11 de janeiro de 2013

ASTON MARTIN FAZ 100 ANOS: IT’S NOT ABOUT THE MONEY

Foto: Aston Martin

“Não estamos aqui para fabricar automóveis. Nós trabalhamos aqui para fazer dinheiro fabricando automóveis.”

A frase acima é atribuída a Alfred P. Sloan, Jr, executivo supremo da General Motors entre 1923 e 1956. Sloan é a pessoa que tornou a GM a maior empresa do mundo, e criador de um método de negócio para a indústria que foi copiado por absolutamente todo o mundo. A obsolescência programada liderada por departamentos de estilo, o ano-modelo, a compra financiada, o desenvolvimento contínuo de novos modelos, tudo foi criado por ele, e hoje é universal e básico.

Esta frase na verdade é praticamente um resumo da missão da vida desse genial empresário. Sloan transformou, aplicando métodos de gestão empresarial, uma indústria ainda liderada por amadores, por provincianos inventores de fundo de quintal feito Henry Ford, em negócios de verdade. Com uma gestão lógica, pragmática e científica, Sloan tornou sua General Motors em uma empresa realmente profissional, liderada por gerentes profissionais, e focada no objetivo máximo de qualquer empresa: o lucro.

Alfred P. Sloan, Jr (foto: General Motors)

Nada de errado nisso, lógico. Algumas pessoas hoje até podem ter dificuldade de acreditar que era diferente antes, que a frase de Sloan é óbvia e sem impacto algum, noção esta imprimida em seus cérebros por uma sociedade moderna onde absolutamente tudo é negócio, e a lógica de que o lucro é o mais importante sempre é corrente até em lugares como hospitais e escolas, incrivelmente. Mas na indústria automobilística do início do século XX, era realmente uma noção nova.

É só olhar como operava a Ford Motor Company, eterna nemesis da GM, e a líder mundial até meados dos anos 20, quando Sloan e a sua GM a destronaram. Henry Ford, o fundador, era um homem de produto e produção apenas, e a empresa sobreviveu apenas porque os carros que ele criava eram sempre perfeitos para seu público, e produzidos a custos baixíssimos por seus inovadores métodos de produção em massa. A administração da empresa era um caos inimaginável, até que, depois da morte do patriarca, seu neto Henry Ford II trouxe um batalhão de administradores de Harvard para colocar um fim à bagunça. O velho Ford não confiava em ninguém com diploma superior, e portanto até ali eram raríssimos na empresa...

Não há dúvida que uma empresa tem que se focar no objetivo de ganhar dinheiro. Mas vou me arriscar um pouco divagando um pouco mais nesse assunto, por considerá-lo importantíssimo nos nossos dias de hoje. Mas ao invés de elaborar opiniões demais, prefiro contar uma história. A história de uma empresa que faz 100 anos neste novo ano de 2013, e que acredito ser suficiente para ilustrar que nem sempre é necessário o lucro para que algo importante aconteça. Vou falar da Aston Martin.

A primeira coisa que é bom esclarecer logo de cara é que o aniversário de 100 anos que se comemora agora em 2013 é de 100 anos da empresa que viria a produzir carros com a marca Aston Martin. Na verdade, não existe um carro Aston Martin de 1913, nem muito menos de 1914.

Esta empresa era a Bamford & Martin, criada em Londres para revender veículos Singer, GWK e Calthorpe. Lionel Martin, um dos fundadores, era um jovem bem nascido de uma família cuja fortuna vinha da mineração de argila para a indústria de porcelana inglesa. Era muito bem relacionado com a sociedade da época, e era habitué do circuito de Brooklands, onde se reunia a parcela dessa alta sociedade mais ligada aos automóveis. Martin era também ávido piloto amador, e suas peripécias no seu pequeno Singer Special (um Singer Ten de 1,1 litro modificado para competição) ficaram famosas nesse influente meio.

