Google+

17 de agosto de 2011

O TOQUE DE MIDAS




Anthony Colin Bruce Chapman (1928-1982, acima), engenheiro, empresário, piloto, chefe de equipe, revolucionário projetista, fundador da Lotus (e muitas outras coisas), já foi chamado de muita coisa. De gênio a escroque, de criminoso a superdotado. Mas o que sempre me impressionou na história deste grande homem foi sempre a sua habilidade de motivar pessoas.

Todo associado ou empregado de Chapman invariavelmente trabalhou duro demais por pouco dinheiro e reconhecimento. Muitas vezes, o reconhecimento e o dinheiro acabavam nas mãos do próprio Chapman, na cara dura. Mas ainda assim, todos são unânimes em sua lealdade a ele, e na saudade do tempo em que trabalharam juntos. Chapman, segundo eles, tinha a incrível capacidade de fazer as pessoas perseguirem uma idéia, de fazê-las trabalhar incansavelmente não em busca de dinheiro, mas em busca da satisfação pessoal de simplesmente provar que eles podiam, que eram capazes. Ainda segundo eles, Chapman via nessas pessoas habilidades que nem mesmo elas sabiam que tinham, e descobrindo isso, abriam possibilidades infinitas na vida destas pessoas. Ele era realmente um cara especial.

Então não é surpresa para mim que essas pessoas que tiveram a sorte de conviver com ele levaram vidas especiais, diferentes, e, principalmente, variadas. Parece-me que, depois de conviver com Chapman, certas portas no cérebro dessas pessoas simplesmente se abriam definitivamente, e elas, como seu mestre, percebiam que podiam fazer muito mais do que já faziam. Percebiam, pelo exemplo da extraordinária história da Lotus e seu criador, que não há limites quando se trabalha muito, e se persegue seu sonho. Como disse Chapman certa vez a seu filho: "Aqueles que podem, fazem. Os que não, só falam a respeito".

Deixo dois exemplos para mostrar isso aqui. Um milionário que se descobriu artista, e um artista que se tornou milionário, ambos com o traço claro da inspiração que veio de Chapman.

Peter Kirwan-Taylor tinha 25 anos quando conheceu Colin Chapman, em 1954. Tinha formação financeira (Contador formado), e trabalhava no mercado de ações de Londres. No futuro, seria instrumental na transformação da Lotus em empresa pública em 1968, operação que fez de Colin Chapman um milionário. Kirwan-Taylor teve longa carreira no "City" (como os ingleses chamam o mercado financeiro londrino), e foi extremamente bem sucedido nesta carreira;  durante sua vida comprou e vendeu incontáveis empresas, fortunas e pessoas, como todo milionário bem sucedido nesse meio.




Mas se alguém pergunta a ele qual o ponto alto de sua vida profissional, nada disso será lembrado. O ponto alto da vida de Peter Kirwan-Taylor foi o fato dele ser o desenhista do Lotus Elite de 1957 (acima). Peter era amigo de Chapman e adorava carros, e olhando os desenhos que fazia meio de brincadeira, Chapman o incentivou a desenhar o primeiro Lotus para a rua.



Somente o fato de um contador desenhar um carro já é incrível. Mas quando se sabe que o Elite (já descrito aqui pelo Bob) é considerado um dos mais belos carros já criados, um cupê de beleza pura e sem adornos realmente rara, é de se impressionar ainda mais. Fora o fato de que, com a ajuda do aerodinamicista Frank Costin, o Elite atingiu o baixíssimo Cx de 0,29, algo ótimo mesmo em 2011. Desenhistas profissionais passam uma vida toda querendo chegar a uma forma tão pura, bela e eficiente quanto a do Elite, mas sem o sucesso desse contador londrino que, incentivado por seu amigo Chapman, deu asas a sua criatividade. Realmente impressionante.




Mas ainda mais interessante é a história de Ron Hickman.

Hickman era sul-africano, radicado na Inglaterra desde 1950. Era por profissão desenhista de automóveis, e começou sua vida profissional na Ford inglesa. Em 1958, vem para a Lotus de Colin Chapman, onde logo se torna diretor de design. Aqui no Brasil o povo tem algo com esses títulos que escapa de minha compreensão (ah, a vaidade do homem), mas o título apenas significava, naquela pequena, mas incrível e jovem empresa, que Ron era o chefe dele mesmo e alguns ajudantes. 




