25 de março de 2011

BRISTOL CARS, Ltd (1946 – 2011)



Recebi hoje a triste notícia de que a Bristol fechou as portas no dia 3 de março passado. Seus bens e a marca estão disponíveis para compra (veja aqui), a produção, que há anos já não passava muito de vinte carros por ano, parou completamente. Sua pequena força de trabalho de 27 pessoas foi dispensada, incluindo aí o “Works Director” (Diretor da planta), Syd Lovesy, com 91 anos. O dono, Toby Silverton, que sucedeu o lendário Tony Crook em 2007, diz não ser capaz mais de manter a empresa funcionando.


O que dizer sobre isso? Me parece claro que era algo inevitável. Logicamente, num mundo como o nosso, em que ontem mesmo o Bob nos contou que um Toyota Corolla é tão bom para andar como um carro de corrida, não há porque alguém comprar algo como um Bristol. Mas a frieza da lógica não tem como aquecer meu coração neste momento triste.

O que mais me entristece é o fato de que ninguém entende mais o que significa um Bristol. Que não existem mais cinquenta milionários no mundo todo que comprem Bristols todo ano para manter a empresa funcionando. A Bristol nunca quis ter grande sucesso e fama, nunca tentou ser uma Mercedes ou uma Ferrari. Pelo contrário, a empresa sobrevivia fazendo algo diferente, discreto, e cultivava uma imagem de algo que só iniciados entendiam. Queria conhecer pessoalmente seus poucos clientes, e sobreviver fazendo algo especial para eles. Por que esse tipo de empresa não tem mais lugar no mundo?



A maioria de vocês deve estar se perguntando por que estou aqui eu lamentando a morte desse carro antiquado e feio, produzido num barracão em Filton, e vendido apenas em uma loja oficial em todo mundo: o tradicional showroom no número 370 da Kensington High Street, em Londres. Sim, somente um ponto de venda. Se você quer um Bristol, tem que ir a Londres. Digo, tinha...

Nunca dirigi um Bristol, mas já estive perto de alguns, e passei a minha vida toda lendo o saudoso LJK Setright, que tinha adoração pela marca. Setright era uma pessoa única, e um grande escritor, que descrevia em minúcias tudo que era bom em seus amados Bristols, coisa que me marcou profundamente. O pobre Leonard deve estar tentando um duplo carpado reverso no caixão.

Certa vez tentei explicar o que era um Bristol, texto que ainda pode ser lido clicando aqui. Mas falhei miseravelmente, e não sei se conseguirei remediar hoje, mas o momento me obriga a tentar.



Olhem a foto acima. O Bristol tem todas as massas principais dentro de seu entre-eixos. Até a bateria e o estepe, que eram alojados em compartimentos entre a roda dianteira e a coluna A. Tem pneus de perfil alto, com tamanhos ditados por necessidade e não moda. A área envidraçada é generosa, as colunas finas e delicadas, porque visibilidade é mais importante para evitar acidentes, oposto do pensamento de hoje, onde colunas enormes e parrudas existem para suportar acidentes que deviam na realidade ser evitados a todo custo.



Mas é por dentro de um Bristol que se entende realmente o carro, e o por que dele ser exatamente como ele é. O carro, se comparado aos Rolls, Bentley e Aston modernos, é positivamente estreito. Mas seu espaço interno é generoso, inclusive no banco traseiro. Ajuda a lateral reta, que usa toda a largura do carro, e o fato de que não há um gigantesco console entre os bancos dianteiros. É um interior antiquado, mas por isso mesmo fantástico, com seu conjunto completíssimo de instrumentos analógicos, com ponteiros, bem colocados em uma “capela”, bem na frente do motorista. Controles e difusores separados para ventilação e o ar-condicionado, cinzeiro enorme para charutos, e rádio alto e próximo do motorista. O fato de que é feito de couro e madeira nobres é até secundário... O volante é de diâmetro e pega convidativos, e não tem airbag no meio. Os bancos são os tradicionais sofás ingleses, que prometem milhas e milhas de conforto supremo.