Lionel Martin, fundador

Quando ganhou a prova de subida de montanha de Aston Clinton em 1913, Lionel Martin resolve que faria um novo special de competição, e o chamaria de Aston Martin. Sua intenção era também reproduzi-lo sob encomenda caso um de seus amigos assim desejasse, criando assim sua própria marca de automóveis. O trabalho logo começou neste que seria o primeiro Aston Martin, usando o chassi de uma voiturette Isotta-Fraschini de 1908 como base. Mas em 1914 começa a Primeira Guerra Mundial, e tanto Robert Bamford quanto Lionel Martin se alistam; a empresa cessa atividades provisoriamente.

Depois da guerra, Martin ainda retém o entusiasmo para fazer um carro de competição/esporte de baixa cilindrada, coisa que conhecia bem e tinha ideias que precisavam se realizar em metal. Mas já sentia por suas experiências anteriores que criar um carro do zero era algo que custaria uma pequena fortuna, algo que mesmo ele teria dificuldade em bancar sozinho, até que a produção começasse e algum dinheiro começasse a entrar.

Entra na nossa história então uma famosa personalidade automobilística da época: o Conde Louis Zborowski.  Em 1911, aos 16 anos, o jovem Conde herdou uma das maiores fortunas do mundo, tornando-o imediatamente o mais cobiçado solteiro de Londres. Nunca precisou trabalhar, mas dedicou sua vida a sua maior paixão: os automóveis. Era famosíssimo em Brooklands, especialmente por sua série de carros com motor de avião chamados de Chitti-Chitti-Bang-Bang, nome imortalizado depois por um livro para crianças de Ian Fleming, o posterior criador de James Bond. Fleming era uma criança quando visitou Brooklands pela primeira vez, e nunca esqueceu do enorme, barulhento e incrivelmente veloz leviatã dirigido por um misterioso conde de nome exótico.

Louis Zborowski e o Chitti-Chitti-Bang-Bang número 1, em Brooklands. O motor era um Maybach aeronáutico de seis cilindros em linha e 23 litros. (foto:wikipedia)

Em 1920 então, Robert Bamford deixa a empresa e em seu lugar vem Zborowski. Este por sua vez tem sonhos grandes para a sua nova fábrica, já famosa localmente apenas pelo carisma de Lionel Martin e suas vitórias. Pensando que uma importante vitória internacional podia rapidamente colocar os Aston Martin no mapa, e cansado de comer a poeira dos Bugattis, o conde pede a seu braço direito (e o engenheiro dos Chiti-Chitti-Bang-Bang), o Capitão Clive Gallop, para ir até a França e conseguir um daqueles novos cabeçotes de duplo comando e 16 válvulas criados pela Peugeot em 1912, para usar nos Aston. Gallop tinha trabalhado na Peugeot, e conhecia Marcel Gremillion, então chefe do departamento de competições da empresa.

O motor Peugeot DOHC, o primeiro do mundo. (foto: velocetoday)

Diz a lenda que Gremillon, velho amigo de Gallop, ao saber de suas intenções, coloca de bate pronto sua régua T em cima do desenho do motor Peugeot de competição, alinha ela bem na divisão cabeçote/bloco, e rrrrriiiiiiiiiiipppppppp! Virando-se para o amigo com a parte de cima do desenho rasgada, diz: Pronto Capitão, aqui está, meu presente para o Sr. Divirta-se! O Capitão Gallop então volta para a Inglaterra, acerta a escala do desenho Peugeot para o motor Aston, e assim nasce o mais raro e exótico dos Aston do pré-guerra. Apenas quatro carros de competição são feitos. Com o exótico motor e a ligação com o ainda mais exótico Zborowski, a fama da marca só aumenta, mesmo que pouquíssimos carros fossem vendidos.

