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6 de fevereiro de 2012

PEQUENO GRANDE MUSEU




São Paulo é uma cidade onde o automóvel e suas variações não são apenas parte da paisagem, mas também parte da História. Não dá para falar da cidade no último século sem mencionar as diferentes formas de locomoção de pessoas e cargas.

Mas, apesar da grande importância histórica, falta à cidade um museu à altura, que preserve a memória do automóvel em nossas ruas. Temos grandes eventos, que geralmente contam com a colaboração de abnegados colaboradores e entusiastas, mas não museus à altura dessa história.

Porém, num cantinho pouco conhecido do bairro do Canindé, um pequeno museu foca uma faceta bem restrita, mas não menos importante, desta história. Trata-se do Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla.

Gaetano Ferolla foi um ex-funcionário da antiga CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos) que, por seu entusiasmo pela companhia e pela história, juntou e recuperou peças da própria empresa e doadas por colecionadores e outras instituições.

O museu foi inaugurado em 1985 pelo então prefeito Mário Covas, ficando conhecido como “Museu da CMTC”. Em 1991, o museu passou a ostentar o nome de seu fundador, apenas um ano após sua morte.

O acervo conta com bondes, trólebus, ônibus e outros veículos usados no transporte de passageiros e controle e manutenção da malha de transporte.

Primeiro bonde de tração animal de São Paulo

O Brasil, assim como ocorrera com os selos e o telefone, foi o segundo país do mundo a usar o bonde, antes mesmo de países desenvolvidos, como a Inglaterra, a França e a Alemanha.

A primeira cidade a usar os bondes no Brasil foi o Rio de Janeiro, em 1859, seguida por São Paulo em 1872.

O primeiro bonde usado era de tração animal, tendo sido usado na cidade até 1904, substituído completamente pelo bonde elétrico, introduzido em 1900. 

O museu conta com um exemplar de cada tipo.


Primeiro bonde elétrico da cidade

O bonde elétrico (acima) era essencialmente uma evolução do bonde de tração animal, e sua configuração era bem semelhante, inclusive por ser aberto.

Uma das características mais curiosas do bonde elétrico aberto é a de ele possuir duas frentes. Ao fim da viagem, em vez do bonde manobrar para voltar, o motorneiro (nome dado ao condutor do bonde) apenas trocava de frente, e fazia todo caminho de volta “de ré”.

Para que os passageiros não fizessem uma viagem de frente e outra de costas, os bancos tinham encostos reversíveis.


Bancos reversíveis do bonde elétrico

Os bondes fechados apareceram em São Paulo em 1947 como primeira providência da CMTC, que acabara de assumir o transporte coletivo de São Paulo.

"Gilda" - bonde elétrico fechado

Foram importados 75 bondes do tipo Centex (com porta central), com bancos estofados em palhinha e com aquecimento para os dias de inverno. Ficaram popularmente conhecidos como “Gilda”, personagem de grande sucesso interpretada pela atriz americana Rita Hayworth (1918-1987), pelas suas linhas curvas e elegantes para o padrão da época.

Rita Rayworth no imortal  papel de "Gilda"

A CMTC operou os bondes abertos até 1966 e os fechados, até 1967. A última viagem de um bonde na cidade foi em 1968.

O acervo conta ainda com trólebus, introduzidos em 1949 com veículos importados dos Estados Unidos e Inglaterra. Numa parceria com Villares, a CMTC produziu os primeiros trólebus nacionais em 1958.

O primeiro trólebus nacional, de 1958

Em destaque está uma das 36 unidades de ônibus double-decker, de dois andares. Apelidado de “Fofão” (nome de um personagem de sucesso de um programa televisivo infantil), operou entre 1988 e 1990, sendo retirado por vários problemas operacionais, como a interferência de seu tamanho com a fiação elétrica e telefônica da cidade.

Este ônibus foi uma encomenda feita especialmente pelo então prefeito e ex-presidente Jânio Quadros, imitando os ônibus ingleses.

Ônibus Double-Decker - o "Fofão"

Sua cor vermelha, chamada de “vermelho londrino” causou muitos comentários do público e na imprensa. Na época, final do período da ditadura e de movimentos como as “Diretas-Já”, a população estava muito sensível ao mau uso do dinheiro público, e o prefeito, num ato polêmico, mandou repintar toda a frota de ônibus da CMTC para esta cor sem qualquer motivo razoável.

Nas salas ao lado há toda uma memória fotográfica em exposição, mostrando desde funcionários da época dos primeiros bondes a acidentes diversos e de variedades, como a do hoje desconhecido “Papa-Fila”, de carroceria semi-reboque longa puxada por um cavalo-mecânico FNM.

Propaganda do "Papa-Fila"
"Papa-Fila" em ação no Vale do Anhangabaú

A mostra não apenas foca o transporte público propriamente dito, mas tenta situá-lo no tempo, com propagandas, cédulas e moedas de diversas épocas.

Móveis, relógios, instrumentos, ferramentas e maquetes da administração e das oficinas da CMTC também fazem parte da mostra permanente.

