29 de abril de 2010

TEMPO DE MUDANÇA


Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.


(Aproximem-se todos,
De onde quer que venham
E admitam que as águas
Ao seu redor estão crescendo
E aceitem que assim, logo afogarão
Se o seu tempo aqui
Vale a pena ser salvo
Então é melhor você começar a nadar
Ou você afundará feito uma pedra
Porque os tempos estão mudando)

The Times They Are A-Changin’ (ouça o trecho acima aqui) foi composta pelo grande Bob Dylan em 1963 como uma canção de batalha. Como um dos porta-vozes da geração que mudou o mundo nos anos 60, Dylan fez esta música para passar o claro recado de que os jovens iriam sim, mudar a sociedade, de forma completa e inevitável. Quando dizia estas duras e proféticas palavras, soava aterrorizante para os pais de família tradicionalistas da época, e deixava claro que lutar contra esta mudança era fútil. Colocava medo no coração do inimigo, e inspirava os combatentes, como deve ser em uma canção de batalha. Ainda sinto um arrepio na espinha ao ouvir esta música, mesmo tendo nascido muito tempo depois de seu aparecimento nas rádios mundo afora.

E o recado continua atual. Vejam por exemplo a crescente exigência para que os automóveis poluam menos; ela chega como uma necessidade tão grande que faz gente muito inteligente tentar viabilizar coisas tão absurdas como o velho carro elétrico. Por mais que seja bobagem achar que muita diferença faça limpar ainda mais os escapamentos (já são limpos pacas hoje em dia), ah, os tempos estão mudando... Esse movimento já é inevitável, por mais idiota que seja. Medo atinge o coração do entusiasta! Melhor começarmos a nadar ou afundaremos, feito pedra. Malditos hippies verdes modernos!


Mesmo no mundo dos hor rods americanos, a pressão pode ser sentida. Hot rod nos EUA é coisa séria, e movimenta uma indústria poderosa, que, associada na famosa SEMA (Specialty Equipment Market Association, ou Associação do mercado de equipamentos especiais), protege seus interesses com unhas e dentes. Mas mesmo assim, existem estados, como a Califórnia, que coloca sérias restrições a modificações nos veículos que aumentem a emissão de poluentes.

Para encarar esta situação de forma construtiva, a GM Performance Products (já falei dela aqui), ajudada pelo departamento jurídico da SEMA e o governo da Califórnia, desenvolveu um pacote completo para fazer um hot rod tão limpo em emissões quanto um carro moderno. Explico: se um californiano quisesse, por exemplo, trocar o motor de seu Camaro 1985 por um mais potente e moderno LS3 de um Camaro 2010, por lei seria impedido, apesar de tecnicamente ser uma modificação bem simples, limpa e vantajosa. Apenas carros de antes de 1968, quando não havia legislação sobre isso, podem ser modificados, de acordo com a legislação.
Mas agora, com este novo pacote chamado de E-Rod (“E” supostamente significando ecológico), o dono do velho Camaro pode fazer a modificação e legalizar o seu carro. O pacote da GMPP consiste no motor novo completo até o filtro de ar, escapamentos com catalisadores e sensores, e até cânister para as emissões evaporativas do tanque. O kit não é barato, e exige o uso da  caixa automática ou manual do novo Camaro, mas é completo e pronto para legalizar o seu Ford 32 ou Cobra comprado em kit em qualquer estado americano. Ou para fazer um Monte Carlo 85 inesquecível.
Inicialmente, o único motor oferecido é o magnífico V8 LS3, usado no Corvette básico e no Camaro SS, uma unidade de 6,3 litros, levíssimo para seu tamanho, todo em alumínio, que produz 436 cv, e 59 mkgf de torque. A ideia é oferecer no futuro toda a linha LS disponível no Corvette, que vai até 638 cv usando o mesmo motor básico. O LS3 e todos os componentes do kit são cobertos por uma garantia de dois anos ou 38 mil quilômetros.