Mas companhia consegue finalmente, também, produzir e vender alguns carros nesta época, todos pequenos carros esporte de 1,5 litro e válvulas laterais, que eram comprados basicamente para serem usados em competição. Coisa de 55 carros Aston Martin são entregues até o ano de 1924. Ao mesmo tempo, o conde Zborowski vê sua carreira de piloto progredir sobremaneira, culminando com um convite para participar da equipe oficial da Mercedes-Benz. Mas infelizmente um acidente com um Mercedes mataria Zborowski ainda neste ano. Tinha apenas 29 anos.

Aston Martin twincam de 1922 (motorbase)

Lionel Martin resolve então que não podia manter a Bamford & Martin funcionando, pois sempre fora seriamente deficitária, e sem o conde para bancar, ele veria rapidamente sua fortuna se esvair. A companhia pede falência ao final de 1924. Martin vai cuidar dos negócios de mineração da família, e se despede da marca que fundara.

Entra em cena então um certo John Benson. Este jovem entusiasta da marca (corria com um modelo 1923) convence a sua mãe, Lady Charnwood, a comprar a pequena empresa, e colocá-lo como presidente. Mas a empresa ainda patina e fecha as portas de novo em 1925.

Ao mesmo tempo, o engenheiro italiano Augusto Cesare Bertelli e seu sócio Bill Renwick terminam o projeto de seu motor de quatro cilindros em linha com comando de válvulas no cabeçote e 1,5 litro. Os dois pretendem criar um carro esporte para usá-lo, mas ao saber que a Aston Martin está à venda, pensam que um nome conhecido ajudaria muito a empreitada. Logo, os dois se tornam sócios de Lady Charnwood. A empresa é renomeada Aston Martin Motors ltd, e logo começa uma fase importante da história da companhia, liderada pelo engenheiro Bertelli e marcada por carros esporte inesquecíveis, ainda em baixas cilindradas que se firmavam como tradição na empresa. Até 1937, Bertelli projetou uma série de carros fantásticos como o International e o Ulster, de grande sucesso de crítica e em competições. Mas os caros e pequenos Aston continuavam coisa para poucos: apenas 700 carros foram fabricados nessa fase, que acaba com a Segunda Guerra Mundial em 1939.

Aston Martin Ulster (encarsglobe)

Com tão pouca coisa vendida, a situação financeira da empresa continuava ruim, portanto. Mais dois donos ajudaram a manter a chama acesa nesse período, L. Prideaux Brune e Sir Arthur Sutherland, cada um deles cumprindo a sina de gastar um bocado de dinheiro na esperança de levantar a empresa financeiramente, seguido de uma falência ou venda quando ficava claro que a situação não melhoraria.

Aston Martin International (grancanyon.free.fr)

Depois da guerra, em 1947, a empresa é comprada por mais um entusiasmado milionário, e certamente o mais famoso e influente de todos eles: Sir David Brown, também ele ávido entusiasta do automóveis e fã da marca, além de herdeiro de um império industrial (principalmente engrenagens) fundado por seu avô homônimo em 1860. 

Sir David Brown em 1959, com Carroll Shelby comemorandoa vitória em Le Mans. (foto: Car and Driver)

Sir David arquiva os projetos sem futuro que andavam na empresa, e começa a criar um GT no idioma dos Bentley do pré-guerra, algo que um jovem gentleman inglês pudesse dirigir, e não ser conduzido por Jarbas no Rolls de milady. Para tal, traz para a Aston Martin, por meio da compra da Lagonda, o criador dos Bentley: WO Bentley himself. O famoso engenheiro tinha acabado de criar um seis em linha DOHC de 2,6 litros para a Lagonda, que foi prontamente instalado debaixo do capô de um novo tipo de Aston Martin, e o primeiro de uma série de carros cuja alma perdura até os dias de hoje: o Aston Martin DB2. A sigla DB, é claro, são as iniciais do novo dono da empresa.

