12 de junho de 2011

UM REI EM BOXBERG

Fotos: Bosch/demais: autor


Em Boxberg, não muito longe de Stuttgart, fica o Centro de Testes da Bosch, inaugurado em 1998. O AE esteve lá esta semana para, durante dois dias, conhecer tudo o que a Robert Bosch GmbH, empresa que já tem um século e um quarto de existência, está desenvolvendo para tornar os veículos automotores mais seguros e frugais em consumo de combustível e, consequentemtente, em emissões de dióxido de carbono.

Viu-se muita coisa, desde alerta de sonolência (como usado no novo Passat e Passat Variant) a sistemas e alimentação por GNV e gasolina num motor VW 1,8-litro com turbocompressor da Mahle (primeira joint venture da Bosch com fabricante de turbos, formada em 2008), passando por um sistema de liga/desliga (start/stop) na desaceleração natural (coasting) em que o motor desliga quando a velocidade é de 120 km/h para baixo. Claro, falaremos bastante sobre isso tudo aqui.

Na quinta-feira estive neste Centro de Testes de Boxberg, onde se encontrava a nata dos carros alemães e europeus com esses e muitos outros itens de alta tecnologia. Era Audi, BMW e Mercedes para todo lado, num ambiente próprio para se experimentar o que a Bosch queria mostrar. Centro e trinta e cinco jornalistas dos quatro quadrantes do globo estavam lá.

Em meio a todos esses carros havia dois Tata Nanos. O interesse que despertaram foi totalmente inusitado. Todo mundo queria andar no Nano, e isso me incluía, claro. Foi graças a esse evento da Bosch que pude conhecer de perto o "carro do povo" indiano, que colocou os dirigentes de indústria automobilística em estado de atenção quando o carro foi mostrado no Salão de Genebra de 2008 e anunciado por 2.500 dólares sem impostos na Índia.


Todos queriam andar no Nano
Mas, o que fazia o Nano - eram dois, de versão mais bem acabada, a LX!- naquele ambiente tão sofisticado? Simples: desde os estágios iniciais do projeto, em 2005, coube à Bosch  todo o  projeto e  desenvolvimento do gerenciamento do motor bicilíndrico em linha de 624 cm³, naturalmente envolvendo o sistema de injeção. No dia do evento a Bosch mostrou uma assistência de direção elétrica, acionável como nos Fiat daqui, a função City, e que desliga automaticamente quando a velocidade passa de 20 km/h (40 km/h nos Fiat). Outro tinha ar-condicionado, item também em desenvolvimento pela Bosch.

Os dois tinham volante no lado direito (note, na foto de abertura, o adesivo aplicado nos faróis, para poder rodar num lugar de mão direita como a Alemanha e não ofuscar o tráfego contrário). O Nano é um carro de quatro lugares e 600 kg com motor traseiro transversal de 35 cv a 6.250 rpm, 4,9 mkgf de 2.500 a 3.000 rpm. O comando de válvulas é no cabeçote de alumínio (como o bloco) e a injeção é Bosch Motronic. Diâmetro e curso 73,5 mm, virabrequim de três mancais. Taxa de compressão, apenas 9,5:1.

A ignição é sem distribuidor, do tipo centelha perdida, disparo simultâneo nas duas velas, como no Citroën 2 CV e no Enertron do Gurgel BR-800.

Foto tirada através do vidro do vigia. Sentido de marcha é de cima para baixo, radiador fica à frente do motor. As entradaas de ar para o radiador ficam antes das caixas de roda traseiras, sendo portanto totalmente funcionais

O Nano é bem pequeno, 3.100/1.495/1.655 mm (comprimento/largura/altura) com entre-eixos de Fusca, 2.400 mm.  O diâmetro mínimo de curva é de 8 metros e o vão livre do solo, nada menos que 180 mm. Pneus, 155/65-12 com rodas de aço fixadas por três parafusos.

Os dados de fábrica indicam velocidade máxima de 105 km/h mas a aceleração 0-100 km/h não é inforrmada. Estimo algo na faixa de 35 segundos. É um mero meio de transporte sem qualquer pretensão de desempenho, percebe-se logo isso nos primeiros quilômetros. No velocímetro, bem no centro do painel e em posição elevada, há uma faixa verde de 50 a 70 km/h. Bem em linha com o Citroën 2CV, que com o primeiro motor de 375 cm³ e 9 cv só chegava a 80 km/h.

