 para uma pessoa comum!
Os SUVs são tudo de mais ilógico nesse mundo, com uma série de inconvenientes. Então começaram a achar o gostosão um idiotão. Foi aí que um espertalhão pensou em fazer um CROSSSSSOVER para a nova necessidade, a dos consumidores de não parecerem idiotas. Continua altinho, mas menos inconveniente. Agora todos podem ter o seu sem ser chamado de idiota.
Todo fabricante que queira continuar a crescer tem que vender crossovers. Só a BMW tem quatro: X1, X3, X5 e X6! Vê se pode isso! E agora chagam ao quinto com esse Mini-Maxi Countryman! Aposto que vai vender mais que o Mini!
Em terras menos desenvolvidas, onde crossovers ainda custam muito, inventaram os "tall hatches", ou aventureiros. Perfeito!
Agora, falando sério, eu acho os novos crossovers, ou SUVs pequenos como as vezes são classificados, uma proposta interessante, desde que haja realmente a necessidade de alguma versatilidade, e não apenas pra se sentir superior, em altura ou no status, como a maioria dos compradores do "melhor do mundo" (sabem de que estou falando).
Bastardização de um ícone ou mais um produto sensacional?
Carlos Zilveti
Os puristas e autoentusiastas, grupo no qual me incluo, sofrem cada vez que uma marca tradicional decide trazer ao mercado um produto que não tem nada a ver em termos de proposta, entrega, mecânica etc. com a marca original de quem pegou "emprestado". Exemplos? Inúmeros: New Beetle, Fiat 500, Porsche Cayenne (este um SUV feito em parceria com a VW, que emprega o nome Porsche, bem como diversos sistemas e componentes mecânicos específicos deste fabricante) e agora a mais nova variante do Mini, a Countryman. Excluo-me do sub-grupo de autoentusiastas que torce o nariz.
Os motivos são vários, todos simples.
Produto
Falemos do Mini, o carro hoje, nada tem a ver com a genial criação de Sir Alec Issigonis, nem em conceito, muito menos em produto. Alguém tem dúvidas que hoje, um automóvel com rodas aro 10-polegadas teria sucesso? Suspensão com molas de borracha? E quanto a um entre-eixos de 2,0 m para as famílias atuais? O que fazer da nítida evolução em construção de automóveis, sistemas de suspensão, freios, carroçaria, além das demandas dos clientes por segurança passiva e ativa?
O Mini BMW é bastante elogiado justamente por sua esportividade, dotes dinâmicos, beleza -- sim, ele ousou em resgatar traços do carro que lhe emprestou o nome, quer dizer, empréstimo forçado, já que a BMW adquiriu a marca e os direitos sobre ela alguns anos mais tarde. Há uma legião de críticos, que se queixam desse "empréstimo", alegando que é uma deturpação da ideia original, que não deveria ser assim etc. Para mim, todas essas críticas são completamente infundadas, parece que fecham os olhos para o produto, distante anos-luz do original em todos os aspectos, este sim o "fim", e se prendem a apedrejar os"meios". Neste caso e para mim, novamente, o fim mais do que justifica os meios.
Proposta
Entender a proposta do fabricante é, para mim, um dos princípios fundamentais para tecer qualquer análise ou comentário sobre um veículo. Muitas vezes essa proposta está clara, nem precisa leitura de material para entendê-la. Outras vezes está mais subjetiva, vale a experiência e sensibilidade de cada um, objetivo, perspectiva, enfim.
Não é difícil de entender que a proposta do novo Mini é esportividade. Aproveitou o (bom) uso de uma marca icônica, semelhança visual, mas podemos interpretar isso como uma "releitura" de um clássico. Porém não perderam o foco em oferecer aos clientes um DNA BMW de esportividade e dotes dinâmicos, além de muito charme em inúmeros detalhes que remetem a outra época.
E a Countryman? Qual será a proposta? Pode-se pressupor que terá um “Q” de aventura, como já dissemos, muito cedo ainda para concluir se está dentro ou fora da proposta, se entrega o que se espera etc.
Estratégias de marketing – a incessante busca pelo crescimento
Costumo consultar a "bíblia" de marketing do Philip Kotler e Gary Armstrong toda vez que me deparo com um case de marketing e suas consequentes controvérsias e me permitirei a tomar "emprestado" algumas das suas aulas.
Diz ele, logo no início, que "as empresas precisam crescer se quiserem competir de maneira mais eficiente, satisfazer seus acionistas e atrair grandes talentos". Agora migremos para produtos de consumo de massa, como detergentes em pó, cremes dentais e absorventes, por exemplo.