A série DB é um novo tipo de Aston Martin; os fãs da marca no pré-guerra foram abandonados, e os novos carros, caros e luxuosos GTs de alto desempenho e cilindrada, nada tinham de comum com os nervosos e intensos carros esporte de baixa cilindrada de Bertelli. Apenas o nome famoso permanecia.

Aston Martin DB2, 1950 (netcarshow.com)

Mas de qualquer forma, a nova linhagem se mostrou um sucesso. Carros velozes, mas de qualidade e sofisticação. Vendidos a preços altíssimos para senhores distintos, que apesar de gostar de dirigir rápido, não toleravam o desconforto inerente dos carros esperte puros. Um tipo de carro que ainda tem seu lugar hoje.

Ao DB2 seguiram-se carros de competição de grande sucesso. Um novo seis em linha DOHC de maior cilindrada é criado em 1959 para o novo DB4 pelo engenheiro Tadek Marek. No mesmo ano, a fama e o prestígio da empresa aumentam sobremaneira com a vitória em Le Mans, com Carroll Shelby . O DB4 GT aparece, e depois dele o DB5 e o DB6. No cinema, um jovem Sean Connery encarna pela primeira vez o agente 007 de Ian Fleming (que nos livros dirigia Bentleys), a bordo de um magnífico DB5, exatamente como imaginou David Brown.

Aston Martin DB4 GT, 1959 (netcarshow.com)
Sem dúvida alguma essa é a fase que define de vez o que é um Aston Martin, e a de maior sucesso. Mas apesar de abandonar praticamente todas as tradições do pré-guerra, a Aston de David Brown manteve pelo menos uma: os sérios problemas financeiros.

Meio a contragosto, e forçado pela idade (e dizem certa incompetência de seus herdeiros nas empresas principais de seu conglomerado), Sir David acaba tendo que se livrar do fardo financeiro que a Aston Martin significava, no ano de 1972. A venda serviu apenas para livrá-lo da pesada dívida da Aston (cinco milhões de libras esterlinas); recebeu apenas simbólicas cem libras pela empresa que o tornou famoso.

Grande parte dessa dívida era devido ao desenvolvimento de um novo carro, o DBS V-8, com o magnífico V-8 DOHC cuja história já contamos aqui. Lançado bem a tempo de enfrentar um aumento mundial do preço do petróleo, e uma crise financeira, as vendas foram pífias. O novo dono (W.Williamson, por meio de sua Company Developments inc.), que pagou a dívida para começar tudo do zero, não teve tempo para comemorar. A hemorragia de dinheiro não parou, e no final de 1974, a empresa vai a falência. Novamente.

Aston Martin DBS, 1967 (netcarshow.com)

Mas, como vocês já sabem, não foi o fim. Um consórcio de três ricos entusiastas da marca, Peter J. Sprague (National Semiconductor, EUA), George Minden (o importador da marca para o Canadá), e Jeremy Turner de Londres (operador de jatos executivos) compra a empresa e a mantém funcionando.  Aparece o V-8 Vantage, que em 1977 era o mais veloz carro do mundo, na frente até de Lamborghinis e Ferraris, e as vendas começam a melhorar um pouco.

Mas novamente, apesar de universalmente idolatrada, a marca continua a perder dinheiro. O salvador seguinte é Malcolm Victor Gauntlett, um ex-executivo da BP que fez fortuna na distribuição de produtos petrolíferos com sua Pace petroleum. Gauntlett se torna presidente da Aston Martin em 1981, e sob sua administração consegue colocar as finanças em ordem, e aumentar ainda mais a fama de seus potentes Aston V-8, principalmente por ficar em bons termos com a influente imprensa especializada de seu país. Em 1983 vende a Pace para a Kuwait Petroleum, e se dedica somente a deixar sua Aston Martin criar magníficos GT’s feitos à mão, pacientemente um a um, em um barracão perdido no interior da Inglaterra. Como sempre foi.

