16 de julho de 2011

MEHRZWECK UNIVERSAL GELÄNDEWAGEN ALLRADANTRIEB*

*Veículo universal multiuso todo-terreno de tração integral
Em 1956, o exército alemão abriu concorrência para o fornecimento de um veículo utilitário tipo jipe que seria usado também pelas forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Três fabricantes concorreram: Porsche, Gutbrod e DKW. Venceu a proposta deste último, mais conhecido na Alemanha por Munga, acrônimo do nome complicado do título. Foi fabricado no Brasil de 1958 a 1962. 

No começo se chamava Jipe DKW-Vemag, mas em 1960, teve de mudar de nome devido a "Jeep, jipe" serem nomes  de propriedade da Willys-Overland. A Vemag aproveitou e rendeu homenagem aos trabalhadores que construíram a cidade inaugurada em 21 de abril daquele ano: Brasília. O veículo passou a se chamar Candango, em versões Candango 4 e Candango 2, o número indicando se tração nas quatro rodas ou nas rodas dianteiras somente.

Em agosto de 2009 falei no jipe DKW como tendo dado origem ao Audi Quattro, vale a pena ler ou reler essa história incrível. Agora será falado mais a respeito desse eficiente utilitário.

O fato mais peculiar do jipe DKW era o motor de três cillindros dois-tempos que requeria adicionar óleo à gasolina para a sua lubrificação. Seu ruído era peculiar e muito parecido com o do carro da marca, havendo uma ligeira diferença devido ao formato do escapamento. Em vez de cilíndrico e comprido era circular, e por isso era apelidado de banjo

Diferentemente do sedã, o radiador ficava bem na frente, como em todos os carros, e o dínamo era montado sobre o cabeçote em vez de no bloco, embaixo, para imunidade à água. A mesa ruptora com os três platinados e três capacitores ficava num carcaça vedada com tampa e junta de borracha, fixada por chapa-mola e duas porcas-borboleta, que permitia submersão. No sedã era apenas uma simples tampa de borracha encaixada, mas logo foi adotada a carcaça do Candango em todos os modelos devido às costumeiras enchentes aqui.

O motor começou de 896 cm³ e depois de dois anos passou a 981 cm³, a potência subindo de 38 para 44 cv. Também diferente era o carburador, Zenith duplo 32 NDIX, enquanto nos automóveis era um Solex 40 ICB de corpo único.

Notáveis mesmo eram a transmissão, o chassi e as dimensões. O transeixo dianteiro de 4 marchas incorporava caixa de redução de relações 1,00:1 e 1,60:1, que combinado com a primeira 3,82:1 (não sincronizada) e com diferencial 6,33:1, resultava em 38,8:1 de redução total. em primeira. A ré total era 46,5:1. A reduzida era comandada por cabo a partir de uma maçaneta no painel de puxar e girar para travar, de uso bem fácil. Com peso de apenas .1.085 kg a capacidade de subida impressionava, superava rampas de 70% em primeira reduzida.

Do transeixo saía um cardã para o diferencial na traseira. e o freio de estacionamento era a tambor no cardã, antes do diferencial. Significava que se tinha um freio de emergência de atuação nas quatro rodas.

A tração integral era permanente e sem diferencial central, possível pelo entre-eixos  bem curto, apenas 2.000 mm. Só em esterço máximo se notava o jipe prender ligeiramente. Não havia bloqueio nos diferenciais e isso poderia trazer problemas em desníveis de piso acentuados, da mesma forma que no Jeep Willys. Mas foram veículos planejados mais para lama, areia e neve, bem como para rampas fortes. Os pneus eram lameiros tipo militar 6,00-16, cuja pegadas não identificam sentido de marcha do veículo (na batalha, o inimigo não tinha como saber o rumo do veículo)..

O chassi tipo escada trazia suspensão independente na frente e atrás bsolutamente iguais, com triângulo inferior e feixe de molas transversal servindo como braço superior, como na suspensão dianteira do sedã.

As dimensões eram mais que adequadas, 3.445 mm de comprimento e 1.810 mm de largura, era bem "quadrado" e acomodava quatro adultos com folga em quatro bancos individuais. A altura até o para-brisa era cerca de 1.700 mm. O para-brisa basculava completamente e dirigi-lo assim era uma delícia.

A velocidade máxima era de 100 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em cerca de 35 segundos. A suspensão não tinha nada de dura e por ser totalmente independente o jipe copiava bem o solo, sem os pesados eixos motrizes rígidos para pular. Como não tinha as carcaças de diferencial aparentes, por serem suspensos, era muito difícil ficar preso na lama ou areia. O comportamento era neutro e permitia abuso nas curvas, apesar dos pneus lameiros. Era muito bom da andar mesmo.

Chegou um momento em que a Vemag não conseguia mais importar da Alemanha, com facilidade,  transeixo e o diferencial, que eram ZF, e resolveu criar uma versão simplificada, o Candango 2, de tração dianteira somente e com alavanca de câmbio na coluna de direção em vez de no assoalho. O veículo perdeu o que tinha de melhor.

Quando a Volkswagen comprou a Auto Union em 1965, fez mudanças no Munga. Colocou um motor de família 827 (AP aqui) de 1.700 cm³ e 75 cv e trocou o transeixo por um de cinco marchas sem reduzida, mas com primeira e ré de força, bem curtas, solução idêntica à do jipe Envemo, hoje Agrale Marruá. Modificou a dianteira, passando os faróis a serem integrados aos para-lamas e o resultado foi mudança de nome para VW Iltis, modelo que foi fabricado até 1996.



