25 de agosto de 2009

CONVIDADO: FERNANDO CALMON

ENTUSIASMO, SEM AVISO PRÉVIO

Por Fernando Calmon

Como explicar o entusiasmo pelos automóveis e o automobilismo de competição? Muitas vezes não há explicação. No meu caso, até hoje, fico com aquele ponto de interrogação.

Na adolescência, até acompanhava pela leitura de jornais uma ou outra corrida. Comecei cedo ao volante – 15 anos. Apreciava muito dirigir, mas era fanático por... futebol. Aos 17 anos, talvez por sempre me destacar nos estudos, ganhei um Fusca 1963 zero quilômetro, em outubro, mês de aniversário. Com a condição de só dirigi-lo até o início da imensa ladeira da rua Marechal Mascarenhas de Moraes, em Copacabana, Rio. O prédio onde morava era o último da rua e subir a pé, todos os dias, dava uma senhora canseira.

No começo até obedeci. Estacionava o Fusquinha e andava uma quadra para apanhar lotação ou ônibus. A tentação era demais e no começo de 1964 resolvi arriscar, além das voltas dentro do bairro. Li no jornal sobre as 100 Milhas da Guanabara, na distante Barra da Tijuca, um circuito de rua de longas retas e poucas curvas. Foi a primeira vez que presenciei uma corrida ao vivo, vencida por Chico Landi em um Karmann-Ghia/Porsche.

Sem o menor aviso prévio, “aquilo” me contaminou. Simplesmente fiquei maravilhado com os carros passando zunindo – como se falava antigamente – na minha frente. As competições na Barra tornaram-se um momento mágico, a partir daquele dia, sempre ansiosamente esperadas. Daí para o entusiasmo foi um passo. A cada uma das poucas corridas que assistia, mais me empolgava. De fanático pelo Flamengo e assíduo freqüentador do estádio do Maracanã flagrei-me perdendo o interesse pelo futebol. Em poucos meses, à medida que se aproximavam os 18 anos e a sonhada carteira de motorista, menos apreciava o esporte bretão (adjetivo do passado) e mais o esporte motorizado.

Essa guinada acabou afetando minha vida profissional, já como estudante de engenharia. Sentado nas pequenas arquibancadas do velho e precário autódromo de Jacarepaguá, em 1967, sentia que precisava mudar de fora para dentro das pistas. E o jornalismo seria o melhor atalho. Em 21 de agosto de 1967 lá estava eu, em um estúdio da TV Tupi, juntamente com Álvaro Costa Filho, para apresentar o programa Grand Prix, que ficou 13 anos no ar. Depois veio O Cruzeiro, a migração para a capital paulista, a revista Autoesporte, que lia com avidez e nunca imaginava, um dia, poder tocar a redação.

Hoje a paixão pelo automóvel, em quase 42 anos de profissão e 62 de idade, continua inabalada. As competições, é verdade, já desapareceram do meu dia a dia. Talvez a morte prematura de Ayrton Senna, talvez o fim do automobilismo de sonho ou, mais provável, os novos rumos profissionais. Há quatro décadas era possível se dedicar, com seriedade e conhecimento de causa, tanto ao esporte como à indústria automobilística no jornalismo especializado brasileiro.

Nos dias atuais, em razão dos dois ramos tão desenvolvidos, isso se tornou uma missão bastante difícil, possivelmente ingrata. De vez em quando, ainda recebo mensagens de ex-telespectadores do Grand Prix e do Primeira Fila (1985-1994) inconformados pela minha deserção. Não adianta: vai além das minhas forças. Aquelas que me restam, dedico-as dia e noite aos automóveis, com o mesmo entusiasmo de sempre.



Fernando Calmon, engenheiro e jornalista especializado desde 1967, quando produziu e apresentou o programa Grand Prix, na TV Tupi (RJ e SP) até 1980.

Foi diretor de redação da revista Auto Esporte (77/82 e 90/96), editor de Automóveis de O Cruzeiro (70/75) e Manchete (84/90).

Produziu e apresentou o programa Primeira Fila (85/94) em cinco redes de TV.

Sua coluna semanal sobre automóveis, Alta Roda, começou em 1999. É publicada em uma rede de 65 jornais, revistas e sites. É correspondente para o Mercosul do site inglês just-auto.

Além de palestrante, exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado na área automobilística e também em comunicação.

CONTATO
fernando@calmon.jor.br

11 comentários:

  1. Excelente mudança de "paixão", do futebol para os automóveis. Não vejo graça em futebol, como a maioria dos autoentusiastas...

    Que maravilha poder ter participado dos tempos românticos do automobilismo brasileiro! Àquela época, havia muito mais paixão envolvida nas competições. Muita garra, incríveis soluções técnicas caseiras para melhor desempenho, coisas inimagináveis nos dias atuais, o que é uma pena...

    As corridas atuais são muito mais seguras, há elevado nível técnico como um todo. Mas, como espetáculo em si, perdem de longe para as de antigamente.

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  2. Rodrigo Laranjo25/08/09 20:46

    Mais um louco para esse bando de louco.

    :D

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  3. Belissimo curriculum Sr Calmon!

    E muito bacana sua historia!

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  4. Calmon,
    maravilha ter seu texto em nosso blog. Ficamos muito felizes e agradecemos de coração. Saiba que estamos sempre de olho no trabalho que vocês, mestres do jornalismo automotivo, divulgam para nosso conhecimento.
    Abraço.

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  5. Prezado Fernando,

    Muito obrigado por nos deixar seu tão interessante relato. E parabéns pela troca de esporte, muito sensata a meu ver!

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  6. Futebol? O que é isso?
    Belíssima mudança de gosto.

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  7. fernando, geneeroso que é, me deixou o posto na Manchete, que exerci de 90 a 99, e o gordo salário...bons tempos...

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Gosto de futebol E de carros... ambos me divertem à beça (mas o autoentusiasmo ainda ganha...)

    Parabéns Calmon. Você é um dos poucos, bons e lúcidos jornalistas no que tange transportes e automóveis.

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  10. Prezado Calmon,

    Parabéns pela bela trajetória.

    Talvez impossível atualmente, seria ótimo que o "automobilismo de sonho" pudesse, novamente, povoar cabeças autoentusiasmadas.

    Sds,

    Der Wolff

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  11. A coluna do Calmon é leitura obrigatória para entender a indústria automotiva.

    http://autoentusiastas.blogspot.com/2008/08/mini-bits-and-pieces-part-one.html

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