Victor Gauntlett  (a400mod.com)

Sua contribuição para a empresa foi tão marcante que mesmo quando inevitavelmente seu dinheiro começou a acabar e ele teve que vender a Aston Martin, o novo dono (o armador grego Peter Livanos) pediu que ele permanecesse no comando. Coisa que Gauntlett fez com enorme prazer, pois passou a receber um salário por isso, segundo ele a primeira vez que a empresa lhe dava alguma coisa ao invés de tirar...

Em 1987, Livanos também chegava a seu limite de gasto, e resolve vender a empresa. Gauntlett então, por meio de seu amigo Walter Hayes, negocia a compra da empresa por outro entusiasta da marca. Foi um dos últimos grandes feitos empresariais deste grande e controverso homem, que viria a falecer naquele mesmo ano: Henry Ford II (veja aqui). Depois de mais de 70 anos na corda bamba, parecia que a Aston Martin teria finalmente a estabilidade e a administração profissional que merecia, sendo agora parte da gigantesca Ford Motor Company.

Como não poderia deixar de ser, a Ford mudou tudo. Como David Brown havia feito antes, a empresa morreu e renasceu diferente. Foram-se os métodos artesanais e a produção baixíssima. Foi-se o barracão com velhinhos fazendo tudo a mão, entrou uma fábrica moderna. Acabaram-se carros projetados com calma e liberdade por times minúsculos de 2 ou 3 engenheiros sem prazo para terminar, e entraram os projetos controlados a minúcia em tempo, custo e objetivos por um batalhão de engenheiros especializados em pequenas partes do carro. Saiu o homem e a alma e entrou a máquina e o processo científico implacável. A Aston Martin morreu em alma pela segunda vez, para renascer como Fênix, novamente.

Aston Martin V-8 Vantage, 1983 (netcarshow.com)

Mas os carros continuaram parecidos em especificação e missão; reviver a série DB com o DB7 de 1993 é o exemplo mais claro disso. O desenho deste primeiro Aston da Ford é repetido à exaustão até hoje, a ponto de apesar de ser belíssimo, já causar um pouco de cansaço e confusão. Eu confesso que já não sei mais diferenciar um Aston moderno de outro sem olhar com cuidado... Mas são carros magníficos, todos eles, especialmente quando equipados com o magnífico V-12 de seis litros desenvolvido pela Ford a partir de dois V-6 de Mondeo.

Ainda tão atual que poderia ser o novo Aston Martin DB10, mas na realidade é o DB7 de 1993, primeiro carro da nova Aston Martin sob o controle da Ford. (netcarshow.com)

Mas, mesmo assim, mesmo com os métodos e a experiência da Ford nisso, parece que ganhar dinheiro continuou sendo um sonho dourado para a marca. Em 2007, depois de vinte anos tentando obter algum lucro da empresa, e enfrentando dificuldades financeiras sérias na matriz, mais uma vez a Aston Martin é vendida. Parece que nem a Ford consegue gastar dinheiro para sempre.

Recentemente recebi notícias que a Aston mudou de dono novamente (parece que agora os donos são italianos), as vésperas de completar 100 anos. Não preciso dizer que não me surpreendi nem um pouco com isso...

Aston Martin Vanquish, 2012 (netcarshow.com)

Obviamente todo mundo percebeu um padrão aqui. A Aston Martin, apesar de centenária e famosa, nunca fez dinheiro.  Se não fosse a benevolência de uma série de donos entusiasmados, que se repetem desde o seu criador, teria morrido muito tempo atrás. Certamente não existe sob a máxima de Sloan que mencionamos lá no início desse longo texto. Mas nem por isso é menos importante que uma GM na história do automóvel, só é diferente. Sim, você tem que gastar uma fortuna para ter uma das maravilhosas criações da casa de Martin em sua garagem, mas pode se consolar, ou mesmo justificar a sua compra, lembrando que ele custou mais do que você pagou para ser feito! Na verdade, se todos os incontáveis donos que a empresa teve em sua história pagassem 100 dólares para todo potencial comprador desistir da compra, garanto que menos dinheiro teria sido gasto nela! Mas aí não existiriam todos esses maravilhosos carros aí pelo mundo a nos alegrar...