Ficou ainda melhor, velocidade máxima de 130 km/h e 0-100 km/h em 21 segundos. A tração traseira era desligável e os diferenciais eram autobliqueantes. Ficou mesmo um Super Munga.

BS

14 comentários:

  1. Não por acaso que o Jorge Lettry disse que foi o melhor carro-esporte que ele já tinha dirigido.

    Já pensou se a DKW-Vemag tivesse tido a ideia de fazer "a proper sportscar" 4x4?

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  2. Quando eu li o título do tópico logo pensei que era sobre o Mercedes
    G, mas depois eu vi que era sobre um outro Geländewagen.

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  3. Bem, logo no título... já tive uma dificuldade em ler oque alí está escrito! ( Desafio alguem a ler isso rapidamente com a boca cheia de farofa! )... Enfim, bricadeiras a parte, gostei de saber sua História. Imagino a versatilidade do jeep! Falta algo do gênero nos dias atuais...

    Henrique.

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  4. Bob,

    Aqueles VW Thing que a gente vê em filmes americanos são decendentes do Munga ou do Kubelwagen? Pq em um ou outro filme dá para escutar o barulho do motor a ar, mas como vc disse o Munga da VW tem motor AP. Outra são os farois separados do paralamas, ao contrario do Munga da VW.

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  5. Blog do Eduardo
    O VW 181, ou "The thing", é derivado do Kübelwagen. Foi feito para ficar parecido mesmo.

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  6. Sr. Sharp

    A Auto Union desenvolveu um V6 de dois tempos,1000-1300cc,pensando em usá-lo inclusive no Munga "espichado"(é,tem um modelo de chassi longo!),além de outros projetos q.rolavam na época(possivelmente o F-102,o cupezinho Monza,etc.)

    Negócio seguinte: lembro q. o Maks Weiser comentou que q.a Vemag tinha trazido uns poucos desses para o Brasil;pra quê exatamente,nunca soube.

    Eu estou ha muito tempo troncho de vontade de ver essa trozobinha maravilhosa (enquanto posso) Mas,parece q. tem uma "conspiração do silêncio"em torno disso,q.coisa!
    Alguem sabe algo,ou pelo menos dá uma pista sobre? Ou seria,no fim das contas,só mais uma lenda urbana?

    Abs...

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  7. A história do motor DKW V6, denominado Mueller-Andernach, é fascinante e amplamente conhecida. A Internet dispõe de inúmeros artigos a respeito, inclusive um deles que foi revisado pelo Bob Sharp. E a propósito: Mehrzweck Universal Gelaendewagen mit Allradantrieb significa Veículo Fora-de-estrada Universal com Tração nas 4 rodas para Uso múltiplo. AGB

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  8. AGB

    agradeço a sua gentileza,mas acho q. V.não me entendeu.
    Já li praticamente tudo q.achei na Web referente ao assunto em inglês,alemão,francês,italiano, espanhol,até português-russo,tcheco e polonês eu não manjo nada...Será q.a matéria q.busco me escapou?
    O q. estou procurando é o possivel rastro dessa peça tecnológica AQUI no Brasil.Depois q.o Lettry se foi,a coisa ficou ainda mais ruça; minha esperança é o Sr.Sharp
    Se fosse possível,queria até botar a mão nela...
    Pode ajudar? Agradeço de qqer.forma

    abraço!

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  9. Caro Bob, Parabens pelo texto... sou um apaixonado pelo DKW ( Pequena maravilha alemã ) - meu Pai tinha uma Perua DKW ano 1959 motor 900 cc - ( cambio longo ) ,,na minha adolescencia eu curti muito essa marca,,Me lembro do Luiz "Turbina" ,, testando os Candangos,certo dia la pelos anos 60 dei uma volta com ele dirigindo,,- o que ele fazia com o Candango era inacreditavel !! pensava que ia campotar,, mas ,a estabilidade do carrinho era fantastica,, alias tens noticia do L.Turbina ? abs,, " Águia" from Floripa

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  10. Ele foi fabricado até 1996? Puxa, nunca imaginaria, vivendo e aprendendo...

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  11. Bob, há fontes na internet que dão como encerramento da fabricação 1988. Qual data é correta?

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  12. Anônimo 25/7 11:16
    Vi em algum lugar, há tempo, a informaçào de 1996. Oportunamente busco outras fontes.

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    1. Bom dia.
      Interessante saber que o Iltis também chegou ao Brasil.
      Foi com base no Iltis que foi criado o famoso Audi quattro. Em testes no circulo poçar artico, engenheiros da Audi repararam que o Iltis era mais rápido em troços de neve do que os grandes e refinados sedãs Audi que estavam em teste... daí ao Audi Quattro foi um pulinho.
      O Ilts deixou de ser produzido pela VW em 1988, tendo todas as ferramentas de fabrico sido vendidas à firma Canadiana Bombardier, que continuou a produção, chegando mesmo a aplicar um motor DIesel turbo (VW Golf)á produção do Bombardier Iltis parou então em 1996.
      O iltis era um jipe de tracção traseira, com possibilidade de engrenar o eixo dianteiro, dispondo na versão civill de um sistema elétrico de 12V e bloqueio do diferencial traseiro, enquanto na versão militar tinha 24V e também bloqueio do diferencial dianteiro.
      PAra terminar, relembrar que o Iltis foi o primeiro automóvel a ganhar o Paris-Dakar (1982)

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