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31 de agosto de 2011

BULTACO METRALLA

Fotos: Bultaco.es e Kawasaki


Eu já falei sobre este assunto várias vezes por aqui, mas é algo que não me cansa repetir. Parece-me óbvio que toda máquina realmente especial tem uma história interessante por trás. Principalmente uma história humana, de superação e inspiração, algo que transcende não somente a engenharia envolvida, mas também o frio e insensível mundo dos negócios. Quando a máquina é a expressão máxima de uma pessoa, ela se torna algo especial. Realmente especial.

Pensei nisso recentemente quando vi a venda em um site americano uma motocicleta que sempre me fascinou, desde que, durante minha lua de mel em 1995, vi uma chegar ao café em que estávamos sossegadamente aproveitando uma ensolarada e fresca tarde de Barcelona. Ela chegou ocupada por um jovem e incrivelmente belo e bem vestido casal, e brilhando ali em todo o seu esplendor negro e cinza, me deixou de queixo caído, me imaginando aboletado nela com minha jovem esposa, subindo as montanhas ali perto, pelas belíssimas estradinhas que um dia fizeram parte do famoso circuito de Montjuic.


Aquela coisa especial era uma Bultaco Metralla Mk2 (acima), a obra-prima para o asfalto da empresa de Don Paco Bultó, feita ali mesmo em Barcelona, mas no já então longínqüo ano de 1966. Uma 250 monocilíndrica de dois tempos, a Bultaco Metralla era em sua época uma das quarto-de-litro mais velozes do mundo.

Parece que estou vendo os jovens motociclistas de hoje, criados nas ultramegapotentes motocicletas japonesas modernas, torcerem o nariz para algo tão mundano como uma 250 de 1966, com freios a tambor e suspensões arcaicas. Mas eu sempre gostei de 250 esportiva. Acredito, na verdade, que os melhores deslocamentos para motocicletas são os que faziam parte das mais clássicas categorias de grand prix de outrora: 125, 250 e 500 cm³. Sei que existiram outras (350 me vem à mente como uma exceção super-válida), mas estas três categorias para mim simbolizam tamanhos tão perfeitos que não consigo imaginar porque acabamos fazendo coisas maiores ou menores em duas rodas. Existe uma simetria, uma lógica divina em uma monocilíndrica de 125 cm³, uma bicilíndrica de 250 e finalmente quatro cilindros para 500 cm³. Mesmo que hoje em dia a maioria não pense assim.

Mas é bicilíndrica a 250cm³ esportiva mais comentada hoje em dia aqui no Brasil, a excelente Kawasaki Ninja 250 (abaixo). Vejo muito se dizer por aí da falta de torque em baixa e do alto preço desta moto, mas na verdade ela é provavelmente a moto atual mais veloz pelo seu preço, e suas vendas altas provam que tudo é relativo. Deixa-me muito feliz o sucesso desta moto, porque como já disse, adoro as 250-cm³ esportivas, e a pequena Kawa está ditando um renascimento delas.

Mas, voltando um pouco ao assunto deste post, e aqui tentando finalmente explicar minha adoração pela velha Bultaco Metralla, vamos tentar comparar as duas motos esportivas de 250 cm³, separadas por 45 anos de evolução técnica.

Não há dúvida que a Kawasaki é a melhor moto. Com freios a disco, suspensão e pneus modernos, partida elétrica, injeção eletrônica, quatro tempos, refrigerada a água e com carenagem completa, é infinitamente mais estável, segura, durável, confortável, amigável. O fato do motor ser a quatro tempos e injetado torna a Kawa também infinitamente mais limpa que a fumarenta Metralla, que queima óleo lubrificante junto com a gasolina, como era de praxe nos dois-tempos até perto do final de década de 1960, quando chegaram as bombas de óleo dosificadoras.



Mas... não é a mais rápida. A simples e esbelta Bultaco pesa parcos 102 kg. Para vocês que estão prestando atenção, isto é menos que uma Honda CG 125 (110 kg). Ainda assim, seu monocilíndrico de dois tempos refrigerado a ar debita respeitabilíssimos 27,6 cv, transmitidos à roda traseira através de um câmbio de cinco velocidades. A velocidade final, medida por revistas independentes e confiáveis, é de 166 km/h reais. Barrabás!