Mais de 400 cv, vamos ser claros aqui, é muito mais do que necessário para se ter um carro memorável. Sempre digo que 350 cv são suficientes até para um Scania que carrega 50 toneladas, quanto mais um automóvel de uma tonelada e uns quebrados... E foi o que a GMPP provou criando um carro sensacional para demonstrar esse novo pacote.

A empresa foi muito feliz na escolha. Montou o magnífico LS3 “verde” num Chevrolet 210 two-door post coupe, 1955, e o reconstruiu com extremo bom gosto. Tudo, do interior quase original até a pintura em dois tons de riqueza e profundidade ímpar, é de cair o queixo. Um toque moderno-retrô foi o uso das rodas de aço estampado, de 18 polegadas, do Camaro 2010 básico, pelas quais este que vos fala nutre profundo fetiche. Parecem coisas dos anos 60, lembram rodas de opala, e de longe, neste 55, parecem Halibrands. Ficaram perfeitas nele.

Dentro do carro, tudo original, mas duas modificações discretas, aparentes apenas para conhecedores: uma discreta luz de “check engine” no painel, com grafismo da época, e o PRDNL alterado para ter as mesmas posições da moderna e eletronicamente controlada caixa automática de quatro marchas. Mas o comando permanece na coluna, e é usado um volante de alumínio com aro em madeira de menor diâmetro, com o logotipo E-Rod no centro.

Poucos hot rods são tão marcantes como um cupê Chevy ’55. E um tão bem feito quanto esse realmente mexe com os desejos mais íntimos dos entusiastas. Dá para imaginar como deve ser bom bater na chave e ver o carro ligando na hora, a qualquer hora ou lugar, e sentir o funcionamento redondo e estável que só um moderno motor injetado pode proporcionar. Tudo isso dentro do ambiente dos anos 50 que o carro proporciona. Genial.
Se este é o futuro, podem contar comigo! Este é um tipo de limpeza de emissões que assino embaixo. O futuro não precisa ser ruim necessariamente, e ao contrário do que dizem os fatalistas da mudança climática, o mundo não vai acabar em uma bola de fogo provocada pelos gases que expelimos. Acho que, acabada a histeria carbônica, vamos continuar a fazer motores a gasolina tão limpos que vão quase limpar o ar... Vamos nos esquecer das exóticas soluções mirabolantes, e viveremos em um planeta limpo, com lixo bem controlado.

Eu vejo uma vida melhor no futuro. E vejo isso por cima de um muro de hipocrisia que insiste em nos rodear.

MAO

11 comentários:

  1. Belo Hot Rod, sem exageros, de extremo bom gosto. Bom, sobre o motopropulsor nem vou falar, é covardia. Você disse que não é barato, mas quanto custa?
    A propósito, como farão os proprietários de hot-rods e rat-rods, com V8 carburados, sem chance de obter a placa preta, como passarão pela inspeção? Terão que passar para a ilegalidade? Socorro, alguém nos ajude!

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  2. Mister Fórmula Finesse29/04/10 20:23

    Realmente um carro muito bonito, de extremo bom gosto e melhor ainda: abrindo caminho para uma geração de motores ciclo otto que obrigatoriamente terão que ser mais limpos sem para isso terem o tamanho e a potência de um motor de batedeira.

    Imaginem amigos que as mais diversas carroceiras - patrocinadas pela indústria hot rod - poderão ser utilizadas adotando esse coração mais "verde".

    O carro do seu avô será mais ecologicamente responsável que aquele Toyota Prius cujo visual implora para te chamarem de esquisito ("vejam...eu dirijo um elétrico!!")...e será mil vezes mais malvado e divertido.

    Obrigado pela dica MAO, e como é interessante ver a GM com os braços descruzados novamente, mobilizado como seu país de origem quando do ataque de Pearl Harbor.

    É aquela velha história, a GM é um elefante que demora a se movimentar, mas quando o faz....

