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11 de junho de 2009

PUMA 69 E OUTRAS POSIÇÕES DESCONFORTÁVEIS

O carro tem 4 freios a tambor. Tem um motor de Fusca pendurado lá atrás do eixo traseiro. Seu desempenho não é grande coisa para os padrões modernos. É simples como um mineiro mascando mato, tecnologicamente um dinossauro sem sofisticação nenhuma.

Não é particularmente econômico em combustível também. É minúsculo, e meus 1,92 metro de altura só conseguem ser acomodados lá dentro adotando-se uma posição de dirigir extremamente deitada e com pouquíssimo espaço para se mover. Claustrofóbicos devem se manter a distância. A ergonomia é passável, mas para se ligar o carro, tem que se meter a chave pelo meio do volante, e por causa disso girá-la para ligar o motor é um movimento totalmente anti-natural: braço enfiado pelo volante, que por sua vez encontra-se na altura dos seus joelhos. É quase uma posição nova de Yoga!

Passa longe do que seria aceitável também em qualidade de construção. Peças pequenas emprestadas de Fusca, vidros difíceis de levantar, qualidade de materiais apenas um pouco melhor daquela presente no bugue que seu vizinho produzia no fundo do quintal.

Sabendo-se de tudo isso, alguém poderia por favor me explicar o porquê da inexplicável, mas completamente arrebatadora paixão que sinto pelo carrinho?

Hoje passei o dia todo pensando nisso, incapaz de tirar os olhos da foto abaixo, tirada terça passada no sambódromo.
O carro pertence a um grande amigo, que por algumas vezes deixou o carro comigo, e que portanto é um velho conhecido. Trata-se de um raríssimo Puma GT 1969, dos quais foram fabricados pouquíssimos, exatamente 272 deles.

O carrinho é a prova viva e mais exuberante da máxima de que um carro nunca é somente a soma de seus componentes. Ele pode ser melhor ou pior, mais belo ou menos atraente, mas nunca igual ao carro que lhe doou a mecânica. É sempre diferente porque quase sempre foi criado por outras pessoas, em outro tempo, e as vezes, como no caso da Puma, em outra empresa. Por consequência, a marca indelével do humano, um pequeno pedaço da alma de seus criadores se imprime na máquina de maneira clara e absoluta, tornando-a algo diferente e único. Inevitavelmente, para o bem ou para o mal.

É por isso que abomino a corrente fixação da imprensa em "plataforma", que quer simplificar a difícil tarefa de avaliar corretamente um automóvel, tornando-o uma mera derivação de algo já conhecido. Tal coisa pode ser um demérito para o antigo carro, bem como uma injustiça para o novo.

Este Puma, por exemplo, poderia ser desprezado como um reles Fusca travestido de Lamborghini Miura. Ou um Fusca piorado, se se considerar tudo o que eu disse nos primeiros parágrafos deste post. Mas nada podia estar mais longe da verdade...

E eu não consigo explicar totalmente o porquê. Talvez por, apesar de seu desenho ser inspirado pelo Lambo Miura, ter proporções e linhas perfeitas, tornando-se assim uma daquelas formas atemporais, belas mesmo se tivessem sido criadas ontem, e não 40 anos atrás.

Mas uma coisa é clara: por ser pequeno e leve, e ter um CG baixo, ele não se parece nada com um Fusca ao rodar. Senta-se baixíssimo, com a busanfa a milímetros do asfalto, e a sua comunicação com o veículo é total. A direção é direta, ajudando a ler o asfalto perfeitamente. Você praticamente veste o Puma, e embalado pelo valente ronco do motorzinho lá atrás tem a sensação exata de estar andando em Interlagos nos anos 60.

