18 de junho de 2012

A VITÓRIA DA AUDI EM LE MANS E UM MARCO TECNOLÓGICO



Oitenta edições da corrida mais desafiadora e tradicional do mundo do automobilismo. Vinte e quatro horas sem interrupção de trabalho árduo de centenas de pessoas, talvez milhares, para que às 15h00 do domingo um carro seja coroado o vencedor de Le Mans.

Das oitenta edições, a Audi ganhou onze das últimas treze, que na verdade poderia ser considerado doze pois uma delas em que um Bentley venceu, era praticamente a equipe da Audi (a Bentley pertence à Volkswagen desde 1998). Isso sim, podemos chamar de domínio.

Este ano a grande novidade foram os modelo híbridos, tanto os Audi e-tron R18 quattro quanto os Toyota TS030. A diferença entre eles está no conceito do sistema, pois o Audi utiliza o motor turbodiesel com tração elétrica dianteira, enquanto que o TS030 correu com motor a gasolina de aspiração natural e tração elétrica complementar na traseira. Na qualificação os Audi já começaram a escrever a nova página do livro de Le Mans, quando foram os primeiros a conseguir a pole com um carro híbrido, e agora terminaram a obra com uma incontestável vitória.

Primeiro, segundo, terceiro e quinto. Estas foram as posições finais dos Audi na classificação final da corrida, sendo os dois primeiros conquistados pelos modelos e-tron. O quarto lugar ficou com o protótipo da mesma categoria LMP1, o Lola-Toyota da equipe Rebellion, com Nick Heidfield sendo um dos pilotos. O Audi vencedor foi o carro número 1 do trio Lotterer/Tréluyer/Fässler – o pole position –, seguido pelo carro número 2 dos veteranos Capello/Kristensen/McNish.

Desde o começo da prova, os Audi se destacavam, mas os Toyotas estavam mostrando grande potencial para que não fosse nada fácil a vida dos carros germânicos. A velocidade máxima dos japoneses era ligeiramente superior aos Audi (330 km/h contra 327 km/h), mas a qualidade dinâmica dos R18 era superior. A melhor volta do R18 foi de 3:24.276s, enquanto que do Toyota foi de 3:27,088s.

A disciplina da equipe Audi os manteve na liderança sem grandes sustos, apenas o acidente do carro 3, o modelo R18 Ultra diesel, ao tentar passar um Porsche 911, o piloto Romain Dumas perdeu o controle do carro e bateu de frente na barreira de pneus, danificando consideravelmente o carro. Após grande esforço, o piloto conseguiu levar o carro de volta à garagem para reparos e continuar na prova, para terminar em quinto.



Os Toyota não tiveram a mesma sorte, o tão comemorado retorno a Le Mans não chegou à metade da corrida. O primeiro carro foi destruído em um acidente envolvendo o piloto Anthony Davidson e o Ferrari 458 Italia que estava sendo ultrapassado, muito similar com o que ocorreu ano passado com um Audi. Ao tentar passar o 458, este não viu o carro mais rápido e fechou a passagem, os carros se tocaram e o Toyota levantou voo após derrapar (e perder sucção inferior), destruindo o carro ao bater na barreira de proteção. O Ferrari também ficou destruído.



O segundo Toyota abandonou logo depois. No momento do acidente do primeiro carro, o segundo TS030 havia conquistado a primeira colocação. Na relargada após o acidente, um toque furou o pneu do Toyota, que desencadeou diversos problemas, até que uma falha no motor forçou o abandono definitivo.

De qualquer forma, foi um grande mérito para a equipe que logo no seu primeiro ano após uma longa pausa na sua participação em Le Mans, conseguiu combater cara a cara os poderosos Audi. Estes foram os únicos carros equipados com motor a gasolina que se mostraram competitivos (contando, claro, com a ajuda do sistema híbrido) frente ao reinado dos motores Diesel. A Toyota está de parabéns por esse feito, e podemos apostar que caso o programa continue, para o ano seguinte. eles voltarão ainda mais fortes.

