24 de outubro de 2012

MG SV-R

Fotos: Supercars.net, exceto onde indicado

Um cupê esportivo único

A marca britânica MG, Morris Garages, anteriormente ao fechamento da fábrica de Longbridge em 2005, tinha carros que eram pouco atrativos ao mercado local. Basicamente Hondas modificados e com estilos externo e interno próprios. As marca MG e Rover eram produzidas sob o mesmo teto, nessa muito antiga instalação.

Rapidamente, já em 2007, a MG foi ressuscitada pelos chineses da SAIC Motors, que sabiamente retomaram algumas atividades de montagem e de desenvolvimento em parte da antiga fábrica, já no ano seguinte. Dos MG atuais, os componentes são fabricados de verdade na China, mas não há como dizer que a marca é do Reino Unido se não fosse feito algo por lá mesmo. Ponto positivo para os chineses, mesmo não tendo mantida a fabricação completa por lá. O quanto de conteúdo local cada modelo tem, hoje, é difícil saber ao certo. Boa parte da montagem, porém, é feita em solo da Rainha.

Como um parênteses, é interessante pesquisar sobre a instalação fundada em 1905. Essa tem um histórico extenso de fabricação de carros de várias marcas e após seu fechamento uma coleção de fotos impressionantes foi colocada na rede de computadores. Podemos vê-las nesse link

Depois de ver essas fotos, ficamos felizes de saber que hoje ela tem vida novamente, mesmo que apenas parcialmente ocupada. Quem sabe o futuro seja mais brilhante, e vejamos novamente carros ingleses feitos na Inglaterra?




Mas nos meses antes da falência e fechamento, saíram de lá alguns MG SV-R Xpower, um carro inglês, com motor americano, oriundo de um projeto italiano que foi originalmente projetado pela empresa de um argentino.

A base de partida desse projeto foi o Qvale Mangusta, muito similar ao DeTomaso Biguá. Uma história cheia de meandros, mas que, resumidamente, pode ser descrita como mais uma tentativa de utilizar com sucesso um projeto que nunca viu sucesso algum. O que havia de bom em se usar esse Mangusta moderno, é que ele havia sido certificado para o mercado americano, o que já dava uma vantagem enorme logo de saída, já que bastava manter os elementos de construção conforme estavam permitidos para venda no maior mercado de todos na época.

DeTomaso Biguá


Qvale Mangusta

A DeTomaso tem uma história interessante devido principalmente às habilidades de negociação de seu fundador. As atribulações da empresa estão bem explicadas neste texto do Marco Antônio Oliveira.

Após a saúde de Alejandro de Tomaso decair, e com a sua família não mostrando nem uma pequena sombra de sua habilidade para os negócios, a empresa foi assumida por Kjell Qvale, um norueguês que foi fazer a vida nos Estados Unidos em 1929, e se tornou um grande vendedor de carros, um dos mentores da idéia do Jensen-Healey, fundador do Salão de Automóveis de São Francisco e o importador exclusivo de várias marcas britânicas, entre elas Jaguar, Rolls-Royce, Austin, e claro, MG. Ao assumirem a DeTomaso, criaram rapidamente o Mangusta, um nome já usado pela empresa de Alejandro, como contei aqui, utilizando o Biguá para esse trabalho. Os carros são muito similares, e gostos à parte, detêm um visual pouco interessante.

A MG Sport & Racing adquiriu os direitos da marca DeTomaso da família Qvale no final de 2000, já planejando o aproveitamento do Biguá com brasão da Morris Garages, e trabalhou com muitos atrasos até apresentar o SV no final de 2003.


O MG SV-R foi desenhado por Peter Stevens, apenas e tão-somente o camarada que anos antes havia materializado as idéias de Gordon Murray em forma de um carro chamado singelamente de F1, feito por uma pequena fábrica chamada McLaren. Para mim, esse currículo já era de bom tamanho.

Stevens conseguiu um milagre, dado o carro de onde partiu o trabalho. Ao menos não pediram para ele manter algo que fosse muito duvidoso, e soube bem realizar um carro chamativo, com as saídas de ar nos pára-lamas dianteiros imitando guelras de tubarão sendo o elemento mais notável do desenho.