O câmbio é de quatro marchas com comando a cabo e os engates estão dentro da média. A carga do pedal de embreagem parece a de um platô cansado, de tão baixa.

Notáveis a posição de dirigir, a ergonomia e o espaço no banco traseiro. O pedal do acelerador é idêntico em forma e desenho ao dos primeiros Passat, sem sapata de borracha. Punta-tacco, perfeito. Não medi o volante, mas está ao redor de 360 mm.

O acabamento é ultra-simples, tudo plástico, mas o visual é razoável. Os bancos dianteiros têm formato até surpreendente, abraçam relativamente bem o corpo. É um carro de quatro portas  e elas  permitem bom acesso na frente e atrás.

Por incrível que pareça, não há porta de carga.na traseira. Acessa-se o mínimo compartimento atrás do banco traseiro de apenas 80 litros, que chega a 500 litros com o encosto rebatido. No que seria o porta-malas dianteiro, espaço apenas para o estepe, cilindro-mestre com servo-freio.e reservatório de água do limpador de para-brisa.

Não há tampa traseira para carga; a saída do escapamento é central

Dinamicamente, nenhuma crítica. A suspensão independente nas quatro rodas - dianteira McPherson e traseira por braço arrastado - cumpre bem seu papel para uso a que o Nano destina. Mesmo alto, as bitolas 1.315/1.325 mm dianteira/traseira ajudam bem no comportamento. Para comparação, no Fusca eram 1.315/1.355 mm. Percebe-se um pouco de rolagem nas curvas, mais em razão da elevada altura, mas nada que preocupe.

O motor, funcionmento, tem o ruído característico de todo bicilíndrico, mas incomoda muito pouco. O nível de vibração incrivelmente baixo, mesmo sem árvore de balanceamento.

Os emblemas Nano e Lx; há duas luzes de ré

O tanque de combustível é "de motocicleta", apenas 15 litros, mas pelo baixo consumo médio de 22,7 km/l dá para rodar mais de 300 quilômetros entre reabastecimentos. Autonomia de moto!

O preço do Nano LX é 3.500 dólares. Se fosse importado, o preço público seria 7.175 dólares. na concessionária  Ao câmbio de hoje, 11.500 reais. Não se toma chuva e para estacionar, moleza.

Como dizia anúncio do Fusca nos Estados Unidos nos anos 1950, "O seu melhor segundo carro mesmo que você não tenha o primeiro". E o Nano seria o primeiro carro de muita gente. Que a base da pirâmide iria se alargar, e muito, não tenho a menor dúvida.

Ter o Nano sido o rei em Boxberg não foi por acaso.

BS

30 comentários:

  1. Muito legal esse Nano, ele cumpre a risca o que promete, e as críticas que recebe são infundadas, o Nano foi idealizado para que o o povo indiano possa trocar a moto por um carro e para este quesito ele cumpre o que promete, aliás no meu Blog postarei as fotos da miniatura do Tata Nano LX que comprei essa semana, dê uma passada lá Bob, garanto que gostará de outra miniatura... os dois Fitti fuscas que pedi para fazerem para mim, estão sensacionais, só me falta o autografo do rei Emerson nelas para eu morrer feliz. Tenho um Alpine aqui esperando a vez de ser customizado como carro de corrida, adivinha o que farei com ele?

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  2. Acho que por pressão da indústria "nacional" esse carrinho não chegaria por menos de 20 mil Reais. O que me preocupa nele são os vários casos de incêndio relatados. Nesse caso, eu prefiro um carrinho kei japonês, que acredito ser muito mais seguro, muito mais bem construído e também muito econômico.

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  3. Talvez ele não seja um hatch justamente por contenção de custos.
    Ficaria mais caro adequar a estrutura da carroceria para obter uma rigidez torcional adequada.
    Daí o acesso ao bagageiro ser igual ao do Fusca.

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  4. Ops! O acesso ao bagageiro não é igual ao do Fusca, é parecido, pois pelo menos nesse dá para rebater o banco.

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  5. Anônimo 12/6 10:40
    Não é só Nano que pega fogo. Um carro que tem um cavalinho rampante no para-lama dianteiro também...

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  6. Bob, verdade, lembrei daqueles casos da Ferrari 458 Italia, que inclusive motivou um recall, se não me engano. Sobre o Nano, não tenho lido mais notícias sobre incêndios, é possível que o problema já tenha sido resolvido. A proposta desse carrinho é bem interessante mesmo, mas ainda assim acho que não compraria um.