Ron Hickman desenhou o Elan original, lançado em 1962 (acima). O Elan é outro clássico de Chapman, algo incrivelmente influente até hoje, e o trabalho de Hickman no desenho da carroceria refletia isso. Realmente sua obra prima. Além do Elan, nosso amigo desenhou também o Elan +2 e o Europa.
Só isso seria uma história de vida incrível para qualquer ser humano normal como eu ou você. Mas Ron Hickman teve uma idéia, e perseguindo essa idéia com afinco, como sem dúvida aprendeu com Chapman, sua vida mudou.




Certa feita, fazendo um armário para sua cozinha no fim de semana, Ron usou uma das caras cadeiras suecas de sua cozinha (adoradas pela Sra Hickman) para apoio, enquanto serrava um pedaço de madeira qualquer. O resultado é fácil de imaginar: Ron cortou um pedaço da cadeira junto, e teve que se submeter à ira da sua senhora.

A partir desse fato corriqueiro, Ron pôs-se a pensar e teve uma idéia. Em sua garagem, desenhou e construiu uma pequena bancada com morsas integradas, em madeira e alumínio. A bancada era desmontável e portátil, e algo extremamente útil. Patenteou a idéia, e começou a tentar vendê-la. Corria o ano de 1968.

Ron logo entendeu que licenciar sua invenção para um fabricante de ferramentas caseiras seria a melhor maneira de popularizá-la. Tentou por anos, sem sucesso. A Stanley chegou a respondê-lo em uma carta, dizendo que " ...as vendas seriam na casa das centenas, e não milhares". Mas confiante na sua idéia como só um discípulo de Chapman poderia ser, Ron cria uma pequena fabriqueta e vende ele mesmo a sua bancada em feiras e eventos correlatos. Em 1971, já tinha vendido 10 mil delas. A Black & Decker finalmente vê a luz, e compra os direitos da invenção. Em 1973, o primeiro Black & Decker Workmate (abaixo) aparece. Hoje, algo entre 50 e 100 milhões deles (fontes discordam no número exato) foram vendidos, e cada um deles pagou um royalty para Ron Hickman.
 




Ron ficou tão rico que se mudou para o paraíso fiscal da ilha de Jersey (famosa aqui por causa de Paulo Maluf) para fugir de impostos, e viveu uma confortabilíssima vida ali até falecer em janeiro deste ano. Amealhou uma grande coleção de carros clássicos, e nela, em lugar de destaque, estava um Lotus Elan Sprint. Mesmo com Bugattis e Rolls-Royces dividindo espaço com ele, era seu preferido, por motivos óbvios.



Mesmo levando vidas longas, e fazendo muitas coisas importantes nelas, ambos sempre diziam que um dos pontos memoráveis foi conviver e trabalhar com Chapman. Desenhar o Elite e o Elan foi o que consideravam o seu real legado. E em ambos os casos, o retorno financeiro desta parte de suas vidas foi pífio.

Se a importância de uma pessoa for medida pelo vazio que ela deixa quando parte, Anthony Colin Bruce Chapman foi realmente um grande homem. No mundo do automóvel, nunca mais apareceu alguém como ele.

MAO

22 comentários:

  1. Whatta great story mate !!!

    MAO, esplêndido o que esses caras faziam, "fazedores de carros" são uma raça quase extinta, infelizmente.
    Ótimo texto, volte sempre.

    ResponderExcluir
  2. Mister Fórmula Finesse17/08/11 16:31

    Fantástico post MAO! Será que existiu alguém tão amado e odiado quanto Colin no automobilismo?

    Quem foi Zeus no panteão definitivo (até agora) do esporte a motor que flertava com os carros de série? Enzo ou Colin?

    ResponderExcluir
  3. O Chapman podia ser o maior picareta do automobilismo, mas como engenheiro eu o reverencio.
    Com o fim do Exige, creio que sua alma vá assombrar a diretoria da Lotus por anos.

    ResponderExcluir
  4. Não conhecia essa faceta do Sr. Chapman, muito bacana o artigo.

    Fica a lição que um verdadeiro líder não é aquele que oprime e pressiona seus subordinados, mas o que inspira e lhes dá independência.

    ResponderExcluir
  5. MFF, sua indagação sobre "panteão do esporte a motor" me faz refletir o quanto temos sorte de viver num tempo em que os Srs. Carroll Shelby e Bob Lutz ainda nos iluminam com suas idéias.

