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30 de dezembro de 2011

O HERÓI DE LE MANS



Vencer as 24 Horas de Le Mans, este é um dos prêmios máximos do esporte a motor mundial, que por si só já é um grande desafio. Ser o projetista ou dono de equipe vencedor das 24 Horas de Le Mans também é um grande mérito, mas vencer as 24 Horas pilotando um carro concebido por você mesmo, isso é praticamente impossível. Imagine então se este cidadão fosse um francês, seria a experiência máxima e euforia total para um país todo.

Praticamente impossível, mas não totalmente, tanto é que somente uma pessoa conseguiu este feito e, ainda por cima, um francês nativo da região do circuito de La Sarthe. Este homem é Jean Rondeau.


Jean Rondeau

Jean nasceu na vila próxima ao circuito em 1946, e desde pequeno conviveu com o automobilismo e as 24 Horas. Tornou-se piloto cedo, participou de diversas categorias de jovens pilotos e tornou-se piloto profissional de sucesso. Nos anos 60 fez nome das provas locais de Turismo, correndo com os R8 Gordini e depois com os famosos Alpine (a versão original dos nossos conhecidosWillys Interlagos). Participou também de provas de subida de montanha a bordo dos Alpine, onde conquistou mais vitórias.

Já nos anos 70, com boa experiência adquirida e vontade de sobra, partiu para o sonho de Le Mans em 1972, pilotando um Chevron-Ford. Jean não tinha como bancar uma estrutura adequada para a corrida, fez o que pôde, liderou os treinos da sua categoria mas na corrida foi forçado a abandonar por falta de peças necessárias para fazer os consertos no carro. 

Em 1973, se inscreveu com um Porsche 908 mas não conseguiu se qualificar, enquanto que em 1974, novamente de Porsche, conseguiu terminar a corrida em 19° lugar na classificação geral, sendo o 7° colocado na sua categoria. Já um grande resultado para muitos, mas Rondeau queria mais. Correndo no ano seguinte na categoria de carros de turismo, a bordo de um Mazda RX-3 equipado com motor Wankel, Rondeau conseguiu andar bem com bons tempos, mas abandonou a prova.

Para 1976, tudo mudaria, pois Rondeau partiu para a maior empreitada de todas, construir seu próprio carro e inscrevê-lo em Le Mans. Não havia mais uma equipe francesa com força para vencer a corrida frente aos ingleses e alemães, então esta era a chance de Rondeau arrancar alguns patrocínios e montar sua estrutura. 

Não foi somente de Rondeau a iniciativa de ter uma equipe francesa participando, pois havia um concorrente local, Gerard Welter que fora projetista da Peugeot, também queria ter seu próprio carro. Os dois partiram para os projetos individuais para que fossem os representantes da França, mas logo depois a Renault voltou para o campeonato com a união da Gordini e da Alpine.

O projeto ficou pronto e dois carros foram construídos para a prova de 1976. Apostando alto no seu projeto, Rondeau contrata um forte time de pilotos para seus carros. Entre eles, Henri Pescarolo e Jean-Pierre Beltoise. A prova foi disputada e o rendimento do carro de Beltoise/Pescarolo o colocaram em 8° na geral e vencedor na categoria GTP, em uma prova dominada pelos carros da classe S, em especial o Porsche 936 de Jacky Ickx. Já era uma glória para Rondeau ver seu carro vencer na categoria e conseguir um ótimo 8° lugar na classificação geral. O próprio Rondeau terminou em 21° na geral, dividindo o carro com Jean-Pierre Jaussaud e Christine Beckers. Era o grande começo que Rondeau queria para conseguir mais verba para os anos seguintes.
  