Quem tem mais de 30 anos é capaz de atentar para uma prateleira de supermercado de cada um desses produtos e viajar no tempo para trás 20 anos e tecer uma comparação. Há uma infinidade de variantes para cada um dos exemplos que citei, sabões em pó com tira-manchas, para roupas coloridas, que fixam melhor as cores, para roupas brancas, com amaciante, Progress, Total, roupas delicadas, cremes dentais Total White, para dentes enfraquecidos, para gengivas sensíveis, com branqueadores poderosos, mais poderosos, muito mais poderosos, sabor tutty-fruty, com a cara do Mickey, do Shrek (nada a ver com o AG...), absorventes que absorvem (jura?), que absorvem mais, muito mais, fluxos intensos, noturnos, para teens (e elas tem o mesmo corpo da mãe, mas a embalagem é roxa, da moda e idade delas). Bom, o que estas diversificações buscam?
É lógico pensar que estão tentando fazer com que cada lar, em vez de ter um sabão em pó, um creme dental por banheiro e um pacote de absorventes, multipliquem a presença de todos eles, ou seja, uma mesma família passa a consumir muito mais do que o necessário, ajudando o (s) fabricante (s) a crescer, além do crescimento orgânico. Isso sem pensar nas diferentes estratégias de preço para os produtos mais sofisticados, que prometem mais, com margens bem maiores também.
Entendam orgânico como na razão direta da população em países que a população se mantém estável, estas empresas sequer crescimento orgânico teriam.
Voltando ao livro do Kotler, ele apresenta uma matriz de crescimento mercado/produto para rápida "identificação de oportunidades de mercado"
Não precisamos olhar só o New Mini BMW. O original da BMC também teve, ao longo de seus quase 41 anos de existência, as suas variantes e sete gerações. A começar, a marca Mini veio depois, o automóvel nasceu fazendo referências ao Austin Seven e ao Morris, modelo Mini Minor, sendo um produto completamente distinto. As gerações mantiveram muito do original, mas houve natural evolução de motores, freios (versões com discos dianteiros), nova suspensão, que os puristas forçaram a abandonar e voltar ao conceito original, o cooling original era pra lá de problemático.
Crescimento da BMW e do novo Mini: é natural que a BMW busque lançar variantes, objetive colocar mais de um Mini em cada garagem de seus fãs, fazer um proprietário experimentar e trocar o seu por uma nova variante, enfim, faz parte buscar o crescimento além do orgânico e o caminho é o de novos produtos e novos mercados. Se considerarmos que os mercados já estão suficientemente abastecidos de carros, alguns com potências de crescimento vigorosos, outros estáveis e outros em retração, resta então concentrar-se nos novos produtos através das variantes, para que provoquem o desejo, a intenção da troca, da antecipação desta etc.
Exageros? Claro que há! Mas não condenemos todos por esses poucos. Para mim, o Cayenne V-6 é um típico exagero, afinal, não tem desempenho digno da marca, por outro lado sua produção bate em 45% do total de Cayennes... como matá-lo, então?
O Mini original já teve uma versão Countryman (foto mais abaixo), com entre-eixos 9 cm maior, que a BMW aproveita inteligentemente a marca, para lançar seu produto. Até agora, dispõe-se de poucas informações do mesmo, sequer testamos, o AE já andou no novo Mini e gostou, mas aonde vou é que é lógico, natural e válido, que a BMW inspire seus engenheiros a lançarem suas variantes do Mini, criando desejo nos compradores potenciais com seus atributos estéticos, físicos, subjetivos, enfim, o que vai valer para mim será se o produto entregar ao que se propõe, ou até superá-lo. O novo Mini superou sua proposta. Que o Countryman também o faça.
Fotos: Wikipedia
Purismo
Marco Antônio Oliveira
O que é um purista? Minha definição é simples: é o resmungão que não serve para nada, a não ser lembrar o que foi deixado pelo caminho durante a evolução. Não posso então falar sobre o Mini atual e seus derivados como um purista: não existe evolução alguma neste caso, apenas involução.
Já disse muitas vezes: o que me incomoda realmente no Mini atual é que ele é um carro sensacional, mas travestido de uma coisa que não chega nem perto de ser, seja por objetivo, tamanho, desempenho, ou layout básico.
O que era o Mini original? Aqui no Brasil existiram tão poucos dele que é perfeitamente compreensível que ninguém saiba nada sobre ele. Vou tentar jogar alguma luz no assunto aqui.