Compare isto aos 169 kg e 33 cv da Kawasaki Ninja, e descobre-se que cada orgulhoso cavalo catalão da Metralla está carregando 3,7 kg, enquanto os pobres pôneis japoneses da Kawa arrastam 5,1 kg cada. Sim, quase 170 km/h em cima de uma Bultaco Metralla é realmente algo para quem tem um desejo forte de morrer gloriosamente, mas o fato é que ela é capaz disso. Eu, que adoro a agilidade de motos pequenas e leves, estou disposto a tentar!



Mas não é isso que realmente faz da Metralla algo especial, especial da forma que expliquei no início deste post. Ela é especial porque é uma Bultaco. E para entender o por quê disto, temos que conhecer um pouco da história da marca e de seu fundador, Don Paco Bultó (acima, no centro, com sua Metralla). Conto esta história amanhã. Aguarde!

MAO

19 comentários:

  1. Eu até me saio razoavelmente bem em cima de uma moto masssss, não tenho pendor para parachoque. Que é bonita, nem comento pois é sim. E a Kawa é belíssima. Se a catalã é tão leve, me pergunto qual foi a mágica feita. Será que o quadro não perdeu rigidez?
    Admiro muito quem é capaz de controlar a máquina especialmente quando derrapa com as duas na boa. só consigo fazer isso num carro. De moto, nem pensar. Será chão, direto. rsrs.

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  2. Mister Fórmula Finesse31/08/11 10:21

    Bela máquina, deve ser bem insegura para andar forte, mas deve ser também um festival de sensações, uma festa bem barulhenta sobre rodas. Como é leve e enxuta meu Deus!

    Curiosamente esses tempos, saindo de um pedágio, uma pequena kawa 250verdinha como a do post encostou no carro que eu dirigia (Um celta 2012), como era bem tarde da noite e não havia movimento, achei por bem sentar o pé para me livrar do sujeito que andava meio grudado.

    Pista dupla, leve declive, o carro começa a ganhar velocidade e quando o velocímetro começa a passar dos 170 horários (já quase na faixa vermelha), a pequena ninja está quase do lado...só em uma longa e aberta direita em descida - entrando como vinha - eu consegui despachar a motinha.

    Achei um desempenho bem interessante para um moto pequena, pois também sou simpático a motos pequenas e leves...com twister ou Fazer eu não conseguia mais do que 150 indicados.

    Não é uma Butalco, mas a honda pretende lançar no Brasil uma fireblade 250 para agitar ainda mais o coreto, o que nos leva a pensar que o mercado nessa cilindrada está bem aquecido, vide o que escreve o mestre das motos: www.motite.com.br

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  3. As motos dessa época são fascinantes, por sua extrema simplicidade... sem falar dos motores dois tempos, espetaculares para o uso esportivo, mas que estão sendo deixados de lado (injustamente), inclusive na moto-velocidade.

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  4. Uma máquina sem história é um eletrodoméstico. Realmente a Ninjinha tem feito sucesso, mas em recente teste feito por uma revista a Fazer também mostrou seus méritos.

    Eu acho as 250 as melhores para a cidade. Econômicas e com potência suficiente. São os "1.6" das motos!

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  5. Outra espanhola de respeito, a Montesa 250, fez muito sucesso nas pistas de lama!
    Belo post MAO, aguardo a historia de amanhã.

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  6. Muito interessante. Sem o mesmo carisma da Kawasaki, há as Kasinski 250, que estáo com ótimo custo benefício. A naked está R$ 9900, zero km. Sem dúvida um bom preço por um pacote que inclui motor bicilindrico, 32 cv, injeçáo, painel completo,freios a disco, etc. Desejo sucesso tanto a kawasaki quanto a kasinki.

    Abraço


    Lucas crf

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  7. Montesa, bem lembrado. Inclusive, alguns modelos dessa marca foram vendidos aqui, nos anos 80. Lembro de uma loja no bairro de Pinheiros, na Pedroso de Morais, quase chegando à Rebouças, onde estavam expostas, até entrei lá para conhecer de perto a marca que meu pai tanto fala lá de sua terra natal.
    Esse estilo de moto com baixa "cubicagem" já se vendeu por aqui no final dos anos 90. Lembro de duas: Cagiva Planet e Cagiva Mito, ambas importadas e de preço salgado.

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  8. A Ninja 250 é uma ótima moto, a um ano atrás eu estava em dúvida entre ela e a Comet 250R, acabei optando pela Comet devido ao porte da moto, a ninja é muito pequena e a impressão é que se a pessoa tem mais de 1,70m a moto fica desproporcional, mas ela é mais agil e mais rápida que a Comet.

