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28 de julho de 2011

LEYLAND P76

Fotos: Wikipedia (Ferenghi) ; CarsAroundAdelaide ; The Motor Report


Existem carros que chamam a atenção por serem belos, ou terem um desenho puro, ou até mesmo por serem absolutamente impuros, verdadeiras confusões de estilo. O Leyland P76 é um australiano destes.

Talvez por ser absolutamente convencional, com alguns detalhes que o tornam um pouco diferente do normal para 1973, quando foi lançado. Se é bonito ou feio, é opinião de cada um.  Principalmente porque bonito ou feio é absolutamente pessoal e assim, terreno ruim de discussão.

Bastante interessante pela mecânica nas versões com motor de oito cilindros em “V”, tem seus fãs na Austrália e Nova Zelândia, até hoje, trinta e cinco anos após o fim de sua produção.

Cerca de 90% do carro era fabricado com peças australianas, o que facilitava a manutenção para os nativos. A Leyland tinha, na época, além de fábrica, departamentos de engenharia e estilo na Austrália, e o projeto todo custou menos de 20 milhões de dólares australianos.

 Todas essas vantagens, que eram ótimas para a fábrica, foram as mesmas que acabaram por fazer o carro pouco querido pelo mercado de forma geral. Mas entusiastas sabem que, na maioria das vezes, o mercado pode ser um pouco burro.



Foi a última tentativa de recuperar a Leyland Australia, já acossada por Ford e Holden de maneira intensiva.

Antes do P76, todo o trabalho da Leyland australiana havia sido sempre adaptar carros ingleses para o mercado local, o que poderia ser simples, mas não era.

A Austrália permitia um uso de automóveis por grandes períodos a alta velocidade, coisa que no Reino Unido não ocorre, por absoluta falta de espaço.

Além disso, a poeira do interior australiano também é algo muito mais abrasivo do que a encontrada na Inglaterra, e em quantidades muito maiores. O Outback deles é vasto, com muita terra avermelhada, que, bem fina, se comporta como algo similar a uma lixa em pó, que acaba por desgastar rapidamente peças de borracha. E isso, sabemos, afeta  retentores, levando a vazamentos em vários pontos se não houver manutenção constante.

Para o P76, cuja sigla não tem explicação a não ser um suposto Project 1976, não deveria haver nenhuma mágica ou grande novidade.

O conceito de um carro que deveria enfrentar concorrentes fortes teria que ser similar ao destes. Carroceria monobloco, quatro portas, grande e com bom espaço interno.





Motores V-8 ou seis em linha e tração traseira através de eixo rígido. Câmbio manual e automático tinham que ser disponíveis. Suspensão dianteira, uma clássica McPherson. Exatamente a mesma coisa que Ford e Holden.

Embreagens, caixas de câmbio e eixos traseiros eram os mesmos BorgWarner fornecidos para as duas grandes, inclusive. Risco mínimo.

A coluna de direção era praticamente a mesma de um Chrysler Valiant, os freios traseiros muito similares aos dos Holden série HQ, os mecanismos de travas de portas iguais ao do Ford Falcon.

Haviam menos frescuras no quesito "propriedade industrial", e assim, componentes podiam ser usados em mais de uma marca. Isso ainda ocorre atualmente, mas é muito mais invisível para o usuário. Bom para a manutenção.

Havia freios a disco na frente e barras de reforço dentro das portas, algo ainda novidade em projetos automobilísticos nessa época. Aliás, é importante registrar que a carroceria completa do P76 tinha apenas cinco peças de chapa de aço a mais que um Mini, algo espetacular para um carro grande.


O estilo do carro, porém, foi definido pela British Leyland , a matriz, baseado em criações de Michelotti para a Rover, mas que nunca foram aplicadas. Um caso de reciclagem de ideias de estilo.

Foram porém, alteradas a parte dianteira, feita mais alta para acomodar motores grandes e radiadores de grande área, e a traseira, onde um bom porta-malas era necessário. Inacreditavelmente, um tambor de aço de 44 galões imperiais, ou 200 litros, cabe lá dentro.



O V-8 tinha bloco e cabeçotes em alumínio, uma primazia na época, pois foi o primeiro a ser feito na Austrália. Derivado do famoso Rover V-8 de aluminio, mas com deslocamento maior, de 4,4 litros,  quase não tinha peças intercambiáveis com o famoso motor que durou décadas, e ficou famoso por ser praticamente um projeto que a Buick fez, mas não usou. Um erro básico, perder a possibilidade de trocar peças entre marcas derivadas, justamente no motor.

Esse tipo de definição errônea é prejudicial ao produto a longo prazo, obrigando carros ainda bons a usarem apenas peças originais, que quase sempre são muito caras.

Esse motorr tinha cerca de 50 kg a menos que os V-8 de Holden e Ford, e era mais econômico. Com 199 cv fazia o carro andar com folga a 160 km/h, e foi o ponto mais notável do modelo, passados alguns problemas de infância no coletor de admissão, principalmente.

Pela facilidade de condução em pisos soltos dos tração traseira, e boa potência, chegou até mesmo a ser usado em provas de rali em asfalto e terra.



O mais improvável para um carro australiano, porém, foi participar do Rali da Copa do Mundo de 1974, ocorrido na Europa, e ser o mais rápido no trecho percorrido na Sicília. Esse trajeto era o mesmo da famosa corrida Targa Florio.

Para comemorar, a Leyland fez a versão com o nome dessa corrida, sendo esse o modelo mais cobiçado pelos admiradores desse carro. Foram apenas trezentas unidades.