Como Rondeau estava mais preocupado com a construção do carro e seu desempenho para vencer a prova, optou pelos motores Cosworth V-8 já conhecidos e vencedores, enquanto que o projeto de Welter utilizava o V-6 da PRV (antigo grupo Peugeot-Renault-Volvo). Isso foi uma jogada perigosa, pois os motores Cosworth eram realmente superiores, mas por outro lado, todos os fornecedores e colaboradores franceses não admitiam um motor inglês/americano em um projeto francês. Foi um golpe duro para Jean, mas como excelente vendedor e de grande visão, fechou contrato com a empresa Inaltera (grande fabricante de papel) para ser o principal patrocinador.

Em 1977, agora com três carros Inaltera LM inscritos, a equipe teve maiores dificuldades, com falhas e acidentes pela prova. Ao final, após andar em 3° na geral, o carro de Rondeau e Jean Ragnotti não agüentou os ataques do Porsche 935 e terminou em 4° na geral e vencedor na categoria GTP. Desta vez, com o próprio Rondeau ao volante, a alegria era especial. Os outros dois carros terminaram em 11° e 13° na geral.

Inaltera-Cosworth 1976, o primeiro carro

Inaltera-Cosworth 1977, já uma evolução

Mesmo com os excelentes resultados, a Inaltera não patrocinaria mais a equipe francesa, retirando grande parte do orçamento previsto por Rondeau para 1978. Foi um duro golpe, mas o francês sabia que poderia fazer alguma coisa. Vendeu um dos carros do ano anterior para um piloto privado e o jeito foi participar com apenas um carro, a evolução do seu projeto agora batizado de Rondeau M378. Nos treinos o carro vendido foi bem mais rápido que o novo M378, mas na corrida a competência de Rondeau o levou ao 9° lugar na geral e mais uma vitória na classe GTP.


O primeiro Rondeau M378 de 1978

1979 foi um ano de resultados similares, agora com três carros inscritos, sendo já a evolução do ano anterior, agora o M379. Cada carro tinha um grupo próprio de patrocinadores, esta a forma que Rondeau conseguiu para bancar seus gastos, graças a sua personalidade persuasiva. O melhor carro terminou a prova em 5° na geral e vencedor na categoria, atrás apenas dos poderosos Porsche turbo.

Rondeau M379 de 1979 sob as cores da VSD e Canon
O ano seguinte começara muito parecido com 1979. Três carros inscritos, cada um com um grupo de patrocinadores e orçamento sempre no limite. Os carros seriam o modelo M379B (o modelo da foto que abre este post), melhorias em relação ao ano anterior. O primeiro carro seria conduzido por Henri Pescarolo e Jean Ragnotti, o segundo seria pilotado pelo próprio Rondeau junto com Jean-Pierre Jaussaud e o terceiro carro seria do trio Gordon Spice, Jean Michel e Pierre Martin.


Detalhes do M379B de 1980

A forte chuva que marcou esta edição da corrida castigou Le Mans por horas a fio. Quando a chuva parou, os Rondeau já ocupavam a 2ª e 3ª posições, indo à caça do Porsche 935K3. Alguns problemas de motor atrasaram os Rondeau, mas conseguiram se recuperar ao longo da noite. O 935 também enfrenta problemas e o carro pilotado por Rondeau assume a liderança, mas a forte chuva volta a cair e surpreende Jean em um trecho da pista, que escapa e bate nas barreiras de proteção. Rondeau ainda consegue voltar a pista sem grandes danos ao carro.

Na última parada de box, Jaussaud assume o volante e vai para tentar a vitória. Jaussaud vai para pista com pneus slick, enquanto que Jacky Ickx o persegue ainda com pneus e chuva. Na última volta, uma poça d'água quase leva tudo a perder-se, quando o M379B derrapa e sai da pista. Ickx desconta o máximo que pode, mas o Rondeau voltara a pista e aponta na reta de chegada para receber a consagração máxima.