E maravilhosos todos eles são; dos pequenos mas sofisticados International ou Ulster do pré-guerra, passando pela maravilhosa série DB original de Sir David, pelos potentes V-8 da era de Victor Gauntlett, e até as atuais criações da Ford e seus descendentes, pouca coisa é tão maravilhosa quanto um Aston Martin no mundo do automóvel. E não tenha medo se ouvir sobre problemas financeiros na empresa, e mesmo um novo dono para ela; é apenas a continuação de sua mais constante tradição: a de sempre perder dinheiro, e mesmo assim achar alguém que pague as contas e comece de novo. A Aston Martin não pode, e não vai morrer.

E esse é um dos motivos trazem uma opinião clara para mim: que os melhores carros são criados não por pessoas que trabalham para fazer dinheiro, e sim pelas pessoas que querem fazer grandes carros, e se puderem ganhar algum fazendo isso, tanto melhor.  Se não paciência, o importante é a criação. E isso não vale apenas para carros, mas também para qualquer outra coisa, do sanduíche ao computador pessoal. Quando você cria algo para o mundo e não para você, o mundo lhe sorri de volta.

É mais ou menos o que diz uma música nova que ouvi outro dia no rádio, e que me deixou feliz pacas, porque apesar de leve e despretensiosa, fala algo muito importante. Afinal de contas, quem quer apenas ganhar dinheiro, que procure emprego em um banco, bolsa, que vá trabalhar e dedicar a vida ao dinheiro. Deixem os carros para quem gosta, se interessa, e mais importante, se importa com eles.

A música começa assim:

Seems like everybody's got a price
I wonder how they sleep at night…
When the sale comes first and the truth comes second
Just stop for a minute and smile


(astonmartin.com)
MAO










26 comentários:

  1. Não sabia que o V12 era basicamente 2 V6 do mondeo juntos hehe.
    Então posso dizer que ja tive um carro equipado com meio motor do Aston Martin!

    ResponderExcluir
  2. delícia de texto, MAO. obrigado.

    concordo contigo sobre o desenho atual dos Astons, acho que a marca precisa de um outro visual para servir de base para os futuros modelos. só espero que não chamem o Chris Bangle para isso...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem chamem o Carlos Barba da GM do Brasil, pai de algumas "lindezas" como Agile, Spin, Montana, entre outros.

      Excluir
    2. O Onix é o mais feio, o Agile é bonito.

      Excluir
  3. Victor Gomes11/01/13 12:41

    Mais uma leitura extremamente prazerosa!

    É de se espantar o quanto que tem gente por aí que gasta rios de dinheiro com suas paixões.
    E parece que construir carros caros não trás lucro algum. Creio que a história da Lamborghini seja parecida.

    E com tantas falências no currículo da Aston, fico me pergutando: Como os donos fazem para conseguir peças de reposição?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Victor,
      há uma oficina de manutenção e restauração na própria fábrica.
      Veja o site: http://www.astonmartin.com/en/aston-martin-works/servicing

      Excluir
  4. AWESOME!!!

    Isso é puro AutoEntusiasta.

    Valeu MAO

    ResponderExcluir
  5. A diferença entre a Ford e a Aston Martin, por exemplo, é que a primeira ainda leva o sangue do primeiro garanhão, Ford avô. Enquanto que o sangue da Aston está disperso entre vários procriadores, inclusive o do primeiro Ford.

    Já Alfred P. Sloan, Jr, fez tudo diferente do que eu prezo.