HPD-Honda, vencedor da categoria P2
Na categoria LMP2, vitória do HPD-Honda da equipe Starworks, que superou o Morgan que estava indo muito bem desde o começo da prova. Cada vez mais o número de carros de bom desempenho na categoria mostra que o alto custo da LMP1 direciona equipes de ponta para a LMP2. Vale lembrar dos anos em que a LMP2 era praticamente dominada pela Porsche.
Ferrari 458 Italia da AF Corse, vencedor da GTE-Pro

Na categoria dos carros GTE-Pro (equivalente à antiga GT1), deu Ferrari na frente, com a vitória da equipe AF Corse. O brasileiro Jaime Melo bateu na trave e ficou em segundo lugar com seu 458 Italia. Os Corvette que estavam bem posicionados tiveram problemas. O bom desempenho do Aston Martin V-8 também foi notável, conquistando o terceiro lugar na categoria. Já na GTE-Am, a categoria equivalente à antiga GT2, o Corvette do português Pedro Lamy manteve o ritmo desde o começo da prova e venceu os 911, sempre grandes concorrentes à vitória.
Corvette ZR1 da categoria GTE-Am
A grande decepção mesmo foi o Nissan DeltaWing, que não completou a prova. Alguns problemas mantiveram o carro nos boxes por diversas oportunidades. Seu ritmo de corrida era bom, tinha velocidade para ser competitivo com os carros da LMP2, mas um toque com o Toyota ao ser ultrapassado acabou com o sonho da equipe.



O impacto com o muro danificou o carro de tal forma que foi impossível seguir para os boxes para reparos, pois da roda traseira direita ficou travada. Ao verem as imagens do acidente, os mecânicos da equipe foram até o local onde o carro ficou parado, já fora da pista, para dar o suporte possível ao piloto Motoyama, que bravamente tentou consertar o carro para voltar aos boxes. Como a equipe não pode tocar no carro por não ser área de box, apenas o piloto pode trabalhar nele, seguindo as instruções recebidas. Depois de muitas tentativas de colocar o carro de volta na pista, Motoyama foi consolado pela equipe e desistiu dos reparos.

Este feito do piloto japonês mostra o grau de comprometimento do projeto e de todos os envolvidos. A seriedade e o entusiasmo de toda a equipe era evidente na expressão dos pilotos, mecânicos, engenheiros e dirigentes. O esforço notório do piloto japonês com certeza ficará marcado na equipe, pois ele não teve culpa alguma no acidente e fez o possível para recuperar o carro. Como foi dito anteriormente pelo representante da Nissan, "ano passado a Audi tinha três balas na arma, nós temos apenas uma, é um risco".


O que fica da experiência é que o design, por mais estranho que pareça, mostrou-se eficiente. As dúvidas sobre a dirigibilidade do carro foram apagadas com o ótimo tempo da classificação, mas infelizmente durante a corrida os diversos problemas não deram chance ao conceito de alta eficiência e poucas paradas nos boxes. Esperamos que a equipe continue trabalhando em cima do carro e que retorne no próximo ano para tentar novamente.

A classificação final da corrida pode ser vista aqui, direto do site oficial da prova.

A corrida foi muito interessante, mesmo o domínio absoluto da Audi não tira a graça da corrida. Já ouvi alguns comentários, na própria mídia inclusive, de que "Le Mans ficou chato" e "perdeu a graça". Eu discordo disso, pois nos últimos anos a Audi venceu mas sempre teve adversários à altura, salvo alguns casos. A Peugeot sempre foi um forte concorrente, a Toyota deste ano mostrou-se altamente competitiva, chegando a liderar a corrida. Lembramos que nos anos 80 a Porsche dominava a prova, com nada menos que sete vitórias seguidas, e nem por isso Le Mans ficou "chato".

O Audi é o carro a ser batido, isso é fato. Mas vejo isso como um desafio, não um problema. A Audi é a equipe mais estruturada e está se mostrando mais competente de maneira geral, mesmo em situações com carros inferiores, como no ano passado em que os  Peugeot 908 HDI eram claramente superiores. 

Os Toyotas vieram este ano para tentar vencer os Audi, a Porsche já anunciou seu retorno oficial à categoria principal em 2014, a Aston Martin tentou também. Isso mostra que é de interesse de todos competir contra os Audi, pois quem conseguir vencer terá um mérito extra, por não apenas terá vencido a 24 Horas de Le Mans, mas também ter derrotado a Audi, que pode até ser usado pelo marketing dos fabricantes.
As novas tecnologias não estragaram a corrida, afinal Le Mans sempre foi um grande laboratório de novidades. O próprio DeltaWing é a prova disso, pois não há outro lugar onde um projeto tão radical e fora dos padrões de regulamento atuais poderia participar de uma prova destas proporções. Le Mans sempre viveu da inovação, dos tempos dos carros GT que receberam os primeiros recursos de suporte aerodinâmico, passando pelo potentes motores turboalimentados, depois os motores Diesel e, agora, chegando à tecnologia híbrida. 