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  7. Johnconnor (Old rocker)12/06/11 12:45

    Muito legal mesmo esse Nano,não deve demorar para os insatisfeitos de plantão começarem a por rodas de liga aro 13, endurecer a suspensão, melhorar os freios e envenenar ou substituir o motor original transformando o carrinho em bólido.Ainda mais que o preço dele é baixo e acredito que possa receber várias adaptações com peças de moto.Agora já imaginaram o que aconteceria se ele chegasse no Brasil custando R$11.500,00 e que apenas um quinto dos motociclistas resolvessem trocar suas magrelas por Nanos? Sim pois afinal ele leva o dobro de passageiros e carga de uma motocicleta com muito mais conforto e segurança pelo mesmo preço e gastando igual ou pouca coisa a mais.Pra muita gente trocar sua motocicleta por um Nano seria um negócio da China(ou da India).Agora imaginem só um em cada cinco motociclistas fazendo essa troca, nosso cáos diário seria elevado á décima potencia.

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  8. Rômulo Rostand12/06/11 13:12

    Compraria um Nano para o uso urbano, sem nenhuma dúvida. O carro me parece estar depurado e a impressão que tenho é de que as notícias de incêndio nos primeiros veículos foram intencionalmente desproporcionais e severamente alarmantes.
    A simplicidade, leveza e tamanho reduzido aliados ao fácil acesso e boa posição de pilotagem e ergonomia são fortes atrativos para utilizá-lo no deslocamento para o trabalho, faculdade e pequenas compras, onde as velocidades são baixíssimas, as distâncias relativamente curtas e geralmente estou sozinho no carro.

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  9. Johnconnor
    Duas coisas. Não se pode pensar apenas nos grandes e congestionados centro urbanos, há outros usos para o automóvel. Outra, moto e bicicleta sào muito bons do ponto de vista de agilidade, isso é indiscutível, mas há o problema de chuva e do transporte de crianças. Só carro resolve.

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  10. Também tive a oportunidade de conhecer o Nano, não cheguei a andar, mas passei hora e pouco analisando detalhes de construção e projeto, a proposta desse carro se confirmou honesta, mas tenho sérias dúvidas se ele faria sucesso aqui, da maneira como concebido, as mudanças seriam tão extensas que o preço saltaria e perderia o atrativo principal.

    MAS

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  11. Ah, seu AC é Behr, Bosch talvez seja o motor elétrico do blower.

    MAS

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  12. Johnconnor(Old rocker)12/06/11 13:52

    Bob Sharp
    Concordo com vc,não quis dizer que sou contra a vinda do Nano á baixo preço mesmo porque isso ajudaria a acabar com alguns absurdos que se vê por aí, tipo gente transportando crianças e até bebês ou pequenos animais em motos.O problema é que quase não se tem investimento nem ações práticas no sentido de desafogar o transito das cidades grandes e médias e que apenas um pequeno aumento da frota aumentaria exponencialmente o problema.Não quero desvirtuar o Post pois esse assunto já foi amplamente discutido aqui por pessoas muito mais habilitadas que eu no assunto mas acho que além de todo o investimento que há por fazer o governo poderia oferecer um incentivo(como na França) em dinheiro pra quem quiser trocar um carro com mais de, digamos vinte anos, por um zero.Isso ajudaria a tirar as tranqueiras da rua e melhorar a qualidade do ar.O Nano seria perfeito nesse sentido.Abração

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  13. Johnconnor (Old rocker)12/06/11 14:38

    Ótimo video do carrinho em ação

    http://www.youtube.com/watch?v=3sZitve3SUw

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  14. Gurgel tentou, mas não teve apoio...

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  15. Johnconnor
    Bom vídeo, o jornalista gostou do carro.

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  16. Romero Florio
    Concidência, será o tema da minha coluna na revista Carro de julho. Estou escrevendo-a nesse instante.

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  17. Rômulo Rostand12/06/11 21:26

    Um vídeo mostrando e explorando múltiplos aspectos do Nano e que me deixou muito boa impressão em relação a praticidade, espaço e agilidade:

    http://www.wat.tv/video/essai-tata-nano-automoto-fr-1pyds_2flv9_.html

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  18. Aléssio Marinho13/06/11 00:02

    Sempre admirei o Nano pela sua proposta. Um carro simples e racional, como a gente precisa para se locomover no cotidiano.
    Tem q ser prático, com comandos leves, ter ar e algum conforto.
    Semana passada fui conhecer o QQ. Fiquei surpreso com o conforto do carrinho, o acabamento q lembra os japoneses da decada de 90 e o grande espaço interno.
    Atualmente, acho que esse é o que mais chega perto do Nano na proposta no nosso mercado.
    Só tinha que baixar o preço.

