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22 de abril de 2011

SEVEN - OS MEUS MINUTOS

 Foto: Paulo Keller/AE

Há vários carros que nos fazem pensar a fundo o que significa a motorização humana, esse acontecimento que nasceu no começo do século 20 e conquistou uma boa parte da população mundial, que não consegue mais viver sem carro. Seja por necessidade, seja apenas por entusiasmo.

Acho que não é possível um entusiasta se sentir satisfeito antes de andar em alguns modelos que moldaram a história do automóvel. Não há muitos realmente importantes.
Ford modelo T, Fusca, Mini, Tucker, Jaguar E-Type, Ford Mustang, Chevrolet Corvette, Audi Quattro, Porsche 356/911, Citroën 11 Légère e DS, Mercedes-Benz SL e alguns outros.

O Lotus Seven tem história, mas vai além de uma herança de fabricante, ou de marca registrada do criador. Mais do que um carro, ele é o próprio conceito de carro esporte simples e básico. 

Andar em um carro dessa categoria é um evento importante. Dois exemplares com motores diferentes então, é muito, mas muito legal mesmo.

Os Sevens do Ricardo e do Geraldo são espetaculares, para dizer o básico. Os dois mecânicos e futuros engenheiros que participaram da construção, o Alex e o Elson, são entusiasmadíssimos.

Todos os detalhes técnicos foram já registrados no post anterior sobre esses carros, que está aqui.

Carros bem feitos, com detalhes bonitos, coisa de dar gosto, de ficar muito tempo olhando e analisando, imaginando e perguntando. Em alguns momentos encarnei a figura folclórica do "Zé Perguntinha", e fui perguntando e perguntando mais.

Mas não houve reclamação por parte dos proprietários. Os pais das criaturas contam tudo e mostram gabaritos de construção, e mostram peças e mais peças sobressalentes, e contam como foi feito, e contam os erros e acertos, e por aí vai.
O prazer deles de explicar tudo é grande, isso dá para sentir.

Mas o maior prazer para nós, que não construímos o carro, é andar nele. Ao menos essas sensações podemos ter. Como ficar olhando a mãe cozinhando, não ajudar e depois sentar e comer tudo rapidinho. Não é lá muito justo, mas é uma delícia.

Guardadas as diferenças, esses carros me lembraram um bugue que dirigi por algumas centenas de quilômetros, anos atrás. Não era meu, mas andei com ele em ruas, avenidas, estradas boas, estradas ruins, terra e areia, com capota e sem, devagar e rápido. A grande diferença é que o Seven faz curva, acelera e freia decentemente, coisas que um bugue tradicional, com motor VW a ar não faz, exceto acelerar, se o motor estiver saudável.

Decentemente é pouco para dizer o que um Seven faz. Os para-lamas sobre as rodas permitem ver os movimentos do volante sendo imediatamente passados à borracha em contato com o solo. É aquela famosa frase, sobre conexão entre o cérebro e as rodas.
Visibilidade irrestrita, nada atrapalha em nenhum quadrante.

A ausência de servo-freio e direção hidráulica só ajudam na sensibilidade do carro. A altura total e o centro de gravidade, que deve ser muito baixo, fazem com que a aderência seja absurda, para quem está acostumado a carros normais. Eu achava que seria muito fácil fazer ao menos o eixo traseiro derrapar, mas não, é muito difícil, mesmo com potência de sobra, como no caso desses dois carros.

Dessa forma, a segurança ativa está garantida. Tudo é excessivo nesse ponto. Muito motor, muito freio, muito estável, muita agilidade, muita visibilidade.

Segurança passiva é outro assunto. Há cintos de quatro pontos e bancos que encaixam muito bem os ocupantes. E só. Não dá para se pensar em "o que acontece se eu bater?".

Melhor não pensar, e ligar todos os sentidos humanos na potência máxima, para evitar de qualquer forma se envolver em encrencas, ainda mais em um carro que não é nosso.

O carro é rápido em tudo. O baixo peso significa aqui, rapidez de respostas a todos os comandos. Pensou em acelerar, o carro já está pedindo a próxima marcha. Pensou em virar o volante, ele já está apontado para dentro da curva.

Muito tempo atrás, escrevi sobre o Defender e o Seven (aqui) , comparando-os como o carro padrão de cada tipo, o jipe e o esportivo. Lembrei disso quando andava com esse verdadeiro kart com dois lugares. Ambos são veículos feitos para uma missão definida, e só uma. O Defender é ótimo na terra. O Seven é perfeito para curvas com bom asfalto, sendo seu hábitat uma boa serra, ou uma pista de corrida sem longas retas onde a aerodinâmica deixe de ser fator preponderante.