Relógios de ponto
Nas paredes, vários quadros registram não só eventos, mas também pensamentos de Gaetano Ferolla.
Este, em especial, chama a atenção pela atualidade técnica:

Pensamento de Gaetano Ferolla, que contrasta com a atualidade dos carros elétricos e híbridos.

O Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla situa-se na Av. Cruzeiro do Sul, 780, Canindé, próximo à estação Armênia do metrô e ao Shopping D. Infelizmente não há um estacionamento no local, mas a entrada é gratuita.

O site oficial do museu faz parte do site da SPTrans.

Este museu é pequeno em tamanho, mas transpira todo o entusiasmo e paixão de seu fundador por aquilo que fazia. Vale realmente a pena visitá-lo.

AAD

32 comentários:

  1. "Este ônibus foi uma encomenda feita especialmente pelo então prefeito e futuro presidente Jânio Quadros, imitando os ônibus ingleses."
    R: Jânio não era futuro presidente na São Paulo dos anos 1980, mas ex-presidente. Vale lembrar que a cor vermelha na CMTC também já vinha sendo usada nos ônibus normais.

    Em tempos, vale lembrar que o "Fofão" (também conhecido por "Dose Dupla") abriu um precedente importante no transporte brasileiro ao ser o primeiro ônibus de dois andares fabricado no país. Se hoje vemos as rodovias sendo cada vez mais tomadas por ônibus rodoviários de dois andares, é porque aprenderam muito com esse urbano à inglesa.

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  2. Eu fui lá nos anos 80 quando tinha umas 10 anos.

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  3. Não sei que milagre acontece que não apareceu até hoje algum "jênio" querendo ressucitar esses papa-filas!
    Pela qualidade de nosso transporte público é até de estranhar isso!

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    1. Caro Gênio,

      Os atuais ônibus bi-articulados são a evolução dos antigos papa-filas

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  4. Eu andei de "fofão". Coisa horrível. Era apertado, nem levava tanta gente por causa da disposição da escada, era escuro, e tinha muito problema com assaltos no andar de cima, haja vista que o motorista e o cobrador ficavam em baixo.

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    1. A escada pra subir no andar superior era apertada e esquisita.

      Todo fim de ano tem uma exposição de caminhões e ônibus no Memorial da América Latina.
      Havia um Fofão na exposição retrasada, e subi no andar superior.
      Tudo isso que você menciona posso confirmar. Era um ônibus muito estranho.

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  5. O Museu do Bonde, em Santa Teresa, no Rio, também é interessante.
    Não sei se está aberto, pois os bondes estão fora de circulação.
    Atrás do museu funciona (ou funcionava) a oficina, que também vale uma visita. Não é aberta, mas quando fui me receberam. Pra quem gosta de mecânica, vale a pena.

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  6. Estive nesse museu há cerca de 5 anos, e realmente é bacana. Infelizmente é pouquíssimo frequentado, mas pelo menos pode-se ir num sábado de manhã tranquilamente, sem fila alguma ou atropelo. Como não tinha praticamente ninguém, o funcionário da entrada foi bem atencioso e me permitiu parar o carro num pequeno recuo na calçada, ao lado do museu, onde cabem dois carros.

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    1. Diógenes, hoje eu acho que uma boa atração em São Paulo que não tenha uma multidão é um passeio e tanto.
      Eu ando cada vez mais com uma quase fobia de multidões.

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    2. Também sou outro que cada vez mais foge dos aglomerados de gente. Nem mesmo no Salão do Automóvel de São Paulo me animo a ir...

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  7. O Brasil é muito grande, André. Antes de SP, funcionaram bondes em Belem, Maceió, Recife, Salvador, Niterói e Porto Alegre. Quase certamente haverá outra cidade com esse equipamento, anterior a 1872. A maioria era tracionada por mulas mas havia algumas com locomotivas a vapor. Para os interessados sugiro o sítio www.tramz.com. AGB

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    1. boa tarde

      enquanto isso, na cidade de Levi Gasparian, RJ divisa com MG, o museu do DER se deteriora.
      parabens pra quem preserva.

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    2. Há um quadro no próprio museu afirmando o que eu disse.

      Vou conferir essa informação. Obrigado.

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  8. É ISSO AÍ AAD, PAU NELES FASCISTAS QUE QUEREM ACABAR COM A NOSSA HISTÓRIA!!!

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  9. Lorenzo Frigerio06/02/12 15:50

    A explicação de Jânio para pintar os ônibus de vermelho era "para que a população veja no que é gasto o dinheiro do munícipe".

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  10. Ótimo post, taí um lugar que faz muito tempo que quero ir e sempre fico postergando... Preciso criar vergonha na cara e ir logo lá.

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  11. Po sempre passo na frente e fico doido pra entrar....

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  12. off topic

    cadê o post da Honda Integra?

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  13. Obrigado a todos pelas opiniões.

    Se muitos de vocês acham que "pisaram na bola" nunca indo lá, mesmo passando do lado, mais do que eu ninguém "pisou".

