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12 de maio de 2011

CORVETTE 427

Foto: autor
Não é o 427 ha história, mas é idêntico

Anteontem o Juvenal Jorge postou uma excelente matéria sobre a estreita relação dos Corvette com os astronautas, principalmente com os do Projeto Apollo, a empreitada que colocou o homem na Lua em 1969. Que epopéia! Que coragem a desses caras!

Alguns anos atrás vi uma entrevista com um brasileiro, engenheiro da Nasa, que mostrou um relógio de pulso, digital, vagabundo, desses que se compra em camelô, e ele afirmou que aquela porcaria tinha mais capacidade computacional que o enorme computador de bordo da Apollo 11. E que era muitíssimo mais confiável.

Mas o homem foi pra Lua. E foi e voltou.

Na marra, na determinação e coragem, indo além dos limites, inventando soluções para infinitos problemas. Ficou a áurea, que espero continue servindo de exemplo inspirador.

O pouso do módulo lunar foi feito no braço, no braço forte de Neil Armstrong, o comandante. O combustível ia baixando e ele procurando em meio às crateras um local plano o bastante. Alunissaram, ele e Edwin Aldrin, com só 20 segundos de combustível de reserva.

Enquanto isso, Michael Collins ficou sozinho orbitando ao redor da Lua; o mais solitário e distante dos homens, já que quando contornava a face oculta da Lua perdia a comunicação com a Terra.

Foram e voltaram, com o que hoje seria chamado de carroças espaciais. Hoje, se quisessem, iriam pra Lua na maior moleza e segurança.

Em terra, os astronautas, como bem lembrou o Juvenal Jorge, tinham os seus Corvette.

Meu tio teve na época um desses Corvette, um 1969, preto, motor big block 427. Era um modelo especial que vinha com 3 carburadores duplos Weber e essa usina gerava 435 cv. Não vou pesquisar, vou só lembrar, e acho que o torque passava do 60 mkgf; torque normal para um motor de 7 litros. E não pense você que era só torcudo, não. Ele virava feito doido, subia de giro feito doido, de meter medo, ainda mais num moleque adolescente feito eu era. Que medo gostoso.

E claro que o câmbio era manual de 4 marchas, câmbio Clark, a mais gostosa cambiada que pode haver, e com primeira marcha longa, bem longa, de atravessar um quarteirão inteiro. 

Meu tio ficou com o carro um bom tempo. Nessa época já não era mais o Camillo Christófaro, o “Lobo do Canindé”, que mexia nos carros dele, mas sim o gordo e rabujento Brando, que, com o barrigão apoiado no para-lama protegido por lona e um cigarro Continental sem filtro lhe queimando o bigode amarelado, ia desmontando e montando os Weber, assoprando giglês e tal. E dali vinha cheiro de gasolina da boa, a verde, a Avgas, de avião.

Eu, claro, ficava lá xeretando e perguntando até o Brando perder a pouca paciência que tinha. Eu saía enxotado, mas logo voltava – ai se finalmente ligassem aquele V-8 e eu não estivesse por perto! Aquele estrondo que chacoalhava a garagem e me vibrava o peito, aquele cheiro de gasolina... aquilo era pirante. 

Luzes de alerta piscavam na minha consciência, que ainda em parte virgem, e curiosa, dizia: Perigo, Perigo, Perigo! – como era gostoso aquele perigo, aquele carro era o perigo vivo.

Alguns anos se passaram e logo aos 17 ou 18 anos passei a guiar o carro, e o amigo leitor, acredite, ele tinha sido feito pra mim, porque já saí guiando-o direitinho, e mesmo hoje, maduro e experiente, eu sairia com aquele moleque, eu, guiando, na boa. Não aprontei nada, não maltratei o carro, e não deixei de acelerar tudo o que ele tinha pra dar. Acho que foi de tanto observar meu tio guiando o 427, coisa que ele fazia com maestria, tocada forte e suave de quem sabe o que faz. Aprendi olhando e sentindo.

Alguns anos atrás o amigo Júlio Penteado veio me dizer que sabia onde estava o carro. Fomos lá, vi; e vi que estava todo original e que só o rádio fora trocado, e que até o revestimento em couro preto dos bancos era o mesmo.

Mãos no mesmo volante. Mão na mesma alavanca de câmbio.