O bicho rosna e berra com vontade. Sentado baixinho e bem no meio do carro, cada movimento dele é como se fosse seu, cada reação sua é diretamente transformada em ação, e você e sua montaria são como um só. Em pouco tempo, buracos doem em você como nele, e acelerar até o limite de giros parece um orgasmo, se não fosse a aterradora sensação de que você está muito rápido, muito baixo, com muito pouco carro entre você e o resto do mundo lá fora. Você tem certeza que vai morrer, mas adora cada minuto da experiência.

É indubitavelmente, um carro esporte. Algo que lhe chama a andar rápido, a acelerar sempre, a andar para diversão, e não somente com a finalidade de transporte. Você se surpreende indo mais vezes à padaria, ao mercado, se oferece para buscar um dos filhos na escola (mais de um não cabe). É um carro para qual se inventam motivos para sair de casa, e isso não tem preço.

Mesmo tendo que adotar a famosa posição de Hata-Yoga "Puma invertido para frente, reverso", ou, como se diz na versão original em sânscrito, "Hatagamanesh Pumaviradolajh", toda vez que entra-se nele...

MAO

28 comentários:

  1. Junior-Big11/06/09 14:31

    Texto ìmpar MAO, parabéns!
    Deu até vontade de ter um...

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  2. É o que se chama da paixão! Eu lá vou tentar entender porque gosto de Berlinetas?

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  3. Como os amigos escreveram paixão!

    MAO você transmite bem isso, lendo tudo que você escreveu de Chevette até fiquei com vontade de ter um e depois transplantar um V6 pra ele!

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  4. o charme do carro esta,tambem,nos seus defeitos.na sua (des)ergonomia.fora esportivos certinhos e previsiveis(asiáticos)

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  5. belo post MAO!

    é mais ou menos o que eu sinto pelo Escort!
    nem melhor nem pior que os outros carros, apenas... ÚNICO!

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  6. Ubirajara Kuz11/06/09 17:32

    MAO,

    impressão minha ou o titulo do post tem uma mensagem capciosa?

    o post deveria se chamar:
    Puma, 69, e outras posições desconfortáveis

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  7. Ao começar a leitura desse ótimo texto já estava me preparando para redigir um esculacho em alto e bom tom. Ainda bem que, ao contrário do que minha impulsividade natural mandava, lí o texto até o fim.

    Eu tenho um Puma. Mas tenho um Puma desses comuns, largamente produzidos entre 1977 e 1980, já usando chassis de Brasilia e contando com certo refinamento de projeto e construção.

    Puma, de modo geral, é uma merda. Sei disso. Às vezes esqueço. Mas sempre lembro ao pegar chuva, seja pelo embaçamento dos vidros, seja pelas infiltrações de água pelas portas.

    Mas que carrinho gostoso de guiar! E que ergonomia!

    Explico: não tenho 1,92m de altura. Sou mediano, com meus 174 cm de fio a pavio. Mas mesmo assim muito me incomodou a posição de guiar dos vários Pumas que visitei antes de comprar o meu. Foi amor à primeira sentada. Os ex-donos colecionam Pumas e eventualmente preparam carros de corrida. Sabem o que fazem. Apesar do meu Puma ter sido o de "trabalho" deles, já era um carro bom de guiar.

    Apesar da posição de dirigir já boa do meu Puma, investí um tempinho adequando banco, pedaleira, comprimento da alavanca do câmbio e posição do volante ao meu gosto.

    Ao contrário da forte impressão de claustrofobia que os Pumas "tubarão" (pré 1977, com guelras no lugar das janelinhas) e P018 passam, o meu é arejado e espaçoso, em muito ajudando as janelinhas traseiras e o teto solar instalado por algum outro dono no passado.

    Me divirto muito andando com o Puma, agora equipado com um motor 1600 mais apimentado, em ruas, avenidas e estradas com pouco trânsito e eventualmente no autódromo de Interlagos em rallies e trackdays.

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  8. Grande MAO!

    Texto belíssimo, um "retorno" em grande estilo.