    Eu fui aluno da Escola Técnica Federal de São Paulo de 1979 a 1984. Essa escola (hoje um CEFET)fica ao lado desse museu.
    O museu só foi inaugurado em 1985, mas ele já estava sendo organizado naquela época, e a visitação já era possível.

    Em todos esses anos, só fui lá a primeira vez ano passado.
    As fotos que ilustram essa matéria tirei a poucas semanas, na minha segunda visita.

    Mas é um museu muito gostoso de visitar.
    Relendo a matéria acho que ainda não fiz justiça ao museu e a Gaetano Ferolla.

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  14. Helcio Valvano06/02/12 22:07

    Pois é, só dá valor a museu aquele que é humilde o suficiente p/ valorizar o passado, aprender com o ele, sabendo que o futuro só será melhor após absorvidas e compreendidas as lições e experiências vividas.
    A gente aprende ainda ... um dia ...

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    1. Perfeito seu comentário. Por desconhecer sua história, o Brasil continua a repetir os mesmos erros do passado, além de não aproveitar as boas lições que poderiam ser muito bem empregadas...

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  15. Dantas, além os bondes mais antigos e o exótico Double Decker tem ônibus mais normais da nossa cidade? Você sabe se após 1985 ele foi recebendo os ônibus que deixaram o serviço?

    Abraços

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    1. Por incrível que pareça, lá só tem um ônibus "convencional" a diesel, mas não tão convencional assim.

      É um ônibus Mercedes "executivo", usado em algumas linhas nobres com preço de passagem diferenciada (e bem mais cara).
      Esses ônibus circularam nos anos 80, mas nunca fizeram muito sucesso. Quem podia pagar preferia ir de carro e não tinha paciência de esperar o ônibus (demorado) no ponto, e quem poderia precisar dele não podia com o custo mensal dele.

      Lá não tem nenhum ônibus a diesel mais moderno, nem os à gás, nem os articulados ou bi-articulados que fazem parte da história mais recente.

      Está mais do que na hora de restaurar algumas unidades largadas no fundo das garagens de algumas companhias...

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    2. Poxa tinha que ter no mínimo um CAIO Vitória, um Alpha, um Marcopolo Torino Elétrico com aquele belo adesivo da cidade, com as fachadas dos prédios num fundo azul. Fora os Volvo articulado de motor central que tinham aquela faixa verde ao invés da vermelha. Esses são os ônibus do meu tempo. Por mais que seja legal ver os históricos, ver os que marcaram a infância e adolescência seria muito bom.

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  16. Parabéns pro sr. Gaetano Ferolla!
    Aqui em P.Alegre os bondes foram quase todos sucateados, parece que apenas um foi preservado pela Carris. Inclusive se falou algum tempo atrás em reativá-lo como linha turística aqui no centro.

    Próxima vez que for a S. Paulo quero conhecer esse museu, só conheci o Museu do Automóvel de SP, que ficava perto do Museu do Ipiranga. Ainda existe?

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  17. Antônio Martins07/02/12 02:19

    E a postagem sobre a Honda Integra?

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    1. Antônio Martins
      O que aconteceu foi que o Roberto Agresti, "marinheiro de primeira viagem" no AE, postou direto, sem que eu visse, e sempre é necessário eu revisar os textos, checar a formatação, estilo e outros detalhes, inclusive o meu texto introdutório por ser o primeiro post dele, que entra às 12h00. Desculpe-me por essa e os leitores também.

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  18. Não conhecia esse museu, taí mais um lugar para passear em São Paulo.

    E esse museu serve para mostrar como o Brasil se perdeu ao longo do tempo. Na época do Segundo Reinado (D. Pedro II), era comum o Brasil ter o mais avançado em tecnologia. Até o início do século passado ainda havia uma preocupação em manter o país atualizado com o que havia de mais recente em tecnologia. Hoje, dá dó de ver onde chegamos...

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  19. É muito fácil chegar lá!
    Peguem o metrô, desçam na estação Armênia, mas saiam pelo acesso que fica na extremidade da plataforma, sentido Tucuruvi.
    Daí basta andar seguindo o sentido dos carros até a Av. Cruzeiro do Sul e atravessá-la.

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  20. Ótimo programa pra quem tem filhos pequenos, meu pai me levou lá quando eu tinha uns 4 anos.

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  21. André:

    Há quesão de uns dois anos , para minha tristeza , em visita a um ferro velho vi um dos trólebus recentes, dos anos 80 sendo desmontado a maçarico. Alám do motor de 300 cv, com muito cobre, ele era inteirinho em aço inox, chassis incluido. O dono do ferro velho etava muito contente com a aquisição e a perspectiva dos lucros que ia ter vendendo os materiais...
    Deveria haver um exemplar deles no museu, também.
    AAM

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  22. O MP quer que seja desocupado o espaço, onde contem a historia de São Paulo, para certamente ficar abondonado o local, para servir de abrigo a desocupados, marginais e viciados em crak. O orgão do Governo, não precisa desse espaço, que deixe a historia ficar.
    Beatricce Rossi Bov o
    Campinas.

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