Tudo que for feito além disso, fica comprometido. Como viajar de pé embaixo numa estrada cheia de curvas com um Defender, e levar uma noiva à igreja num Seven.

Há de se ressaltar o fato do Seven moderno, tanto esses em que andamos, como os Caterham, não terem mais o para-lamas presos à carroceria, do tipo que os britânicos chamam de "wing" (asa). Esse tipo antigo, como dos carros do ínício do século 20, provocam sustentação, levantando a frente do carro. Muito mais eficientes nesse ponto as peças do tipo das motos, sobre as rodas, além de mais leves também. Além de permitirem que as rodas sejam vistas de dentro do carro, algo que só ajuda na precisão da condução.

Depois de andar um pouco,  fica o sentimento de querer mais, de sair dirigindo apenas com o destino de retornar, buscando as mais belas curvas existentes, exercitando os sentidos.

Um carro normal, fechado e com isoladores de ruído e vibrações, passa a ser uma sofá da sala ambulante, isolado do mundo, com silêncio e conforto. Coisas que o Seven não lhe dá.

O que ele faz é acordar o motorista e o passageiro, fazendo-os perceber que a vida existe. O equivalente automobilísitco a uma bela viagem de férias, depois de 11 meses de massacre dentro de uma empresa.

Tremenda máquina!

JJ

12 comentários:

  1. Sem dúvida, ótimos carros. Mas ainda acho que o feito mais formidável da dupla foi ter consdeguido licensear e emplacar essas joinhas lapidadas artesanalmente...

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  2. Que frutrante! Apenas ler a ver as fotos chega a ser frustrante perto do que eles podem oferecer. C´est la vie!

    Renan Veronezzi

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  3. Incrível a argúcia e criatividade do nosso povo. Ode!

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  4. É por fatos como esse que não me conformo de não existir uma fábrica nacional. A simbologia e o orgulho que isso traz é inquestionável.

    Nem vale a pena, ou sequer é justo tomar como exemplo países como EUA, com FORD, CHEVY,CHRYSLER. Ítalia com FIAT, FERRARI, LAMBO, entre outros desenvolvidos. Mas olhe o BRIC: as fábricas chinesas já estão se assanhando por aqui, Rússia a muito tem a Lada, até a Índia tem a tata, e o brasil, tem o que?
    Não quero tirar o mérito de Lobini, TAC, Troller( ainda que essa agora seja FORD), mas onde está a nossa.
    Não acredito que um povo, possa ficar insensível diante de uma marca, que de alguma forma ostente a capacidade de seu povo de desenvolver um automóvel. Ou alguém duvida que os russos tem orgulho dos valentes Ladas? ou os indianos de seu pequenos tata?
    É mais que um questão econômica: empregos, divisas, tecnologia, etc. É cultural, emotiva, algo difícil de definir, mas me parece uma ausência importante.
    Tem invejo de monte JJ, curto muito o estilo inglês de carros esporte.
    Abs.

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  5. Ja pilotei "de pé embaixo numa estrada cheia de curvas com um Defender" e até me surpreendi.

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  6. Carlinhos

    Fazer o q. Vc conta, com um carro com aquele peso, com CG naquela altura, com aquele curso de suspensão e com pneus lameiros e estar aqui para contar - ou é muito braço,ou muita sorte ou é simplesmente a mão de Deus. Ou ainda tudo junto...
    De qquer modo, feliz em tê-lo conosco - ainda!

    Feliz Pascoa pra todos

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  7. Eu também acho um absurdo não termos
    um carro com tecnologia de construção
    genuinamente nacional como foram os
    GURGEL.

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  8. Carlinhos,

    por incrível que pareça, você tocou num ponto que eu, fã absoluto e ex-proprietário de Defender 90, já tive o prazer de vivenciar. O mais incrível é que o jipão, se não rápido, ao menos é muito divertido de ser tocado o mais rápido possível em curvas.
    Incrível que você tenha escrito isso, pois quando eu falo, os amigos duvidam.
    Valeu !

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  9. Roberto Dallabarba,

    é isso mesmo, o orgulho é enorme. Criar e construir qualquer coisa é uma das melhores sensações do ser humano.

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  10. JJ, baita post! Mandou benzaço!
    Agora e eu? Fico na vontade né...
    Sei lá... vou andar de kart pra ver se passa... hehehe

    Abs

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  11. Podem escrever, eu ainda vou construir o meu!!!

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  12. Alexandre Freitas07/05/11 14:59

    Juvenal,
    Juntando o Seven com a memória do bugue, pode imaginar um servem com motor boxer? O torque e o ronco seriam fenomenais...

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