Foi chamado de X80 na fase de projeto, e precisou obrigatoriamente ser influenciado pelo baixo custo, já que a empresa vinha passando por falta de caixa há muito tempo. O valor gasto no desenvolvimento foi algo por volta de 10 milhões de libras esterlinas, pouco comparativamente a projetos automobilísticos normais, e explicado por ser uma extensa modificação de um carro que já existia.

O trem de força é interessante e muito prático no quesito manutenção futura: o Ford modular, aplicado no Mustang, um V-8 de 5 litros  em liga de alumínio e quatro válvulas por cilindro, do modelo Cobra. São 405 cv a 6.000 rpm e 52 m·kgf de torque a 4.750 rpm na versão mais interessante, a SV-R X Power.  Esse chegava a 100 km/h em 4,8 segundos, com velocidade final de 282 km/h, através das seis marchas de uma caixa Tremec. Como toda mecânica de carros de grande produção, obter peças é algo relativamente fácil. Sendo então um V-8 americano, melhor ainda. E se estiver fora do Brasil, as complicações absurdas desaparecem quase por completo, já que vivemos em um país hostil aos carros.

O Ford V-8, espremido no cofre. Foto: Classicar Garage net
A estrutura básica do Qvale Mangusta, produzido em pequeno número no ano 2000, não é tão óbvia, já que a bitola dianteira é 70 mm maior no MG, o que provoca várias outras alterações, como caixas de roda ampliadas para os lados sendo uma delas.

A MG escolheu discos dianteiros com 335 mm de diâmetro, 310 atrás, marca Brembo, bem como as pinças. Pneus são 225/40ZR18 na frente, 265/40ZR18 atrás. A suspensão é por braços triangulares superpostos,  tanto dianteira quanto traseira.

O engenheiro da ex-DeTomaso, Giordano Casarini, que trabalhou com essa estrutura desde o Biguá, foi o responsável pelo ajuste de suspensões do SV-R. Nesse ponto da história, notamos que o carro é o resultado de um desenvolvimento de muito tempo, dentro de três marcas diferentes. No total, foram nove anos de trabalho, contando com os períodos de interrupção causados pelas crises e mudanças nas empresas.


Os faróis são conhecidos aqui no Brasil: Fiat Stilo

Porta-malas pequeno, mas de fácil acesso

O chassis é de aço, com estrutura projetada com proteção de capotagem, dentro das normas da FIA (Federação Internacional do Automóvel, órgão máximo da autoridade do automobilismo).

Os painéis externos de carroceria são de compósito de plástico com fibra de carbono, bem como várias peças estruturais, como quadro das portas, formadas por peças unidas entre si na autoclave. Essa "casca" seguia para a Itália para serem montadas no chassis e formar a carroceria completa do carro.

A pintura sobre o plástico tem acabamento superior ao de outros carros feitos nesse material, considerada melhor que do Porsche Carrera GT, supercarro lançado na mesma época. Excesso de qualidade que escondia a alta tecnologia da carroceria, algo que não era bom do ponto de vista de mercado. Assim, foi decidido manter, nas colunas dianteiras e no quadro das portas, a manta de compósito sem acabamento, para que fosse visível facilmente.

A carroceria montada no chassis voltava para a  Inglaterra para receber o restante dos componentes. Caro, mesmo em se tratando de uma operação apenas dentro da Europa.

Quando um carro tem muitas saídas de ar quente no cofre do motor, notamos que a coisa é séria!
Mesmo com tudo isso de tecnologia e custo, o carro pesa nada magros 1.450 kg, dentro do esperado para um carro esportivo, mas muito alto ao se considerar grande parte da carroceria quase toda em compósito. Ponto negativo para o convívio diário e uso prático era o tanque de apenas 56 litros, um ponto positivo é um porta-malas bom para o tamanho do carro.

Custava 83.000 libras esterlinas, uns US$ 107.000 na época do lançamento, um bocado caro. Hoje é absoluta raridade, tendo sido construídos apenas 56 com volante de direção no lado direito e 23,  no esquerdo.



Estava planejada a instalação de um motor muito mais potente no SV-R. A MG, em mais uma ação visando promover a marca, montou uma perua ZT-T em 2003, com 775 cv obtidos de um motor Ford. Atingiu 362 km/h, na semana de velocidade de Bonneville.

Na época da apresentação do SV-R, Peter Stevens afirmou que um motor muito similar poderia ser colocado no SV-R em cerca de dois anos. Não deu tempo de ver acontecer, infelizmente.

Um carro bastante exclusivo, e um símbolo do fim dos MG de origem britânica.



