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20 de setembro de 2011

PREÇO DE JAGUAR

O Jaguar E-Type e Sir William Lyons, em frente de sua casa, Wappenbury Hall

O recente lançamento do Cruze detonou o início de mais um round do esporte preferido dos brasileiros interessados por automóveis: determinar o preço que seria ideal para o carro. Eu realmente não tenho paciência alguma para isso. Chega a me irritar esse papo todo de que fulano tem isso e tem aquilo e custa mais ou menos, sicrano vende a tanto e tem 325 cortinas infláveis anabólicas, e o aquele outro tem dente azul e acesso a internet 325G, et cetera, et cetera, ad infinitum.

Irrita-me porque considera que tudo é igual, e impede as pessoas de ver os carros como as coisas únicas e diferentes que são. Até as revistas especializadas nacionais, infelizmente, dedicam-se de corpo e alma a esta atividade de comparação fria, sem impressão alguma sobre o carro, sobre como ele é andando, carregando gente. Sem dirigir, a maioria das pessoas já decide quem é melhor ou pior. Nada mais lógico, pois lendo o que diz a imprensa, é só o que interessa...

Mas apesar disso, preço é sim algo importante. Muito importante. Crucial para o negócio, diria até. Mas o que muita gente ainda não entendeu é que preço não tem nada a ver com conteúdo, tamanho ou desempenho de um carro. O que faz o preço é o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por aquele carro, no volume de produção para qual foi programado o investimento nele.

Tudo isso me fez lembrar de alguém que colocava preços em seus carros de forma diferente. Me fez lembrar de Sir William Lyons.

Lyons começou oficialmente sua carreira de industrial em 11 de setembro de 1922, sete dias depois que completou 21 anos. Oficialmente porque teve que esperar até completar a maioridade para assinar os papéis de fundação da Swallow Sidecar Co., empresa que fundara para fabricar sidecars para motocicletas desenhados por seu sócio William Walmsey, na cidade praiana de Blackpool, na Inglaterra. O que começou quase exatamente 90 anos atrás como uma modesta fábrica de sidecars artesanais se tornou uma empresa milionária em menos de 30 anos. 

Depois dos sidecars vieram carrocerias especiais em carros da Austin e Morris, e depois Standard. Um acordo de fornecimento de componentes com Sir John Black da Standard trouxe a Swallow para o rol dos fabricantes de automóveis. O nome da empresa mudaria para SS (Standard Swallow), e, depois da guerra, quando essas iniciais se tornaram algo de mau gosto, o nome mudaria novamente para Jaguar, o modelo mais conhecido da SS então.

Sir William não nasceu nobre, e construiu sua empresa da maneira antiga: com muito trabalho duro e economia pessoal. Se chegou a ser o que foi, não foi desprezando o valor do dinheiro. Sir William amealhou para si a fama de ser uma pessoa, vamos dizer assim, econômica. Mas isto não o impediu de criar a Jaguar em cima de uma noção muito interessante de valor. Hoje, a marca parece que esqueceu disso, mas um Jaguar sempre foi um carro esporte ou de luxo com um preço justo. Aqui no Brasil, onde a história das marcas é largamente desconhecida, muita gente boa desconhece completamente isso, mas a Jaguar cresceu e floresceu sendo uma marca que oferecia muito pelo preço que cobrava. 

Assim começou a Jaguar: fazendo carrocerias para o simples e barato Austin 7

Quando, no pós-guerra, Sir William contratava representantes para sua empresa nos EUA, para carros como o Jaguar Mk IV e depois Mk V (abaixo), com preços de venda ao redor de 700 libras esterlinas, todos os vendedores insistiam em aumentar os preços. Os tarimbados vendedores americanos eram categóricos: coloque o número 1, ou até mesmo 2 na frente desses preços, que ainda assim venderei a minha cota. Mas Sir William acreditava em cobrar um preço justo e um lucro justo por seus carros, e se a demanda aumentasse, ele simplesmente daria um jeito de fazer mais carros para atendê-la. Mais trabalho, investimento e preocupação nunca foi problema para este trabalhador incansável. E esta estratégia, apesar de raríssima hoje em dia, funcionou perfeitamente, a Jaguar se mantendo como uma empresa de sucesso absoluto enquanto Lyons esteve no comando.