O sistema de ventilação e ar-condicionado é tradicionalmente um ponto alto da marca. Dizem que pode se usar charutos e cigarros sem que fique futum algum, e a recirculação, renovação e controle de temperatura são perfeitos.





O motor bem recuado é um Chrysler V-8 com caixa automática, com regulagem da Bristol, é suave feito seda japonesa, permite 115 km/h com somente 1700 rpm, e mesmo assim “qualquer movimento no acelerador é respondido com rápida e obediente autoridade.” O carro, segundo dizia Setright, é sempre ágil, fácil de dirigir, sem esforço. Leve aos comandos, boa visibilidade, estabilidade neutra e segura. E pernas longas para viagens rápidas sem cansar, ajudado aí pelo enorme tanque de 110 litros.



Mas sim, sei o que estão pensando. O carro é feio. Eu digo que se vocês o vissem com meus olhos, não pensariam tal coisa. Eu costumo, estranhamente, achar linda qualquer máquina que admiro. Belo ele é para quem assim o vê.

O Bristol não é um carro para mostrar para os outros. É discreto, invisível, um carro para que ninguém te julgue por ele. Sempre teve uma clientela especial, que se preocupa mais em seu próprio bem estar e felicidade, do que com o que vão pensar dele lá fora. Todo mundo julga e admira um Rolls e um Aston, mas um Bristol passa desapercebido.

No mundo de hoje, não é a toa que faliu. Imagem parece ser realmente tudo.


Começei este post pensando em contar a história da marca. Seu começo épico em meio ao fim de uma guerra, reencontros emocionantes de amigos separados por seis anos de conflito, viagens de bombardeiro a Munique, as diferenças de BMW’s e Bristols, Tony Crook, George White, Setright, os Chrysler V-8, a longa jornada... Até pensei em falar nos mais recentes Fighter e Speedster, patéticas tentativas de modernizar a empresa se afastando de seus princípios.

Mas vai ter que ficar para outro dia. Hoje, apenas acendo uma vela para o defunto, e durmo num mundo mais triste. Um mundo sem um lugar para uma empresa de 27 funcionários, que fazia apenas vinte poucos carros por ano, na maior calma e cuidado, num galpãozinho lá em Filton, Bristol, UK. E lembro de um velhinho de 91 anos que hoje perdeu seu emprego, e a instituição que foi seu ganha pão por quase toda vida.

MAO



24 comentários:

  1. Eurico Jr.25/03/11 09:37

    Lamentável o passamento da Bristol, um dos mais idiossincráticos fabricantes de automóveis de todos os tempos. Fosse eu um milionário, teria um Bristol Blenheim na garagem. É feio, porém genial. Richard Branson e Liam Gallagher têm um.

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  2. Num mundo onde a padronização é mais valorizada que a personalização e fidelidade a uma proposta, não é de surpreender.

    Lamentável!

    Mas imagino a "pegada" de uma máquina dessas na subida de Petrópolis...

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  3. É... os Lotus ficando mais pesados, a Bristol morrendo (conhecia muito pouco dela, mas agora que conheci mais, fiquei bem chateado...)

    É o início do fim. Vamos juntar as moedas e comprar uma ilha... fazer um país para Autoentusiastas, sei lá... algo assim.

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  4. Só se pode lamentar por um mundo onde não exista lugar para uma fabricazinha inglesa de 20 carros por ano. Lembro-me sempre de um primeiro-ministro francês que incitava o povo "ou fazemos panelas ou fazemos o Concorde!". Preferimos as panelas...
    Acho que tenho algum desvio genético: Não consigo ver onde o Bristol é feio. Parece o carro perfeito para passear pelas estreitas ruas da velha Europa. Era até um sonho de consumo, para o caso de conseguir juntar dinheiro por mais uns 4688 anos...

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  5. MAO,

    lindo post, também gosto dessa "puissance" que os Bristol trazem. no filme "Educação", de 2009, aparece um fantástico modelo 405, do final dos anos 50, que leva as personagens para cima e para baixo.

    além de ser um ótimo filme, a primeira cena em que o carro aparece me deixou feliz da vida...