    ResponderExcluir
  6. Milton Rubinho17/08/11 17:50

    Cacildis!!!Eu tenho uma caixa de ferramentas em casa da B&D que e uma "workmate shopbox"! E eu usei-a muitas vezes para fazer "trabalhos manuais"(ta bom, gambiarras) nas pecas das minhas bicicletas!

    God Bless ACBC!

    ResponderExcluir
  7. Só faltou contar a "versão" de que sumiu nos Mato Grosso da vida, para fugir dos credores. Si non e vero e benne trovatto.... E a mulher dele, que detestava o Brasil, depois da morte do Colin, começou a vir pra cá com frequencia inexplicável... Vai saber.
    Mas que o cara era "O cara" sem comentário. Ele e o boné jogado no ar em cada conquista. Ótimo post MAO.

    ResponderExcluir
  8. MAO,

    Mais um brilhante artigo a incrementar e acrescentar a nossa cultura automobilística e geral!! Parabéns por mais este "post" incrível!Abraços

    ResponderExcluir
  9. uma duvida.(1928-1982),54 anos.e so isso mesmo?

    ResponderExcluir
  10. Espetacular... histórias da época em que carros eram paixões e não apenas negócios.

    ResponderExcluir
  11. Belíssima história! Nunca imaginaria que o Lotus Elite foi desenhado por um contador.

    ResponderExcluir
  12. Sem dúvida, o Chapman foi um gênio da engenharia e um brilhante motivador de pessoas. Mas com a sua obsessão em reduzir ao mínimo o peso de seus carros, estava mais para Doctor Death do que para Midas.

    ResponderExcluir
  13. Eduardo Vieira18/08/11 06:27

    Não conheço muito da história pessoal de Chapman, por suas criações, o cosidero um SUMA do que deveria significar automobilismo...
    Quem lê sobre o Lotus 88, de "duplo chassis" e a tristeza de Chapman ao ter o carro banido das competições entendem que somente com esse modelo entre tantos, esse gênio (e sua equipe, claro!) teriam mudado o que é o automóvel hoje...

    ResponderExcluir
  14. MAO, já estava sentindo falta dos seus posts. Excelente história. Jamais soube que esses incríveis personagens participaram da história da Lotus. Continue nos escrevendo.

    ResponderExcluir
  15. Aléssio Marinho18/08/11 15:11

    Colin Chapman foi um dos homens mais brilhantes da história do automóvel. Seus projetos simples e confiáveis serão admirados por todas as eras. Mesmo ganhando pouco, queria trabalhar pra ele!

    ResponderExcluir
  16. MAO, valeu! Não deixe de aparecer.

    Sds

    ResponderExcluir
  17. MAO, quanto tempo!
    Que bom ver um texto seu aqui novamente, é um colório para os olhos.
    Tá difícl aturar o saraiva ultimamente. Conversa com ele pra ver se tá tomando os remédios direitinho.

    ResponderExcluir
  18. Ary,

    Isso mesmo, enfarte aos 54 anos.

    MAO

    ResponderExcluir
  19. Todos,

    Grato pelos elogios, e comentem sempre.

    Sobre o tento que se fala mal de Chapman, etc, eu particularmente coloco ele no grupo de pessoas do bem. Falhas ele tem, mas longe de ser assassino e bandido.

    Teria sido preso se não morresse, porém. Isto é fato. Mais sobre isso em futuro post.


    MAO

    ResponderExcluir
  20. Paulo Levy,
    Entendi o toque de midas, nos negócios que esses colaboradores tiveram extra-Lotus, nos quais, muito provavelmente tinham aprendizado da empresa do Chapman.
    Por outro lado, nem sempre as criações mais geniais, do ponto de vista técnico/engenharia, são sucesso de mercado, mesmo por que entram outros componentes não tão geniais assim.

    MAS

    ResponderExcluir
  21. Alexandre - BH -21/08/11 03:32

    É o que muitas pessoas talentosas precisam: alguém que lhes dê asas, um mecenas.

    ResponderExcluir

Olá AUTOentusiasta, seu comentário é sempre bem-vindo! De preferência, identifique-se ao comentar.
Atenção: comentários contendo ofensas pessoais, a marcas, a fabricantes isoladamente e/ou em conjunto, a nacionalidade de veículos, bem como questionando práticas comerciais lícitas e margens de lucro aceitáveis nas quais este blog não interfere, bem como o uso de palavras de baixo calão e a exposição de outros leitores ao ridículo, não serão publicados. O AUTOentusiastas se reserva o direito de editar os comentários sem declinar motivo.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...