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  19. Grande Bob, parabéns pela excelente matéria! Devo falar aos amigos seguidores do AUTOentusiastas, a sensação de ser passageiro em um Tata Nano pilotado por ninguém mais, ninguém menos do que o Bob Sharp é indiscritível! Tenho fotos do mestre em plena atividade! Aliás as fotos estão num pendrive e te entrgaria hoje Bob, mas você foi mais rápido e postou!
    Só tenho a acrescentar que o Nano é um carro dedicado a ser meio de transporte popular e nisso cumpre bem seu papel, a inspiração dele é clara em outros veículos populares que já circularam por aqui! Na minha opinião vale matéria disso também rsss...
    Abraços,
    Portuga Tavares

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  20. jackie chan13/06/11 08:51

    Em fóruns indianos, a maioria dos que testaram ele acharam bem pior que o concorrente mais próximo, que é da Suzuki local. Está sendo é uma grande decepção em vendas.

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  21. Tenho muita simpatia pelo Nano. Acho o conceito dele genial. Diria que é um Gurgel BR800 reengenheirado da maneira certa!

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  22. Ronaldo Nazário13/06/11 14:07

    Carro de pobre!

    Bom pra dar pros garotos!

    Sabem como é de uns tempos pra cá uns sobrinhos de uns primos estão morando comigo, na minha casa, quarto, banheiro... ai, ai, ai...

    Se esse carinho existisse, a Bianca não precisaria tomar conta dos documentos do meu carro... ela já levava o dela!

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  23. Bob, como funciona essa ignição tipo centelha perdida?

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  24. Para quem acha que o carro é inseguro, a versão europa ganhou 4 estrelas no NCAP europeu. Lembrem que quanto menor o carro, mais difícil para ele passar no teste.
    O link do vídeo é esse: http://www.youtube.com/watch?v=R1FckXItYbo&feature=player_embedded
    Agora, se for vender a versão Europa aqui, seria uma proposta interessante. A Fiat e a Nissan pretendiam vender esses ultra-low-cost´s, mas desistiram porque brasileiro é metido a besta e quer comprar carro de gente bacana, para poder arrotar orgulhosamente o caviar derivado do pão com mortadela comido com "suco de laranjo".

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  25. Portuga
    Agradeço suas palavras. Foi mesmo muito legal dirigir o Nano em Boxberg. Quando eu puser as mãos nas fotos que você tirou, coloco-as no post. Essa é uma grandes vantagens da internet!
    Abraço.

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  26. Jackie Chan
    "No one is a preacher in its own land", ou "Santo de casa não faz milagre". Realmente, o carro não estar indo bem de vendas na Índia é intrigante.

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  27. Anônimo 13/6 16:47
    A centelha perdida é a maneira de descrever um sistema de ignição em as duas velas de um motor de dois cilindros disparam ao mesmo tempo. Uma centelha é aproveitada para produzir a inflamação da mistura ar-combustível; a outra é simplesmente perdida, literalmente jogada fora. É dada logo antes de a válvula de admissão abrir. Com a centelha perdida não é necessário distribuição de centelha.

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  28. Rômulo Rostand13/06/11 21:07

    Bob Sharp,

    Sobre centelha perdida, me faz lembrar o motor das antigas Honda CG 125 com comando no bloco, uma centelha a cada volta do virabrequim.

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  29. Interessante!

    Bob, esse sistema de centelha perdida, não causa pré detonação?

    Sei que, a princípio, uma é diferente, mas hipoteticamente falando e, se for possível, essa "centelha perdida" com um pouco de combustível, não seria suficiente para tal evento, o da pré detonação? Não colocaria o motor em risco de dano?

    Com esses pneus diminutos ele deve sofrer um bocado nos buracos, não?

    Agora, por ele não ser tão bem aceito em casa, e ter atenção na Europa, acredito que deva ser porcausa do "rótulo" de carro pé de boi, que nem aqui deu certo.
    Já para o europeu, pelo menos para os jornalistas, deve ser um carro exótico e curioso, como vários que lá nascem e, ficam por lá mesmo.

    Um abraço,
    Talles

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  30. Eu quero um Gurgel.......

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