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  6. Coisa de duas ou três semanas atrás, fuçando no Best Cars, acabei me deparando com o seu texto sobre os Bristol. Gostei muito! Uma coisa que me passou pela cabeça ao lê-lo foi justamente a dúvida de até quando um fabricante de carros como a Bristol conseguria sobreviver. Aliás, em um mundo em que carros são lançados como sendo a última palavra em modernidade, design, segurança e quatro ou cinco anos depois já são tidos como obsoletos, antiquados, inseguros, poluidores etc. o fato de a Bristol ter sobrevivido até agora é algo extraordinário. Essa notícia me deixou triste, mas não me surpreendeu.

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  7. MAO,

    É um grande prazer ser um leitor das suas linhas.

    À parte o conteúdo dos seus textos, que são sempre impecáveis, sua verve faz de você um grande cronista, entremeando o assunto automóvel com a análise do que é o mundo hoje e o que já foi um dia. Somos sempre agraciados com histórias sobre valores, ideias e ideais que foram se perdendo, substituídos pela futilidade e a ganância. O way of life dos nossos tempos é só um reflexo disso, muita coisa efêmera e vazia.

    Sim, é uma pena que as coisas sejam assim atualmente, mas ainda bem que ainda existe gente que consegue enxergar estas nuances do comportamento humano e as compartilha de forma crítica com quem se dispõe a perder um pouquinho do seu tempo para refletir a respeito do que somos neste momento e para onde estamos caminhando.

    Parabéns, valeu aê!

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  8. Essa é a crônica de uma morte mais que anunciada. Já há algum tempo, o ganha-pão da Bristol estava mais nos serviços de manutenção de carros de clientes do que na venda de carros novos.

    Lembro de ter lido, há vários anos, uma matéria sobre a Bristol e o bug do milênio. A Bristol não precisou tomar nenhuma medida preventiva pelo simples fato de que seu índice de informatização era zero.

    O que parece ter dado o soprãozinho que faltava para derrubar a empresa foi uma consequência da crescente informatização da sociedade: um cliente da Bristol não teria ficado satisfeito com a reforma feita em seu carro, e essa insatisfação teria se alastrado via fóruns na internet e redes sociais. E isso, por sua vez, teria derrubado o valor de revenda dos carros da marca, que funcionava como uma espécie de termômetro do seu prestígio. Triste ironia do destino...

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  9. Os carros levem uma vantagem sobre os seres humanos - às vezes, eles ressuscitam (e o Morgan Three Wheeler está aí para provar). Mas custa acreditar que tal possa acontecer neste caso. Ainda que a marca venha a ser comprada, dificilmente seus novos carros serão tão especiais como estes dos quais agora nos despedimos.
    Então, como diria LJK, requiescat in pace, Bristol.

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  10. Em um mundo que se valoriza apenas a casca e não o recheio, os ótimos (porém discretos) Bristol não teriam chance mesmo... Apenas resta a nós, autoentusiastas, lamentar o desaparecimento de mais uma marca da época em que carros eram carros, não videogames dobre pneus. RIP.

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  11. 1 minuto de silêncio aqui.

    Primeira vez que li sobre a Bristo foi numa edição especial da 4 Rodas que era "Todos os carros do mundo" e já na época me pareceram interessantes.

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  12. Acho que v. consegui passar sim a essência de um Bristol, com seu charme e elegância datados mas sedutores,e a elegência que só um carro inglês feito à mão, e à moda antiga, pode apresentar.

    Também sinto muito.

    Luís Carlos

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  13. Rodrigo Rangel26/03/11 09:31

    Po, fiquei triste também! :(

    Vim conhecer melhor a Bristol justamente por causa do seu texto no Best Cars Web Site, MAO!

    http://www2.uol.com.br/bestcars/colunas/estrada-113.htm

    Ao ver a imagem do carro, achei-o sem atrativos, mas à medida que lia o texto e entendia suas formas e funções, passei a respeitar e admirar o carro.