Milhares de pessoas alucinadas invadem a pista para saudar os novos heróis nacionais. Jean Rondeau consegue o verdadeiro milagre de vencer Le Mans com um carro fabricado e pilotado por ele próprio, construído "logo alí" a apenas alguns quilômetros do portão do circuito. Para completar a festa, outro Rondeau termina em terceiro e vai ao pódio. 1980 foi o ano em que um piloto local venceu a maior prova de longa duração de todos o tempos em um carro de concepção própria, fato nunca mais repetido.

A consagração em Le Mans veio em 1980

No ano seguinte, a Rondeau ainda conseguiu bons resultados, com um 2° e 3° lugares em Le Mans, mas a partir de 1982 as coisas mudaram e cada vez mais o dinheiro era cada vez mais curto. Em 1983, a última tentativa de Rondeau era o M482. O carro era muito avançado, mas sofria de problemas de durabilidade. 

Ainda com este modelo, a equipe lutou para conseguir financiamento até 1985, quando a Ford retirou oficialmente seu apoio e assim acabava o último fio de esperança financeira para Rondeau. A única solução era fechar as portas.

Oúltimo Rondeau, o M482 de 1983
Em dezembro deste mesmo ano, um trágico acidente levou Jean Rondeau, quando seu carro foi atingido por um trem em uma viagem pela sua cidade natal.

Parada de box do carro vencedor de 1980


Abaixo um pequeno vídeo (em francês) mostrando os carros da Rondeau e recortes de jornais que mostram como foi marcante essa vitória em 1980.


fotos: arquivo, motorsport.com

MB


12 comentários:

  1. Milton

    24 Horas de LeMans,"meu carro"... Repetindo Briggs Cunningham,só com finais diferentes.Viva o sonho e o bom combate!

    Ab..

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  2. MB,
    boa tarde e feliz 2012 para todos os autoentusiastas (autores e também os leitores e comentarias). Faço minhas as palavras de Lawrence Jorge, belo post. Você poderia continuar nesta linha e contar sobre a história da Pescarolo. Pelo sobrenome que li neste post, é o mesmo Pescarolo da equipe de Le Mans?

    Eduardo

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  3. Já tinha visto algumas fotos de carros da "Rondô" no Facebook mas desconhecia essa história de persistência e determinação.

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  4. Que bela história Miltão.
    Tinha ouvido falar do carro, mas não sabia desses detalhes.
    Feliz 2012 a voce, a familia e a todos os AutoEntusiastas, que por aqui desfilam.
    Romeu

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  5. Primeiro gostaria de desejar um feliz ano novo a todos e a suas respectivas famílias.

    Tenho de dizer que fiquei com a mesma dúvida do anônimo das 13:37, e gostaria que o Milton continuasse nessa linha e esclarecesse a origem da Pescarolo.

    Por último gostaria de fazer uma sugestão fora de tópico: que tal o autoentusiastas fazer uma avaliação do Chevrolet Cruze manual? Já procurei um nas concessionárias de Porto Alegre e nada, parece que o carro não existe. Se o câmbio for de relações longas como dizem, posso fazer vista grossa para a falta de graça de seu desenho.

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  6. MB, posso reproduzir sua matéria em meu Blog e logicamente citar o AE e você como fontes? É que tenho uma miniatura de um Roundeau que já postei no Blog, tentei descrever a história da marca em outro post mas o seu ficou sensacional!

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  7. Bela história, Rondeau foi persistente até conseguir seu objetivo maior e olhem que ele queria nada menos vencer a corrida de endurance mais famosa do mundo. Mas que os bons resultados iniciais encorajaram seus patrocinadores a seguir investindo.
    Fez-me lembrar do Prost, quando tentou sua solução francesa na F1, infelizmente com resultados frustrantes o suficientes para sepultar o sonho após poucas temporadas.

    MAS

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  8. Anônimo,
    Sim, é o mesmo Pescarolo dos tempos de hoje. Depois de ser piloto, foi ser chefe de equipe.

    Vou pensar em algo a respeito da história dele e postamos aqui em breve.

    abs,

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  9. Uma vida entre carros e miniaturas,
    Pode sim.

    abs,

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