    Paixão por determinado carro não se explica, é algo que transcende a razão. É como o Ary disse, os defeitos e limitações fazem parte da brincadeira.

    Um Puma, como diversos outros carros, jamais poderá ser visto com olhos racionais. São carros que precisam ser apreciados única e exclusivamente pela diversão que proporcionam.

    Faço um paralelo com meu Caravan: beberrão, ruim de curva com sua estabilidade balançante, em freadas fortes qualquer descuido é rodada certa e, nos dias atuais, qualquer 4-cilindros moderno tem desempenho igual ou superior ao veterano 4100 original de fábrica (tudo bem, isso se resolve com um 350 sbc...). Mas não troco o carro por nada desse mundo!

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  9. MAO, texto sensacional. Párabens.

    Abraço

    Lucas

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  10. Fantástico post!

    O Puma Coupé "tubarão" é, para mim, um dos automóveis mais especiais já feitos. Em qualquer dos seus anos.

    Acho que é um carro que pede uma mecânica mais afinada, justamente para realçar o caráter esportivo.

    De forma racional, um "Fusca de plástico". Levando em conta a emoção, um "autoentusiasmante".

    Sds,

    Der Wolff

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  11. MAO,

    Voce é BOM. Muito legal o texto. Entendo bem porque já tive um Puma 75, que é pouca coisa diferente deste 69. O carro é ruim, mas é otimo. Muito divertido. Muito legal mesmo.

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  12. MAO,
    você é uma comédia. Belo texto.

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  13. Clésio Luiz12/06/09 09:13

    É ruim, mas é gostoso. Mulher nenhuma entenderia.

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  14. Putz Mao, adorei o texto... realmente o Puma é um "carrinho" fantástico mesmo com seus inúmeros defeitos! Eu tenho um GTE (tubarão) 72 e já tive outros dois GTS um 79 e outro 80, sendo que o 80 foi meu primeiro carro! e não canso de dizer, o Puma é o melhor carro que existe pra mim e ponto.

    Nossa, como já ouvi por afirmações como essa... é de Puma é um Brasilia vestido de noiva, pra baixo! hehehe, mas paixão é isso né?

    Excelente texto Mao, por isso esse blog é a minha página inicial do meu navegador!

    Parabéns e um abraço a todos os AUTOentusiastas!

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  15. Um belo dia vocês devem pegar esses textos mais "autorais" e montar um livro.

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  16. Belíssimo texto!
    E paixão não se explica.
    E outra: MAO, voce já deve ter ouvido falar que os carros antigos ao contrario dos modernos, tinham PERSONALIDADE.
    E o Puma Tubarão tem uma personalidade marcante, por isso até hoje é reverenciado e se tornou um clássico entre os nacionais.
    Parabens.

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  17. Tive 3 Pumas, em sequência, todos 74. Me diverti um bocado com eles, apesar de ser quase da altura do MAO e mais gordo. A gente sempre arruma um jeitinho. Ainda sinto saudades. E o texto do MAO, irretocável, como sempre.

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  18. Puma é ligado diretamente à minha infância.
    Lembro que um padrasto meu tinha um modelo do conversível, de cor dourada.

    Minha mãe adorava reclamar do carro: Apertado, barulhento, todo duro de se dirigir. Mas bastava ela pegar o carro pra dar uma volta e dava pra ver o sorriso de satisfação estampado no rosto.

    É o tipo de carro de final de semana que todo homem (e algumas mulheres) deveriam ter!

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  19. Dirigir um Puma me proporcionou uma das experiências mais desagradáveis e curiosas que já vivenciei. Quando garoto ficava babando os conversíveis e cupês de amigos mais velhos, querendo ser logo adulto pra comprar o meu e administrar a fila de gatinhas ávidas por embarcar no meu bólido e cair no meu colo (pra moleque tudo parece tão simples...)