    Sei que é otimismo demais, mas a esperança é a última que morre: espero que quem comprar a marca compreenda o valor da mesma.



    Rodrigo

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  14. Mao,
    Parabéns, texto feito com doce lamento. Do tipo "é a vida...mas que é uma sacanagem é..."
    A mim transmitiu nostalgia pela constatação da perda de mais uma referência em habilidade fabril manual.
    Em toda a minha existência (63)lembro de ter visto muito poucos de perto. O meu pai, com 86 e ainda com boa saúde, sempre gostou de carros ingleses, teve Austin A40 (aprendi a dirigir nele com 12 anos) e Standard Vanguard, durante toda a década dos 50.
    É por isso que lamento por quem nem vai ouvir falar em Bristols, que dirá ver algum...
    Em tempo! E a Morgan ainda resiste?
    E se resiste, ainda usa madeira na estrutura ou é mais uma lenda?
    Abraços,
    Carlos Alberto "Maxima" Mendes

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  15. Muito triste mesmo saber que neste mundo atual não há mais espaço para paixão, para fabricar carros com a alma. Só o que vale é o lucro. Confesso que me deu um nó na garganta ao ler o último parágrafo do post.

    Mas nem de longe acho o Bristol Blenheim feio, muito pelo contrário. Para mim, a carroceria tem um quê de BMW 635 CSi.

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  16. Só 2 coisas:

    1- Não acho o Bristol feio, mas talvez deve ser pq o admiro técnicamente...

    2- Colunas grossas!! É horrível dirigir um Fox se vc for um pouco mais alto, vc fica de cara para a coluna dianteira...

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  17. Achei bem legal o visual, justamente por ser discreto. Não gosto dessas coisas espalhafatosas, com faróis que quase envolvem o paralama inteiro, com capôs que envolvem os paralamas, enfim, os carros atuais se destacam pela tendência a desaparecimento dos paralamas dianteiros (pra mim isso é horrível).

    115km/h @ 1700rpm é um espetáculo! Uma grande perda mesmo, principalmente pelo acabamento e handling que promete.

    Não coloco a culpa na massificação e padronização dos produtos, e sim no preço estratosférico que os produtos feitos a mão sempre têm. Os carros da Bristol não eram/são uma exceção. Por melhores que sejam, quando voce começa a pesar o custo/benefício, fica difícil justificar a sua produção.

    E isso é tão verdade que a BMW vai mesmo voltar a fazer carros com motores de 4 cilindros. Pra mim isso é algo tão lamentável como o fim da Bristol.

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  18. Eduardo Palandi,

    Também gostei do filme, e do Bristol, lógico...

    MAO

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  19. Marz,

    Obrigado mesmo, de coração, por suas palavras. É muito bom ter leitores como vc.

    Comente sempre!

    MAO

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  20. Paulo Levi,

    Ótima essa do bug do milênio!

    MAO

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  21. Alexandre Freitas02/04/11 23:24

    Marco, boa noite
    Conheci o Bristol através dos seus textos e gostei, o carro tem muita personalidade. Aprendi a ter respeito pelas máquinas (como disse o Bob em outro post) e gostar de carros pela sua qualidade técnica. Prefiro carros simples e bem construídos aos feitos para agradar o mercado, cheios de frescuras e linhas da moda. Aparência é secundária, até o gosto pessoal muda com o tempo.

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  22. Minha resposta: http://nerddecarro.wordpress.com/2011/04/03/um-dos-ultimos-bastioes-dos-grand-tourers-britanicos-morreu/

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  23. Alfredo Lemos03/11/12 09:47

    Olá Marco,

    Acho que a Bristol não morreu! Os caras acabaram de botar no ar o novo site da marca todo reestilizado. Dizem que estão desenvolvendo a nova geração dos carros Bristol.

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  24. Putz! A foto em preto e branco mostra os caras fazendo partes da carroceria com english wheels, ferramentas usadas nas boas oficinas de restauração.

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