Jaguar Mk V


Muito desse sucesso veio de seu olho clínico para design: apesar de não saber desenhar, os carros de sua empresa eram criados em metal, escala real, por uma turma de funcionários acostumada e treinada para interpretar os desejos de Sir William. Hoje departamentos inteiros mantidos a peso de ouro e com equipamentos moderníssimos não conseguem chegar aos pés dos clássicos criados por Lyons e meia dúzia de sujeitos com marretas e martelos. Talento não se acha em qualquer lugar...

Genebra, Parque das Águas, 1961: Lyons mostra seu maior clássico, o Jaguar E-Type

E quão barato era um Jaguar? Um exemplo fácil foi o E-type de 1961, o carro que Enzo Ferrari disse ser o mais belo já criado, um supercarro que era tão veloz e muito mais sofisticado tecnicamente que qualquer Maserati ou Ferrari contemporâneo. E ainda assim era barato, como podemos ver abaixo:





Essa estratégia de preço correto de Lyons fez bem também quando os americanos (a Jaguar vendia 60% de sua produção nos EUA) começaram a equipar todos os seus sedãs com câmbio automático e ar-condicionado, nos anos 50. Tais equipamentos não eram disponíveis então em nenhum Jaguar. Mas como o preço dos felinos era justo (leia-se baixo), continuaram vendendo até que a relativamente pequena empresa inglesa desenvolvesse estes caros componentes para eles. Quando se tornaram disponíveis, o pequeno e justo aumento não doeu para ninguém, e as vendas apenas aumentaram. A pão-durice e senso apurado de justiça de Sir Lyons parece ter funcionado bem, pelo menos enquanto ele esteve no comando.

Que diferença de hoje em dia! Seguindo a lógica vigente agora, um E-type facilmente chegaria ao preço de um Ferrari, e o mundo seria bem mais triste por isso.

O Jaguar E-Type no Salão de Genebra de 1961: à direita podemos ver,, da direita para a esquerda, Bill Heynes (engenheiro-chefe da Jaguar), Sir William Lyons e, sem dúvida pasmo com o novo concorrente, o lendáro engenheiro da Mercedes-Benz, Rudolph Uhlenhaut

Além do design e do preço, grande parte da fama da Jaguar, da sua admissão no panteão das grandes marcas, vem de suas cinco vitórias em Le Mans nos anos 50. E deste esforço vem um exemplo engraçado do, vamos dizer assim, "econômico uso dos recursos para obter o resultado desejado", para usar as palavras do próprio Sir William.

Conta-se que, antes da prova de 1955, quando grandes esperanças se depositavam na vitória dos D-Types para alavancar as vendas que andavam em pequena recessão, Lofty England, chefe da delegação da empresa em Le Mans, recebe três telegramas. O primeiro veio dos EUA: "O Presidente, Vice-Presidente, executivos e empregados da Jaguar Cars North America Inc 427 Park Avenue, New York, desejam a todos os membros do time Jaguar competindo nas 24 horas de Le Mans de 1955: toda sorte do mundo!"


O segundo, veio do service department , departamento que construía os carros de corrida e era chefiado por England. Seus funcionários disseram: "Boa sorte, de todos os membros do Service Department"

O terceiro e último dizia apenas: "Good Luck, Lyons" (Boa sorte, Lyons). Ao fim da prova, parabenizando a vitória épica, veio outro que dizia: "Well done, Lyons" (Bom trabalho, Lyons)

MAO

Sir William Lyons (1901-1985)


Para saber mais:

25 comentários:

  1. São por textos deliciosos como esse que frequento o AE. Parabéns, MAO, belo texto!

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  2. Admiro muito pessoas econômicas, esses sim são os realmente preocupados com nosso mundo e ambiente, pois evitam desperdícios de todo tipo.
    Adorei os telegramas de Lyons.
    Poderia ser usado como "regra de Lyons" para encontros de trabalho.

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  3. jackie chan20/09/11 09:47

    Muito boa a sua colocação sobre o papo do tipo este carro é melhor que aquele porque tem TC, tem 5 cv a mais, atinge 10km/h a mais de máxima, etc.. Hoje mesmo estava pensando nessa bizarrice que acomete muita gente.

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  4. jackie chan, esses são os "especialistas de ficha técnica"... Infelizmente, estamos cheios desses.

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  5. Eurico Jr.20/09/11 10:23

    Texto absolutamente sensacional, para degustar cada palavra.