    Certa ocasião, já depois de grande (grande mesmo, 1,87m) recebi a missão de buscar documentos urgentes de um chefe avoadão que, muito atrasado, ele jogou o carrinho na minha mão.

    Mesmo puxando o banco todo pra trás ainda fiquei todo dobrado, e demorei a entender porque os faróis acendiam toda vez que eu trocava as marchas - o joelho esquerdo resvalava no painel e acionava o interruptor, enquanto o direito tinha que subir para a mão poder mover a alavanca do câmbio. A coluna e o pescoço sofreram muito até eu descobrir o teto solar - basculante, daquele que não desliza, só sobe um pouquinho, deixando uma brecha de uma polegada e meia. Já foi suficiente pra levantar a cabeça e enxergar um pouquinho mais. Só à frente, porque atrás e nas laterais, nada. Nos retrovisores então, só pára-choques e rodas. Nessas condições deixei o motor apagar e quase bati por várias vezes, e os quarenta minutos de viagem me renderam dores no corpo pelo resto do dia.

    Continuo um admirador dessa tetéia, mas já me resignei que, assim como as motocicletas esportivas, esse carrinho de dimensões reduzidas não é para todos. Quem pode pilotá-los (sem prejuízos ortopédicos) deve sentir-se privilegiado pela exclusividade desse esportivo brasileiro.

    Abraços!

    Carlos Torri

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  20. Eu tive Puma (GTE 1977) e gostava muito dele. Puma é carro de homem. Essa história de vidro embaçando, chuva entrando pelo cajado da porta, freio ruim, derrapagem e outras peculiaridades não é problema para macho. E tenho dito!

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  21. A cada dia gosto mais de ler este post! Parabéns ao irrepreensível gosto pela escrita e pelo a paixão por automóveis. Como projetista de máquinas, vi a síntese de nosso trabalho através das tuas palavras.

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  22. Não sei porque mas este texto me fez lembrar da revista Motor 3... e foi bom! :-)

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  23. Depois de ler este texto estou ainda com mais vontade de terminar a fase de aquisição de um Puma conversível 1973 GTS. Deve ser uma experiência unica para quem dirigiu apenas carros convencionais como eu.

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  24. Marcelo Ricardo Silva27/07/12 15:26

    Belo texto. Quem já teve um Puma, sabe do que você está falando.
    Eu tive o prazer de ter 4, inclusive um GTB, o tal "Puma-Opala", de seis cilindros.
    Mas de todos, o mais bonito é, sem dúvida, o "tubarão", 69.
    O vendi, infelizmente, por causa do desconforto, que acabou me gerando um problema sério nos ombros.
    O carro é duro, apertado, mal acabado, motor fraco, chove dentro, os vidros embaçam... mas é maravilhoso e não vejo a hora de poder ter outro!
    O ronco do motor é uma delícia, dirige-se com a bunda no chão e o carrinho é nervoso.

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  25. Alberto Santos RJ20/11/12 17:43

    Tenho 16 anos, com 10 anos conheci um puma gte, ele passou a minha direita no ônibus onde eu estava, perguntei ao meu pai que estava ao meu lado, que modelo de Porsche era aquele e ele respondeu: não é um Porsche meu filho, é um puma gte, nunca mais esqueci esse nome. A cada dia que passa é mais um sonho pilotando esse carro, é mais uma visita no mercado livre é mais um passeio de ônibus rezando para que um puma cruze o meu caminho. SOU UM FUTURO PROPRIETÁRIO DE UM PUMA

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    1. Temos histórias parecidas! Essa semana compro o meu GTS! Boa sorte para você!!

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  26. Muito legal o texto! Essa semana vou comprar o meu conversível. Diriji ele para experimentar e foi único! Sou moleca e grande (1,75), fiquei desconfortável, senti o freio esquisito e o cambio muito curto; mas o amor pelo carro é maior e vou em frente ... sonhando com meus finais de semana inesquecíveis!
    Pumeiros, mais uma no time!!!!

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