    Mas como já dizia o saudoso Ibrahim Sued: "Ademã que eu vou em frente"

    ResponderExcluir
  6. Os Aston são incríveis, máquinas nem sempre tão boas, nem sempre tão bonitas, mas incríveis, dá pra sentir a "alma" do carro só pra olhar para ele. Acontece algo parecido com a Alfa Romeo, é olhar para um Alfa e sentir o carro "pulsando".

    ResponderExcluir
  7. MAO,

    concordo plenamente com você. Nos dias atuais, sua conclusão é aplicável em várias áreas, como a música, futebol, automobilismo, engenharia, medicina, ensino, etc.

    Ah, e se não me engano, o título da música é "Price Tag" ou "Etiqueta de Preço", numa tradução livre.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  8. MAO,
    do grande KCT a história e seu texto ! Efusivos parabéns.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  9. Obrigado por compartilhar conosco todo esse conhecimento sobre a Aston Martin, MAO. Impressionante como a paixão por automóveis consegue manter uma empresa eternamente não-lucrativa como um ícone da cultura automotiva!

    ResponderExcluir
  10. Seria mais fácil e mais rápido fazer dinheiro fabricando dinheiro, se não fosse ilegal. A missão de uma empresa é oferecer soluções e o objetivo de um empresário bem-sucedido é ser recompensado e reconhecido pelo seu trabalho. Esta recompensa pode ser em dinheiro, muito dinheiro.

    ResponderExcluir
  11. Novo belíssimo texto do MAO. A primeira frase sintetiza e explica muito bem a filosofia de certas empresas. Agora compreendi tudo...

    ResponderExcluir
  12. Corsário Viajante11/01/13 19:45

    "A obsolescência programada liderada por departamentos de estilo, o ano-modelo, a compra financiada, o desenvolvimento contínuo de novos modelos, tudo foi criado por ele, e hoje é universal e básico."
    Acho que é por isso que tenho tanta birra da GM... hehehehe

    ResponderExcluir
  13. Mais um belíssismo texto "auto-histórico" que o MAO faz tão bem!

    Não fazia idéia que a Aston Martin passou por tantas falências e renascimentos assim! Ainda bem que, ao recomeçarem tudo do zero, mantiveram o autoentusiasmo na criação dos modelos.

    ResponderExcluir
  14. Lorenzo Frigerio11/01/13 20:24

    Esse DB7 é a versão Aston do Jaguar XK?

    ResponderExcluir
  15. Certas coisas, a gente nunca esquece.
    Entre 1997 e 1999, morei no Ed. Nações Unidas, na esquina das Avenidas Paulista e Brigadeiro Luiz Antônio. (Para quem não conhece São Paulo, até o ano passado essa esquina era a última curva da São Silvestre.) E meu local de trabalho era relativamente próximo - ao lado do Masp -, de sorte que eu ia e voltava do serviço a pé.
    Num certo começo de noite, chegando ao Nações, avistei na Paulista uma cegonha transportando apenas um carro, meio parecido com um Maverick, mas com linhas um pouco mais retas. Pensei: "Sei que conheço esse carro, mas de onde?" Quando a carreta passou por mim, prestei atenção nas linhas da traseira e a ficha caiu, ou melhor, despencou: era um Aston DBS seis cilindros, prata-azulado, praticamente igual ao 1967 da foto!

    ResponderExcluir
  16. show de post. Literalmente bebi cada afirmação.
    e, como sempre, delicia de leitura. Abraçõ.

    ResponderExcluir
  17. Que texto fantástico MAO! Obrigado por compartilhar essa história conosco, sem dúvida uma grande história!

    ResponderExcluir
  18. ótimo post, para mim o mais lindo é o Vantage end of 70s early 80s, um verdadeiro English Muscle. abs,
    www.v8nfun.blogspot.com

    ResponderExcluir
  19. Prezado MAO,

    parabéns pelo artigo. São raras as pessoas que escrevem tão bem artigos sobre a história dos automóveis.