    Apesar de construir belíssimos carros de preço justo e alto desempenho, nessa época a Jaguar começou a granjear uma fama indesejável que a persegue até hoje: confiabilidade mecânica absolutamente infernal.

    Claro, muito disso era culpa de Lucas, o "Príncipe das Trevas". Mas o controle de qualidade estava a anos-luz do padrão já praticado pelos alemães. E quando a British Leyland assumiu a Jaguar... aí o caldo entornou de vez!

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  6. O negocio é que o povo gosta de criticar mesmo, não importa se "X" carro é o melhor do mercado e o mais barato, o povo sempre vai inventar algum defeito.
    O custo-benefício na hora de comprar um carro é muito importante, mas aquela paixão que acaba surgindo por certo modelo acaba sendo mais importante ainda.
    Infelizmente muitos falam isso da boca para fora, falam e falam que tal modelo é caro e que existem outros melhores, mas na hora de comprar esse caboco vai direto comprar o modelo que ele mesmo havia dito que era mais caro ou pior...

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  7. Thales, adorei o "especialistas de ficha técnica", kkkkkkkkkkkkkkk
    Outra mania horrível que temos hoje é julgar um carro APENAS pelos equipamentos, ignorando projeto, dirigibilidade, etc etc... O "melhor" é o "mais completo", o que nem sempre é verdade, caso típico do Chery QQ que, apesar de ter ABS e Air-bag, para mim é mais inseguro que um Polo sem estes equipamentos.

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  8. Excelente texto, que pena um Jaguar não ser mais tão acessível.

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  9. Ivo Junior20/09/11 11:59

    Não foi à toa que a Jaguar teve o estrondoso e merecido sucesso. Obrigado MAO pelo texto, sensacional.

    Esses "especialistas de ficha técnica" irritam mesmo. Me fazem lembrar do jogo "Super Trunfo" sobre carros, o que joguei bastante na infância e adolescência. :)

    Abraço, Ivo Junior.

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  10. luizborgmann20/09/11 12:00

    Na história da Jaguar faltou mencionar também os objetos de desejo de colecionadores, os XK 120 e XK 140 (3,5 litros (3.442cm3) e 160hp a 5200 e 190 a 5500 respectivamente). No Jaguar E-type valeria a pena a foto do capô integral aberto. Parabéns pela matéria.
    luizborgmann

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  11. Entendo o que o MAO quis dizer, mas infelizmente (ou felizmente) hoje temos um número de marcas e modelos muito maior que o daquela época.

    Há como alguém testar EFETIVAMENTE (e não test-drive de quarteirão) todas ou a maioria das opções dentro do que um comprador espera de seu novo carro? Não acredito.

    Há hoje tamanha diferença de qualidade de projeto e construtiva que faça alguém, RACIONALMENTE, comprar de olhos fechados um carro só por ser da marca X? Não acredito.

    Ainda que tendo de encarar algumas "parcialidades", a consulta a sites especializados, blogs e fóruns é a melhor forma POSSÍVEL de selecionar um veículo.

    Abraços!

    P.S.: um dos carros mais caros de sua lista é o Mercedes 300SL. Pergunte ao Bob o que ele achou de sua dirigibilidade... nem tudo que é caro é bom.

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  12. Aléssio Marinho20/09/11 12:30

    MAO,

    Parabens pelo post.

    Não pude deixar de lembrar do post do Strassen sobre o preço do Cruze. Foram reclamar que o carro tem farol monoparábola (!), e por isso tinha que custar mais barato. Bobagem, o que importa é o que sentimos pelo carro e se ele nos atende em sua proposta.
    Não adianta nada a Hyundai oferecer o IX35 a 90 mil dinheiros e entregá-lo com farol de uma lâmpada só e achar que o carro é maravilhoso.

    Certo estava Sir Lyons em cobrar o preço justo ao cliente e o suficiente para manter a fábrica lucrativa.

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  13. Tem que ver sim o custo/benefício, mas não necessariamente colocar em primeiro lugar. Se eu não gosto de determinada carcterística de uma marca ou modelo (e isto é algo que eu vou sentir o tempo TODO), como por exemplo um rodar mais duro, não vou deixar de levar o que gosto, de rodar mais macio, só pelo fato de aquele de rodar duro, pelo mesmo preço, oferecer uma ou duas "perfumarias" que é até capaz que eu nem utilize em toda a minha convivência com aquele veículo.