É claro que fiquei emocionado. Os carros têm esse poder de nos transportar no tempo, e eu num estalar de dedos fui lá para os tempos da Apollo 11.

Armamos de eu guiar o carro para uma matéria em uma revista de clássicos. O carro saiu na capa. Estava lindo.

Guiei o 427, mas ele já não se portava com antes. Não tinha mais o Brando para afinar o V-8, não tinha mais meu tio para sentir qualquer coisa errada na suspensão e freios e mandar acertar certinho, não tinha mais quem o escovasse e o treinasse como antes, já que o então o dono, além dele, tinha outras dezenas de clássicos.

Carro esporte é que nem cavalo e cachorro: precisa ter o amor e a fidelidade do dono para ficar feliz. Ter mais de um carro esporte é como trair seu carro. Nunca ele será plenamente feliz, porque pra ser feliz ele precisa bastar a seu dono.

Quem sabe um dia não trago o 427 de volta pra casa? Já fiz isso com cavalos, o Caçula, o Espoleta, o Gatão. Por que não poderia fazer o mesmo com um carro?

Na minha mão ele voltaria a ser o que era.

Conheço aquele carro melhor que ninguém, talvez até mais que meu tio, que continua guiando como mestre que é, mas que talvez não o tenha amado tanto quanto eu.

AK

27 comentários:

  1. Arnaldo,
    tenho a revista com sua matéria. Muito bacana mesmo ler sobre o reencontro com um velho amigo.
    Carros como esse marcam para sempre nossos sentidos.
    Obrigado pelo texto.

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  2. "Carro esporte é que nem cavalo e cachorro: precisa ter o amor e a fidelidade do dono para ficar feliz. Ter mais de um carro esporte é como trair seu carro. Nunca ele será plenamente feliz, porque pra ser feliz ele precisa bastar a seu dono."

    Sensacional!

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  3. Arnaldo, aposto que você leu "Youth", do Joseph Conrad! Parabéns e abraços. Fred.

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  4. Grande post AK!

    No tempo - corvette e odisséias espaciais - em que as coisas eram feitas no braço mesmo!

    JLV começou dirigindo Lincoln Zephir V-12, você curtindo os anos da juventude em Corvette; existem fios invísiveis que ligam os grandes escritores de carros...

    MFFinesse

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  5. AK, só te digo uma coisa: leve esse Vette pra casa.

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  6. Alguns anos atrás vi uma entrevista com um brasileiro, engenheiro da Nasa, que mostrou um relógio de pulso, digital, vagabundo, desses que se compra em camelô, e ele afirmou que aquela porcaria tinha mais capacidade computacional que o enorme computador de bordo da Apollo 11.
    E o pior é que é verdade...
    O computador que a gente usa pra escrever tem capacidade de mandar outro foguete pra lua.
    Temos que aplaudir toda aquela equipe.

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  7. Aléssio Marinho12/05/11 12:22

    AK,

    Como é bom reencontrarmos nossos antigos carros, que nos deixaram saudade ou algum dessabor. É como reencontrar um velho amigo, que ha muito não vemos e com entusiasmo, colocar o papo em dia.
    Tive a sorte de já ter topado pelas minhas andanças país afora com alguns dos meus velhos companheiros. Um misto de saudade e alegria toma conta de mim num evento desse e agora com o seu post, sei que isso não acontece só comigo.

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  8. QUanto à viagem à Lua, curioso que, apesar de tanta facilidade, aparentemente nunca mais mandaram ninguém para lá.
    Quanto ao Corvette, porque não comprou ainda? rs
    Concordo com vc, acho que mulher e carro não dá para dividir a atenção...

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  9. Fred,

    Li do Conrad tudo que tem em português, mas o melhor dele, pra mim, é "Vitória", que era o nome de uma mulher. Pauleira brava esse.
    Ele e o Steinbeck são meus favoritos. Mas, tudo bem, não sei qual a relação do Youth com o post.

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  10. Corsário Viajante,

    não mandaram pra Lua porque não há mais motivos, por enquanto. Só pra passear não cola. Eu ia, mas não cola.

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  11. Aplausos de pé!!!
    Vai coletando! Esses textos merecem publicação!!!
    Poesia automotiva em forma de prosa!
    Ps. Mais um na torcida para que vc traga de volta o esportivo desgarrado! Se o colecionador tem tantos, ele depois de ler esse texto vai até te dar desconto nesse incrível vette chrome bumpers big block!