Um modelo que chegou a ser anunciado, mas não foi produzido devido às dificuldades da empresa foi o Force 7, chamado de cupê, mas que na verdade é um hatch, pois a tampa traseira abre com o vidro. Foram feitas cinquenta e seis unidades, mas sobraram apenas oito, vendidas em leilão. As demais foram destruídas pela fábrica, para valorizar os oito que seriam vendidos. Uma atitude lamentável, que explica em parte o insucesso da empresa, pela mentalidade particular, para dizer o mínimo.

As fotos desse exemplar abaixo são do Museu Nacional de Motores e Veículos, em Birdwood Mill, e é daqueles carros que nos fazem pensar como há coisas nesse mundo que não conhecemos, apesar de todo o tempo que dedicamos aos automóveis.



O P76 sedã foi produzido em pequeno número, pouco mais de 18 mil carros, de 1973 a 1976, e não salvou a empresa. As dívidas eram grandes, e a Leyland Australia encerrou a produção em outubro de 1974. Continuou a ser feito na Nova Zelândia até 1976, quando morreu definitivamente.

Como ocorreu e ainda ocorrerão com outras marcas que desapareceram, sobram os entusiastas para manterem as máquinas vivas, e, se for como na foto abaixo, ainda fazendo bonito em provas específicas para carros antigos.



JJ

12 comentários:

  1. Eurico Neves Jr.28/07/11 10:40

    O Leyland P76 está no divertidíssimo livro "Lemon!: Sixty Heroic Automotive Failures".

    A venda na Amazon:

    http://www.amazon.com/Lemon-Sixty-Heroic-Automotive-Failures/dp/1560257571/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1311860340&sr=1-1

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  2. Por suas características e local de origem, esse carro me faz lembrar o primeiro filme Mad Max.

    Mister Fórmula Finesse

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  3. Ronaldo Nazário28/07/11 12:16

    O carro do Mad Max era um Maverick com kit Predator...

    E o Mad, ai... O Mel, ai, ai... tava um gato...

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  4. O carro do Mad Max não era um Maverick, mas sim o irmão de plataforma Falcon XB Coupe:

    http://www.madmaxmovies.com/mad-max/mad-max-cars/index.html

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  5. Juvenal

    Com relação à denominação desse carrão,ele segue a tradição dos Rover anteriores da série "P".(O Pai teve um P4)
    Houve um P7 inglês,apenas como designação de uma "mula" do P6 com capô alongado para acomodar um motor 6 em linha, derivado do 4 cilindros de 2 litros;houve tambem um P7A,qdo. "descobriram" q.o seis cabia no capô do P6,mas o carro ficava com a dianteira muito pesada...Foi só aí q. ,eureka!,enfiaram nele o V8 3,5 Buick,muito mais leve,potente e refinado, sem problema de espaço. Arre!
    A sigla passou para o projeto australiano.Como ele adotou,na versão australiana, o desenvolvimento do V8 q. equipava o P6 3,5 litros ,provavelmente teria sido originalmente o"P7/6"
    A concepção desse modelo me faz pensar na expressão muito em moda atualmente-"para mercados emergentes", uma vez q.a sua simplicidade é um enorme contraste com a sofisticação técnica dos modelos Rover da metrópole,apesar de estar bem adequado à realidade local
    (Mais)uma parte triste (e besta) da história da Leyland foi a criação do Morris Marina (tão elementar e rústico quanto o P76),como substituto,no mercado europeu, dos mais sofisticados projetos de tração dianteira de Alec Issigonis-alguns deles desenvolvidos...na Austrália!
    O V8 Rover 4,4 litros foi cogitado para exportação para o Reino Unido, para equipar os Range,mas a Leyland Australia fechou antes disso.


    Mr FF:

    Ele está lá,sim! Glorioso!


    abraço p/todos

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  6. Quando vejo um carro desses, só da vontade de trocar o meu palio em um Landau ou Dodge, que pena que pagamos tanto nos combustíveis. O que inviabiliza a minha ideia.

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  7. Pilotar um carro destes numa prova de Rallye de velocidade deve ser um desafio e tanto!
    Muito legal!

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  8. João Gabriel28/07/11 19:42

    Uma tentativa anglo-australiana de se fazer um muscle car...Interessante...Eu teria um sem problemas...rsrs

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  9. JJ,
    Mais um modelo que eu não conhecia. A Oceania é mesmo um local de "espécimes" exóticos, ainda pouco conhecidos por nós ocidentais.
    Permita-me transcrever parte do comentário que fiz no seu post "Australianos Especiais", pois também se encaixa perfeitamente a este contexto:
    "As ilhas isolam os 'espécimes', tornando-os cada vez mais adaptados, criando 'organismos' cada vez mais complexos e impressionantes, que não podem ser encontrados em nenhum outro habitat."

    Abraço.

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  10. São histórias desse tipo que me fazem ter mais vontade de conhecer a Austrália.

    Marlos
    Isso me lembra um episódio d'Os Simpsons em que o Bart larga uma rã lá e o país fica infestado.

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  11. São artigos como esse que me fazem acessar o AE diariamente, muito legal!

    Curti em especial a foto do último exemplar - qual carro que não fica bonito ao ser fotogrado com suspensão baixa de competição, pneus tala larga e uma leve rolagem no meio da curva?

    Sobre a Austrália acho que vale um artigo sobre o Rally "Targa Tasmania" (chuto que provavelmente a ocasião onde essa última foto foi tirada) já abordado quando o PK falou sobre o filme LOVE THE BEAST aqui: http://autoentusiastas.blogspot.com/2010/08/ame-besta-e-seja-feliz.html

    []'s e mais uma vez parabens!

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  12. Joel,
    Muito bem lembrado, esse episódio é hilário.

    Transeunte,
    Assisti a esse filme, realmente muito bom. Mas, achei ingênuo eles terem preparado o motor e a carroceria do carro para a competição e terem mantido aquele anacrônico sistema de suspensão...

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