JJ 

29 comentários:

  1. o que é quando se trata um motor como modular? o que significa? expliquem para esse anônimo ignorante.

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    1. Perdoem-me os engenheiros que leem este blog, mas vou arriscar.
      Um motor modular é um motor que pode ser montado em várias configurações, a partir de um subconjunto ou módulo (geralmente, um cilindro) que usa as mesmas peças básicas.
      A BMW está trabalhando em algo do tipo: a partir de um cilindro-padrão de 500 cm³, pode-se fazer motores de três cilindros (1,5 litro), quatro (2,0 litros), cinco (2,5 litros), seis (3,0 litros), oito (4,0 litros), dez (5,0 litros) ou doze cilindros (6,0), em linha ou em V. Os mesmos pistões, bielas, válvulas, bronzinas etc. serviriam em todos esses motores. Além disso, outras peças mais específicas poderiam também ser aproveitadas em mais de um motor: por exemplo, as mesmas árvores de comando de válvulas serviriam no quatro-em-linha e no V8, ou no seis-em-linha e no V12.
      Escrevi muita besteira?

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    2. Vlw alexandre!

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    3. Gustavo Cristofolini24/10/12 13:50

      Motores em V, normalmente apoiam 2 bielas no mesmo mancal. Se for 4 em linha, não teria, teoricamente, espaço para apoiar 2 bielas. Teria que ser feito com um vira com espaço para as 2 bielas.

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    4. Nesse caso específico, Modular é o nome do motor V8 da Ford com comando no cabeçote lançado em 1991 no Lincoln Town Car, ele também é conhecido como Coyote, Romeo e Miami

      http://en.wikipedia.org/wiki/Ford_Modular_engine

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  2. O modelo SV-R foge das características que fizeram da MG uma marca clássica. Seus modelos mais famosos, especialmente os da série T, eram pequenos e acessíveis para a classe média; se não tinham muita potência no motor eram leves e divertidos de guiar, apesar do acabamento quase espartano.

    O último MG de fato foi o MG B, depois de seu fim em 1980, a MG deixou de ser referência em carros esporte para seguir tendências da concorrência.

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  3. TUdo ruim isso aí, a começar pelo uso indevido do nome.

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  4. Eu vi esse carro no TopGear. Em 2003 ou 2004 o Clarkson testou essa geringonça.

    Motor V8 americano em um carro de fibra é uma coisa até fácil de fazer, até em uma garagem de alguém com algum dinheiro e muita vontade.

    Pra você ver: Uma coisa tão fácil, com até certa tendência ao sucesso, os caras conseguiram afundar.

    Design horrendo, interior medonho, preço ridículo. Tudo isso usando uma receita fácil. Tinha que fechar mesmo, essa empresa não tinha mais jeito.

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    1. Como castigo, ganharam patrões chineses.. ou a rua, não sei.

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    2. AutoClandestino.
      Não é de fibra como se diz popularmente por ai, querendo dizer fibra de vidro. Só "fibra" não significa nada.Pode ser até fibra de casca de banana.
      O MG SV-R tinha estrutura em aço, com painéis externos e áreas mais complexas em construção fabricados em compósito de fibra de carbono, aquela mesma que é usada nos carros de corrida das categorias mais caras e velozes, como a Fórmula 1, por exemplo.
      Nada a ver com um Puma, meu caro.

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    3. Mas vamos lembrar que não existe "carroceria de fibra". É um compósito plástico REFORÇADO com alguma fibra, seja qual for. Ainda sim é simples, porém caro quando se fala da fibra de carbono.

      Antes tivessem usado fibra de vidro e estrutura mais simples. Um Corvette nada mais é do que um chassi com carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro e é um clássico.

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  5. òtima matéria, Pois é, a Rover vai para o chineses, a Jaguar para a indiana Tata, e como fica o orgulho britânico? Por falar em fábrica abandonada encontrei este vídeo de uma da Peugeot com muitos carros esquecidos, alguns clássicos antigos e também de competiçao em seu interior.

    http://www.youtube.com/watch?v=YrnTgoTr1t8&feature=endscreen&NR=1

    MD

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  6. Rafael Nakazato24/10/12 16:18

    Lendo este post logo me lembrei de um carro, que também foi desenhado por Peter Stevens, o Prodrive P2. Para quem não conhece, Prodrive é a responsável por preparar e montar os carros de rally da Subaru. A quem se interessar fica a sugestão de pesquisar sobre ele. É um carro bem interessante que não chegou a ser produzido, mas que fez Jeremy Clarkson vomitar durante o teste. Fica uma sugestão para próximos posts.