Com certeza não era um carro esportivo. O BMW Mini, o atual, foi criado para ser um carro esporte de quatro lugares e tração dianteira relativamente barato (barato para um BMW), com comportamento em curvas e o prazer de dirigir em primeiro lugar, como todo bom BMW. Para chegar a isso, o carro é baixo, e até o espaço para os passageiros traseiros sofreu. O Mini inglês de Sir Alec Issigonis nasceu para revolucionar a maneira de se utilizar o espaço interno de um automóvel, um que fosse sensacional para seu minúsculo tamanho. Minúsculo mesmo: este carro era mais baixo e estreito que um Smart, e quase do mesmo comprimento. E levava quatro pessoas e bagagem. O BMW é praticamente um mastodonte perto dele.
E o Mini original sempre foi muito lento. Extremamente lento. O Cooper, teoricamente a versão esportiva, só era menos lento. É lógico que respondia muito bem à preparação, e existem alguns bem bravos por aí por causa disso, mas originalmente eram lentos. A grande cartada dele foi que, devido ao empacotamento ambicioso, cada roda foi parar numa extremidade do veículo. Sendo pequeno, seus pneus também eram pequenos (aro de dez polegadas), e portanto o carro era baixo também. O resultado é que freio era desnecessário para se fazer curvas. Como um pequeno kart de rodas pequenas em cada canto, CG baixo e curso reduzido da suspensão, o mini era ótimo para as pistas, e daí veio a sua fama, aproveitada pela BMW. A suspensão com molas de borracha em cone foi criada para ser barata e eficiente; acabou criando um kart crescido. Prova disso é que o uso do Mini como um carro de competição sempre espantou o criador, Sir Alec Issigonis.
O Mini original era como um Uno Mille; um excelente espaço interno, e uma excelente estabilidade, em um carro simples como um mineirinho mascando mato, um negócio de pobre mesmo. O que isto tem a ver com aquele nervoso carro esporte da BMW? O que liga um e outro a não ser o desenho caricatural, o travestimento, a tentativa de lembrar um passado imaginado que nunca aconteceu?
Um novo Mini deveria ser um avanço na ocupação do espaço interno de um automóvel, algo com um minúsculo motor escondido, sei lá, no porta luvas, debaixo do banco, no para-sol....devia ser um real avanço em empacotamento, como foi o motorzinho transversal dianteiro no carro de 1959. Algo que avançasse o automóvel na sua mais básica de suas funções, a de uma máquina de transportar pessoas. Foi exatamente o que fez Sir Alec em 1959, e o que fez o Mini um ícone: ele promoveu o avanço da máquina automóvel. Criou algo novo e melhor, que foi largamente imitado e melhorado. Progresso, gente, progresso!
E sobre design...O BMW é quase só design; seu desenho é objetivo e missão; é imprescindível para que ele seja o que é: uma caricatura de um passado inexistente. Já o carro original, nas palavras do próprio Issigonis, não foi desenhado. Diz Sir Alec que o Mini era “apenas a menor casca que pude fazer para o carro que criei”.
Parece-me incrível que o melhor que os designers atuais possam fazer seja isso, ou um Fiat 500, ou um New Beetle. Todos os três carros originais foram criados por engenheiros para ser puramente funcionais, e hoje em dia ninguém pode fazer melhor, então todos desistiram e copiam. É uma vergonha, uma admissão de fracasso. É como dizer que o automóvel não tem futuro, que então devemos nos contentar com brinquedos que imitam carros sérios e funcionais; com acessórios de moda ao invés de carros melhores.
Uma marca como a BMW não devia recorrer a uma decoração infantil e caricaturesca para fazer seu hatch barato. Muito menos usar uma marca que deveria permanecer morta (na verdade, Mini não era marca e sim modelo, e hoje virou marca, mas fazer o quê...). Devia continuar a fazer carros sérios como sempre fez. Sei que hoje todo mundo adora isso de ser aparecido, de “ser diferente”, que a BMW se deu muitíssimo bem com esta estratégia, mas eu lamento que não haja um Mini para adultos, e que o povo seja tão ridiculamente fútil. O carro é muito bom, e não merecia ter sido empetecado feito uma japonesa de 15 anos em uma convenção de mangá. Tetos quadriculados, rodas gigantescas, aqueles instrumentos ridículos lá dentro? Grow up, please!
Um purista espera que o passado volte. Eu só quero que o futuro chegue. Mil novecentos e cinquenta e nove que descanse em paz.
Veja o post sobre a avaliação do Mini Cooper S
aqui.