    A GM Argentina por exemplo faz esse tipo de coisa:

    http://www2.uol.com.br/bestcars/un13/326-chevrolet-classic-cargo.htm

    cujo apelo de preço faz muitos de nós pensarmos seriamente em nova cidadania. Já no Brasil, temos o Tragile, futuro pai de uma nova família de patinhos feios que logo logo estarão por ali assustando os incautos.

    Recolhidos a insignificância do nosso mercado (pois é o que parece), tecnicamente nivelados a países como Índia, China - essa está nos escapando - e alguns primos sul americanos sem indústria, vemos aqui do lado de baixo do Equador, com esperança, que os bons carros sempre existirão. Se não for no bolso, que seja no coração...mas o gênio humano irá prevalecer.

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  3. Bom saber que estão sendo pensadas soluções "ecologicamente corretas" (não gosto dessa frase feita muito em moda hoje em dia...) para manter os bons V8 vivos e felizes.

    Esse Chevy 55 ficou muito bonito, com pitadas modernas na medida certa.

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  4. Belíssima iniciativa do General, um tapa de luva em todos os ecochatos.
    Aposto que o E-Rod fará escola mundo afora e nós entusiastas estaremos salvos.

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  5. Poxa por isso eu adoro visitar o AUTOentusiastas!
    Cansei de ver soluções como "Carro elétrico" e "carro de hidrogênio"
    coisa que só me deixam com medo do futuro. Não sei porque AMO o motor de combustão interna !
    Eu não quero dirigir uma enceradeira....... se é que vocês me entendem ...

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  6. Bera Silva29/04/10 21:46

    A "data de fabricação" de vocês vai lhes livrar de ver menos barbaridade e estupidez, em relação a mim. Como a minha fabricação é de 85, então (serve de consolo pra vocês) eu ainda vou ver muito mais estupidez e ignorância. O ser humano é muito idiota mesmo, daqui a pouco vão querer veículos que consumam dióxido de carbono e libere oxigênio... Estamos parecendo um trecho do livro 1984 em que a Oceania estava em constante guerra e as melhores cabeças ficavam ocupadas tentando fazer a arma da solução final, mas não iam além de soluções esdrúxulas... Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força...

    Em resposta a sua canção: Não tem pra onde nadar.
    ...Mas quase afogando
    o desejo não termina.
    Pois navegar a esmo
    talvez seja nossa sina.
    Tudo isso um dia acaba,
    pra de novo começar,
    somos moldados
    a ferro e fogo.

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  7. Muito interessante essa iniciativa, só lá nos EUA mesmo. Eles podiam aproveitar o embalo e criar um pacote desses para dar um novo ânimo aos hot-pockets dos anos 80, como um ecotech 4 cilindros turbo.
    Ops, sinto muito por citar um I-4 em um post sobre V8s... mas acho legal ter opções, apesar de que dizem que um V8 small block cabe em qualquer carro... hehehehe

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  8. Quero ver estes Ecochatos pedirem pro mundo parar de comer carne tb... aproveitando um trocadalho... "bullshiiiiit!"

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  9. MAO, quandocrescer quero escreveer como você...e o fetiche é nosso, do Chevy 55 post two door...
    m

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  10. MAO e Mahar, nao sao so vossos fetiches rsrsrs.
    Desde que vi esse carro no gmpp.com fui procurar videos no Youtube pra ver se ele andava mesmo ou era mais um show car estatico. Grata surpresa ver o carro acelerando o V8 com vontade.
    Esse eh o tipo de customizacao que acho perfeita. Visual intacto e mecanica atual.

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  11. MAO,
    tremendo carro, modernizado onde precisa, apenas. Nada de alterar estilo de obra tão histórica.
    O carro original é lindo de olhar e andar,mas preocupa em vários itens, como freios e estabilidade. Com essa atualização mecânica, deve funcionar sem nenhuma preocupação até em trânsito de cidade agressiva como São Paulo.

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