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  7. muito boa materia.
    fotos bem legais.
    chineses comprando tudo...preocupante

    video dos carros peugeot tb bem interessante.

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  8. A MG sempre fez carrinhos simpáticos, bons de dirigir, simples demais e com pouca potência porém muito divertidos. O carro inglês, por assim dizer. Conversíveis simples e crus. Baratos.

    O que não podia era tentar competir com grandes. Não que os carros não sejam bons para isso, é que se o cara tem dinheiro pra um Porsche "básico", pra que comprar um MG ou um TVR? Mesmo que ande mais, o cara opta pelo Porsche, óbvio.

    E assim as marcas vão sumindo ou perdendo sua identidade, infelizmente.

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  9. Meu Deus, que design medonho. Teto de New Beetle, perfil de Audi TT, faróis de Stilo, lanternas traseiras de reboque. Volante de Mercedes SL dos anos 70.
    Parece uma mistura de Lobini com qualquer coisa chinesa.

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  10. Carro feio e sem graça. A parte dianteira não combina com o restante da carroceria.
    De bom só o motor, mas nada chama atenção nesse modelo.

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  11. gringo_vtec24/10/12 23:04

    O grande atributo da MG na europa foi o de fazer esportivos sempre baratos e acessíveis, e fizeram isto com louvor, até a venda aos chineses. Excetuando este veículo mencionado neste post.

    E uma coisinha, esses faróis são do Punto europeu, de 99 a 2003

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  12. Carro insosso.

    Ter muitas saídas de ar não quer dizer exatamente muita coisa. Talvez sejam fake...

    Mas é bem melhor construído que a maioria de nossos fora-de-série brasileiros.

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  13. Simplificando: Uma mecãnica pra lá de conhecida, altamente confiável e barata do ponto de vista do uso diário, que com certeza daria um enorme prazer em dirigir. Porém, é impossível se imaginar dentro dêle sem se sentir um super heroi japonês dos anos setenta ( parece um transformer...) ficaria com o velho Mustang fácil, e caso quisesse um MG, qualquer um com motor de 1.6 litro dos anos setenta seria paixão duradoura!

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    1. Vamos ver como poderia ser feito um "equivalente ou similar" brasileiro:

      1) Plataforma e transmissão do Chevette: não era maravilhosa, mas era divertida. E era uma plataforma barata, o Chevette era o carro de entrada da GM do Brasil;

      2) Motor AP 2000 turbo: um grande motor, um tanto confiável e qualquer mecânico sabe mexer nele. Tanto é que hoje é artigo de luxo para a VW do Brasil;

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    2. Podia ser tudo da gm, motor de monza seja 1.8 ou 2.0 não dava pra dar um preparo também?

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    3. Ia ficar uma maravilha mesmo, igual a um MG. Uma plataforma água com açúcar com um motor fejão com arroz, um Chevette mais caro e com motor adaptado

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    4. Bom, não sei como ficaria...Mas quem dirigiu na época o MG Avalonne, com motorzinho do chevette, disse que era bem divertido...quem sabe com um motorzinho 2.0 no alcool e um cambiozinho mais moderno somado ao baixo peso ainda hoje não mexeria com a adrenalina dos menos entusiamados com assistência (interferência!)digital?

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    5. Eu só fiz essa sugestão porque:

      1) A plataforma do Chevette foi a última plataforma de tração traseira a ser produzida no Brasil.

      2) O motor AP tem uma legião de entusiastas aqui no Brasil, eles preparam esse motor de todos os jeitos possíveis.

      3) Desenvolver nova plataforma e novo motor é caro demais.

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    6. O Omega foi o último tração traseira e AP forte como esse MG costuma ser bom só de alta, ficaria mais pra uma carroça doida que esse MG e só seria realmente divertido em retas ou curvas fracas. Pra dar certo teria que ter um motor mais forte e um carro melhor em curvas e não apenas tração traseira

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  14. Realmente uma pena o bando de entendidos dando palpites em cima de um assunto que nada entendem.

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    1. Fato. Até parece o futebol quando vários desentedidos reclamam do técnico da seleção.

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  15. Parabéns pelas matérias.
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