    Eu ainda sonho com uma 2T, RD 350...

    Abraço

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  9. Esperamos para ler essa história. Conheço apenas por nome as Bultaco.
    A Ninja 250 tem um problema sério, criado pelos proprietários. A maioria está trocando o silenciador por um barulhentador, que, além de ser irritante, ainda deixa a moto com um som de motor horrível. E está difícl de ver e ouvir uma original.

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  10. Tive uma fumacenta RD350 1990, até hoje sonho com uma dessas de mesma cilindrada, mas da década de 70. A experiência em "2 tempos" é muito interessante, quem tiver a oportunidade, não a perca!

    GiovanniF

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  11. Provavelmente não verei pelas ruas,mas os motores dois tempos não morreram ainda, estão morando nos departamentos de engenharia de muitos fabricantes (na verdade alguns Snow mobiles da BRM – Evinrude tem 2T limpos) , desde de que a “Orbital Engine Company” na Austrália desenvolveu o primeiro sistema de injeção para motores 2T realmente funcional em meados dos anos 90.
    A Toyota tem até um estranhíssimo motor 2T que trabalha com válvulas de admissão e escape e tem comandos como os 4T, o pouco que li sobre este motor relata que ele pode desenvolver um torque igual a um motor convencional 4T 100% maior em deslocamento.
    Adoro 2T, fui criado com isto e só passei para motos 4T quando não foi mais possível comprá-las.
    Acosta

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  12. Johnconnor (Old rocker)31/08/11 16:34

    Acosta
    Saudade das TT 125,DT180,RD 125,RDZ 135 e finalmente da poderosa RD 350.Tem gente que vai desenterar as Jawa,Carona,etc.Mas essas "não são do meu tempo".SHUASHUASHUASHUA.....

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  13. MAO, já ouviu falar de um site sobre motos chamado Pipeburn? Acho que você pode gostar.
    http://www.pipeburn.com/

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  14. Exterminador do Presente01/09/11 02:16

    Vamos dar uma pra cada motoboy de São Paulo... e a paz voltará!

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  15. O que mais me impressiona nessas motos antigas era o fato dos freios a tambor na dianteira. Se o cabra não manjasse do cortado, ficaria com fading rapidinho...

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  16. como o Acosta falou, existem maneiras de manter os 2T bem limpos... mas acho que dificilmente teremos uma de volta, a não ser que sejam em nichos especifícos (Cross, Trail e Trial ou motos esportivas), pois a histeria carbônica que vivemos está quase dando fim aos 4T.

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  17. oskrmarinho02/09/11 14:11

    Sempre fui adepto de motos dois tempos; pelas minhas mãos passaram: RD125, Cagiva/Harley 125, RD200 bicilindrica (foguetinho) e finalmente uma RD350 ano 76, japoneza, um foguetão, que ao subir de giro, passando de 4.000 rpm, parece que abria as porteiras e a cavalaria saia em disparada, toda de uma vez e haja habilidade e jogo de cintura prá controlar, chegando fácil a 180 no velocímetro; depois, fui forçado a aderir às 4 tempos, XL250, CB400, etc.,mas o charme e o mistério dois tempos continuam povoando meus devaneios; ainda compro outra RD 350, prá curtir a aceleração braba e o cheiro gostoso da fumaça!

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  18. Gostaria de ver mais textos sobre motocicletas, aqui no AE. Afinal tudo que tenha rodas e motor é "auto" e digno de entusiasmo!

    Acho a ninja 250r uma baita moto, com design incrível, preço acessível e desempenho muito interessante (acima das 250 street)

    Mas ela peca por falta do apelo racing, que a Hyosung (Kasinski no Brasil) Comet 250r tem de sobra. A ninja tem posição de pilotagem ereta, lhe falta painel digital e um visual mais encorpado.

    Isto pode, claro, ser vantajoso para quem a utiliza no dia a dia e deseja uma moto mais confortável, o que seria um contrasenso para quem compra uma esportiva 0- nem que seja uma de pequena cilindrada.

    Caro Fórmula Finesse,
    Fireblade é o nome que a Hnda dá às motocicletas topo de linha. Houve a 900 e agora são as cbr1000rr.
    portanto a honda não lançará uma fireblade 250 e sim a cbr250 (detalhe: posição street, como na ninja e monocilíndrica)

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