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  12. Puxa vida, que post! uma viagem, a gente vai contigo na emoção mesmo, obrigado, tava na hora desse texto aparecer pra alegrar nosso dia. Obrigado Arnaldo Keller.

    Ricardo - Vitória ES.

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  13. Arnaldo, concordo com vc! Podemos ter um monte de carros, mas carro-esporte tem que ser um só! Parabéns por mais um belo texto!

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  14. Sem palavras...

    Parabéns pelo post. O carro é lindo!

    Augusto Filho

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  15. Voce me fez lembrar que quando era pequeno, uns 8 anos de idade, meu pai na garagem regulando o carburador do seu Ford 52 e eu ali encostado no para lamas do carro,prestando atenção, cheirando a gasolina e sentindo um medo do ronco do motor enquanto ele dava aceleradas e acertava a mistura. Eu tinha medo e ao mesmo tempo não conseguia me afastar dali. Lendo seu post fui transportado no tempo. Parabéns AK.

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  16. Como o carro se comportava com estes pneumáticos firestone Wide Oval?. são do tipo diagonais?. Acho que era algo um tanto quanto sutil, descobrir os níveis de aderência, dos pneus não? somando a suspensão e o peso do Vette... Deve ser algo único tocar este carro!

    Henrique

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  17. Daniel San13/05/11 21:56

    Devo confessar que me emocionei ao ler seu post,pois me levou até o meu tempo de criança,quando meu pai lavava a VW-TL dele enquanto eu ficava no banco do motorista,nem conseguindo alcançar os pedais e "dirigindo" o carro. Como dizia o menino da minisérie,"Eram anos incríveis..."

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  18. Johnconnor(old rocker)13/05/11 23:00

    Astronautas e corvettes,ambos de um tempo "em que homens eram HOMENS e carros eram CARROS"
    The plastic fantastic

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  19. Ak,
    por coincidência aproveitei a noite de sexta sem nenhuma matéria para entregar e acabei relendo vários contos potentes.

    Mais uma vez eu vejo que compartilhamos de um mesmo sentimento.

    Abraço.

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  20. AK,
    Pooo cara! Texto épico!
    Não quero nem tentar entender estes entusiastas que lotam de comentários o décimo quinto post sobre etanol e não perceberam o seu post aqui. Confesso que até eu deixei pra ler hoje, no final de semana, e foi a melhor coisa que fiz, assim pude curtir o post como se deve.
    Só te digo uma coisa AK, faça o que for necessário para reaver o SEU carro. Este carro está praticamente na UTI, ele precisa voltar a ser dirigido como já foi um dia e você precisa dele também, sabe aquele filme "Love The Beast", que o cara precisa consertar o carro que ele bateu no rally, serve pra você AK! Vocês têm uma história juntos. Não dê mole!

    Abs

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  21. Henrique,

    O 427 da foto não é o da história. É idêntico, menos pneus.
    Confesso que não me lembro quais pneus eram. Naquele tempo eu ainda não dava tanta importância aos pneus quanto hoje dou.
    Mas eram bons, pode estar certo. Pneus originais do Corvette na certa era o que havia de melhor e os caras não eram tontos não.

    Fabio,

    O que é do homem o bicho não come. Por enquanto é muito caro para minha possibilidade.
    Obrigado por me desejar essa alegria.

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  22. Que história, não é qualquer um que reencontra um carro desses.

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  23. Arnaldo, tenho comigo que você é a mais pura tradução da palavra autoentusiasta. Admiro muito seu conhecimento e sobretudo seu respeito com relação aos carros.
    Vou ensinar aos meus filhos, quando os tiver, o que aprendo aqui com você!

    Um grande abraço!

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  24. Guilherme, obrigado.

    Fico envaidecido.
    Mas tem uma coisa. Não sou o maior autoentusiasta, disso eu sei bem. Talvez eu saiba expressar bem o que todos nós aqui sentimos.

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  25. Sem querer transformar esse espaço num sala de puxa-saquismo...

    Arnaldo, talvez existam pessoas com maior conhecimento técnico, teórico, prático, etc., mas alguém que transmita emoção como você, ahhh... ainda não vi!

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