    Mr. Car

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  14. A indústria automotiva nacional se esqueceu completamente da simples fórmula, preço de custo + lucro = preço final.

    Vemos por aí aberrações como, a Fiat estipular preço mais alto para o Linea para colocá-lo num patamar superior e, vendo que o objetivo não foi alcançado, baixar o preço para recolocá-lo em outro segmento do mercado. Isso é um absurdo.

    E agora, com a nova alícota de importação, o governo deu carta branca para as montadoras nadarem de braçada nessas aberrações.

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  15. Digamos que hoje o capitalismo está, vamos dizer assim, mais selvagem. Embora seja possível cobrar menos e ainda manter um bom lucro, não é isso que o acionista quer. Só é possível manter essa estrutura de precificação em empresas familiares ou de um dono só, caso da Jaguar na época do texto. Mas o mundo mudou. Como o autor destacou, quem dá o preço é o comprador, e o acionista, essa entidade mítica, não aceita que se cobre menos do que ele (o cliente) esteja disposto a pagar. É por isso que um Spacefox pode custar 60 mil, enquanto uma perua Megane, superior em termos técnicos, sai por 50 mil.

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  16. Tudo muito bem colocado...
    Quando fui comprar meu Focus GLX 2.0, cansei de ouvir de amigos que um I30 era dois mil mais barato e era mais rápido...era importado...vinha com bancos de couro, etc...
    Comprei o Focus, mais caro, mas dentro da proposta q eu queria, q era um carro gostoso de dirigir, ao mesmo tempo esportivo e confortável...estou muito satisfeito!
    A Fiat antigamente tinha preços muito bons em seus carros...agora passaram a cobrar bem mais caro.
    Existe uma percepção do mercado do preço q o carro vale...independente de sua "Ficha Técnica"...quando a Fiat lançou o Línea, vendia a 62 mil...agora caiu para 53 mil... e quando lançou o Bravo, ele custava 58 mil sem ABS...agora já está por 53 mil com o ABS.
    Acho q os importados deram uma boa ajuda nestes casos. Uma pena a alteração do IPI.

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  17. A parte elétrica deste Jaguar é e foi sempre referência no mercado automobilistico....!

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  18. Nunca imainei que fosse esse o motivo do tão amado XK-E ser tão barato.
    Não seria nada mal haver mais Sir Lyons no mundo de hoje, em todos os setores.

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  19. Li recentemente, em algum lugar, que a confiabilidade do E-Type em geral ,não só na elétrica, era péssima.
    Talvez resultado da economia.
    Já os Porsche 356, embora como carros fossem mil vezes inferiores a qualquer Jaguar, nunca quebravam, e iam conquistando cada vez mais adeptos.
    Hoje a Porsche e a Jaguar são empresas bem diferentes, a inglesa nem sombra do que já foi.

    McQueen

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  20. Mais um post para apreciar, comentários idem.

    Ao final do texto, desejei mais historias, envolvendo o E-Type, com a narrativa característica do MAO.

    Sobre os grandes industrias do atual ramo automotivo, infelizmente o “olho grande” e o conservadorismo impera em sua classe. Sempre com a desculpa da concorrência feroz e dificilmente inovando de fato.

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  21. Leon,

    As revistas deviam ajudar. Elas devem descrever como são os carros para você. Comparar preços e equipamento qquer um com mais de um neurônio pode fazer, não carece revista.

    Eu nunca dirigi um Jaguar, mas as revistas inglesas e americanas me educaram já sobre o que esperar. Quase nunca falha em bater com a minha impressão. Já na imprensa nacional é mais raro.

    Abraço, e comente sempre!
    MAO

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  22. Mr Car,

    ´Já pensei como vc, hoje faço duas perguntas:

    - Eu realmente quero?
    - Tenho dinheiro?

    Se sim, nem aí para qualquer custo ou benefício. Carro como escolha racional é uma besteira, na humilde opinião deste colunista.

    MAO

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  23. Todos,

    Grato pelos elogios, e comentem sempre!

    MAO

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  24. Willian Farno06/02/12 21:41

    Para que os mais jovens entandam completamente a história dos telegramas é importante dizer que os telegramas eram cobrados pela quantidade de palavras.
    Goste muito desse site.

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