Acho que para estas evoluções esta corrida é o lugar ideal, onde as novidades estão amarradas fortemente ao significado da prova, é parte do espírito de Le Mans.

Vamos aguardar a 81ª edição no ano que vem e ver se às 15:00h do domingo a "Cavalgada das Valquírias" tocará novamente para os germânicos ou se alguém conseguirá desafiar e vencer os já lendários carros da marca dos quatro anéis de Ingolstadt.

Os vencedores, triunfo completo da Audi




MB

16 comentários:

  1. que diferença dos dias de hoje, unica coisa que fica foi le mans 1955 em que 95 pessoas e varias outras muliladas pelo carro de Pierre Levegh, inclusive uma serie de acontecimentos posteriores, Mike Hawthorn com seu jaguar fecha Mike Hawthorn que não pode evitar o salto de Pierre Levegh sobre a multidão, ainda bem que hoje os carros e o proprio circuito seja bem mais seguro que antes.

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    1. Uma curiosidade que a maioria dos AE deve saber mas vale lembrar que até hoje as corridas são proibidas na Suiça por causa desse acidente em Le Mans.

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    2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. foram 85 pessoas mortas e uma centena mutiladas, veja o video da bbc anos de sangue na f1, é um milagre que le mans ainda funcione.

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    1. Todas as categorias do automobilismo mataram e mutilaram, sobretudo em seus primeiros anos (ou décadas). Ainda hj acontecem acidentes fatais ou quase, mas isso é automobilismo profissional, faz parte e todo mundo ali tá ciente dos riscos e sendo (geralmente bem) pagos para corrê-los. Sua crítica não tem cabimento.

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  3. Rafael Pinto18/06/12 19:01

    Queria ver se na F1 algum "piloto" conseguiria (ou saberia) arrumar o carro.
    Pena que não deu certo.

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  4. Le Mans também é humor. Assim que uma Ferrari teve problemas de freio que levaram a um incêndio, já começaram as piadinhas a respeito da "Churrascaria Maranello", da mesma forma que quando a 458 tirou o Toyota da prova já falaram que a nova especialidade da marca é acabar com a corrida de carros LMP1.

    Quanto ao DeltaWing, o que tem de comentários na net de gente querendo a cabeça do Nakajima não é brincadeira, chega a assustar.

    Em relação ao Motoyama, parabéns pelo seu esforço e dedicação. A imagem dele tentando consertar o carro já está registrada como um dos grandes momentos do automobilismo, por mais triste que seja.

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  5. Le mans e isso mesmo afinal sempre havera um vencedor !

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  6. Ano que vem teremos um Delta Wing melhor e mais híbridos esportivos no mercado.

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  7. Acompanhei online uma parte da corrida. A superioridade da Audi é impressionante. O melhor era a câmera onboard à noite... pilotar a mais de 300 km/h e ainda ter que ultrapassar vários retardatários!

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  8. É ISSO AÍ, MB! PAU NAQUELES QUE TÊM MEDO DAS QUATRO ARGOLAS!

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  9. Uma dúvida: Como os motores desses carros não fervem, nas paradas de boxe?

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    1. Em paradas para reabastecimento e troca de piloto, o carro é desligado durante o procedimento.
      Em alguns casos, colocam ventiladores nos radiadores para ajudar a refrigeração.
      abs,

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  10. Sobre os tempos de domínio da Porsche na LMP2 há de se dizer que nunca enfrentaram seus grandes adversários, a Acura que gerou os até hoje ótimos ARX-0Xx.
    Acompanho a prova desde 2007, sempre torcendo contra a Audi, mas devo dizer que os senhores dos anéis dão show, por diversas vezes tiveram o carro inferior aos Pugs e sempre levaram. Agora é esperar pelas 6 horas de São Paulo para ver os foguetes ao vivo.
    Quanto ao Delta Wing, mesmo não gostando do projeto devo dizer que o esforço do Motoyama foi muito bonito, bem como o desespero do Romain Dumas para colocar o Ultra #3 na disputa após o erro.

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  11. Belli,
    excelente resenha da prova, muito bom, parabéns.
    Covardia a Audi, pura covardia. Será que vamos ver isso mudar só daqui a 2 anos ?

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  12. Emocionante a imagem do Motoyama se esforçando para pôr o DeltaWing para rodar novamente. Uma pena que não conseguiu. Mas os aplausos que recebeu ao final, compensou todo o esforço.

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