    Sempre tive grande interesse pela história da Aston Martin e, desta forma, permita-me fazer uma pequena complementação em seu magnífico texto.

    Notável é a parceria com a Zagato em diversas fases para criação de modelos fantásticos, tais como Aston Martin DB4 GT Zagato. Foram feitos aproximadamente 20 carros utilizando o chassi encurtado do DB4. O desenho deste fantástico modelo ficou sob responsabilidade de Ercole Spada, na época com pouco mais de 20 anos e posteriormente, responsável pelo desenho de diversos Alfa Romeo (TZ, Giulia TZ, 155 etc); os Fiat 850,Tipo e Tempra; BMW series 5 e 7 das décadas de 80 e 90.

    Já na gestão de Victor Gaunlett, a parceria com a Zagato foi novamente retomada e foi lançado na década de 80 o Aston Martin V8 Vantage Zagato, utilizando como base o Aston Martin V8 Vantage.

    Curiosamente, ainda na década de 80, a Aston Martin produziu uma pequena série de DB 4 GT Zagato utilizando números de chassis reservados para o modelo na década de 60 mas que não foram produzidos. Estes modelos são denominados "Sanction II" e são reconhecidos como legítimos DB4GT Zagato. Possuem pouquíssimas diferenças em relação ao modelo da década de 60, sendo a mais visível a existência de 3 ressaltos no capô dianteiro, ao invés de 2 do modelo, digamos, "original".

    Todas estas ações na década de 80 foram feitas com o intuito de geração de caixa para a empresa, que enfrentava dificuldades financeiras e que apenas foram sanadas com a chegada da Ford, que posteriormente a vendeu para um consórcio de investidores cujo maior expoente é David Richards, dono da Prodrive e que novamente retomou a parceria com o estúdio italiano para a criação do Aston Martin V12 Zagato.

    Curiosamente, a Aston Martin é a única fabricante de automóveis em série que ainda está sob controle dos britânicos.

    Obs.: Morgan, Caterham e Ginetta também têm controle britânico, mas a produção é muito baixa e usam motores de outros fabricantes.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mauricio,

      Grato pelo complemento!

      Sabe, essa história da Zagato e a Aston merece outro post. Muita coisa ficou de fora desse, focado na parte financeira. Os Virage, por exemplo, nem mencionei, meio de propósito também.

      Forte abraço, e comente sempre!
      MAO

      Excluir
  20. Todos,

    Grato pelos elogios, feliz que gostaram.

    Forte abraço,
    MAO

    ResponderExcluir
  21. Comparações totalmente desnecessárias e muita poesia para confundir as coisas. O objetivo de todo empreendedor é ganhar dinheiro agradando cada vez mais a seus clientes e isso é potencializado quanto mais livres forem os consumidores e o mercado.
    Paixões e Hobbies estão em campos diferentes. Um milionário pode gastar tempo e dinheiro com carros, ciência, artes e mulheres. Isso gera prazer ao praticante desse hobbie e eventualmente pode trazer inovações que terão utilidade à humanidade. Cabe ao empreendedor conseguir trazer essas inovações a um preço atraente aos consumidores e lucrar com isso.
    A Aston Martin não passa de um hobbie de ricos, quem sabe um empreendedor não consiga trazer essa inovações ao mercado? Por enquanto é um fracasso enquanto negócio, uma pena, pois assim seu acesso é restringido. Assim como Zuckenberg e Goodyear dedicavam-se à ciência por prazer e curiosidade, a dedicação desses homens ao automóvel ainda pode tornar-se factível ao mercado.

    ResponderExcluir
  22. Maravilhoso post, Mao. Seria interessante perquirir as razões da dêbacle da indústria britânica de automóveis.

    ResponderExcluir

O Ae mudou de casa! Todos os posts do blog foram migrados para o site. Por favor busque por este post no site e deixe o seu comentário lá.
Um abraço!
www.autoentusiastas.com.br

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...