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29 de setembro de 2011

A MORTE DA JAGUAR


Toda vez que alguém critica o design de um Jaguar criado enquanto Sir William Lyons dirigia a empresa (até 1972), tenho a mania de responder, meio brincando, meio falando sério, que não é permitido a nós, meros mortais, criticar o desenho de um Jaguar. O resto do carro pode, mas o desenho não. Somos todos tão inferiores a Sir William nesse sentido que qualquer crítica faz o mesmo efeito que sopro de gato asmático no furacão Katrina: irrelevante. Em alguns assuntos, é melhor nos recolhermos a nossa insignificância.

O SS1 Airline, um dos primeiros carros de Lyons

Isto porque julgar o desenho de um carro é o que Lyons sabia fazer melhor, e o que trouxe ele a fama e glória, e que transformou uma fabriqueta de sidecars numa marca reverenciada mundo afora. Sir William nunca desenhou nada. Apenas mantinha uma equipe de funcionários pequena que batia chapas para ele, e criava direto em escala 1:1, carrocerias inteiras em metal. Hoje o processo de desenho de qualquer carro é longo e enfadonho, e passa de desenhos a mão para modelos em escala, para arquivos matemáticos e mais modelos em escala, depois para modelos em barro escala real, depois mais arquivos eletrônicos modificações, usinagem de barro, avaliações, mais arquivos, mais comitês, mais discussão... Um monte de gente dá pitacos e discute demais, quando Lyons apenas olhava e decidia. Em tamanho natural, direto em metal, e quando estava pronto, estava pronto e pronto. Nada criado por comitês intermináveis pode ser comparado a qualquer criação de Lyons.

O Jaguar XJ6 série 1, último trabalho de Sir William


Lyons sabia criar carros bonitos. Ele começou, como já contei, colocando carrocerias bonitas em carros existentes, e mesmo quando contratou uma genial equipe de engenheiros para fazer seus próprios carros, o Jaguar nunca deixou de ser primeiro uma carroceria belíssima. O exemplo clássico é o E-type, que mesmo sendo um avanço tecnológico considerável ao seu tempo (discos em todos os cantos, suspensão traseira independente etc), é lembrado ainda hoje quase que somente por ser provavelmente o carro mais belo já criado. Criado em grande parte por Malcolm Sayer, o E-type mostra uma das características de Lyons como designer: ele era como um grande chefe de estúdio, capaz de julgar como ninguém, mas sem desenhar nada. Mas ele sabia sempre o que queria, e sendo o chefe supremo da empresa, com certeza sempre conseguia o que queria.


E chefe ele era. Absolutamente nada que influísse no desenho de um Jaguar, inclusive debaixo do capô, podia ser colocado no carro sem sua aprovação. E ele garantia que isso era verdade fazendo passeios regulares pela fábrica, e em seguida aparecendo na mesa de engenheiros com um botão, acendedor de cigarros ou luzinha de posição e a perguntinha terrível: Eu não me lembro de ter aprovado isso. Por que está no carro?


Não só a aparência preocupava Lyons. Regularmente pegava carros na linha aleatoriamente para ir para casa, e no dia seguinte deixava uma lista de problemas a ser resolvidos. Lyons podia não ser um engenheiro, mas sabia dirigir esportivamente, e sabia exatamente como seus Jaguar deviam ser. Não tenham dúvidas, a Jaguar é a Jaguar porque ele a fez. Que falta faz gente assim na indústria... Contam-se nos dedos de uma mão os líderes mais interessados nos carros que em suas carreiras e empregos.

Nada era pequeno o suficiente para escapar de sua atenção. A Jaguar era uma empresa de enorme fama, mas de volumes de produção relativamente baixo, e portanto nunca foi enorme como uma Mercedes-Benz por exemplo, para citar apenas como exemplo o nemesis suábe de Sir Lyons. Mesmo depois de abrir o capital, Sir William manteve mais de 50% das ações e o controle firme e absoluto sobre tudo que acontecia na Jaguar. Sempre teve lucro, mas os dividendos e salários dos altos escalões sempre foram baixos relativamente. Falando em retrospectiva, Walter Hassan (um dos criadores do imortal seis em linha XK, e famoso também na Coventry Climax) disse que nunca ganhou muito bem, sempre trabalhou demais, mas nunca reclamou, e na verdade sempre achou a Jaguar um lugar incrível para se trabalhar. Marca clássica de um líder, e não apenas um chefe, como já nos ensinou o JJ aqui.



Apesar de não ter nascido nobre, Sir William também personificava como poucos a condição de gentleman inglês que seu título pedia. Sempre imaculadamente vestido e penteado, com um porte altivo e impecável, e sem nunca levantar a voz, Lyons ainda por cima vivia num estate eduardiano perfeito, Wappenbury Hall. Mas ao contrário do que muito brasileiro acredita (cada vez mais, infelizmente), sempre teve um senso impecável de dever, e nunca trabalhou por dinheiro. Sim, foi um homem rico e poderoso, mas sua vida foi totalmente dedicada ao trabalho e a construir algo, e assim avançar o bem comum. Prova disso é que a grande maioria dos lucros não eram divididos, e sim reinvestidos na Jaguar. E o fato de que levava uma vida confortável, lógico, mas simples e sem ostentação. Sua preocupação com os gastos da companhia era lendária, bem como sua fama de pão duro, e ia até a extremos cômicos, como o caso do telegrama que contei aqui. Mas quando morreu em 1985, deixou um patrimônio de 3,5 milhões de libras. Pouco para sua importância, mas prova que um homem nunca se mede pelo que ele tem, e sim pelo que foi.

Mas porque então, com toda essa dedicação à Jaguar, e essa lucratividade, Sir William se juntou à BMC em 1966, jogando a empresa num caminho sem volta ao fim? Sim, a empresa ainda existe hoje, e tem carros muito bons, mas quando Lyons saiu de cena, a qualidade (nunca um dos seus pontos fortes, para começar) caiu vertiginosamente, o estilo desandou no horrível XJ-S. A empresa ficou copiando o estilo do sedã XJ (último Jaguar de Lyons) por décadas a fio sem mostrar nada novo. Deixou de ganhar dinheiro e quase morreu no conglomerado estatal British Leyland. Foi comprada pela Ford, melhorou muito o produto e as fábricas, mas continuou deficitária e foi vendida para indianos. Hoje, apesar do estilo original e belíssimo, a Jaguar não é a concorrente tecnológica da Mercedes como era com Sir William, e muito provavelmente ainda está viva apenas pela força do que ele fez a mais de uma geração atrás. A Jaguar de Sir William Lyons morreu em 1972, e apenas sua sombra mantém o zumbi atual se movendo.

Mas de novo, por que ele fez isso? Para saber a resposta, precisamos voltar no tempo, para muito antes disso tudo, até o longínquo ano de 1955. E a um evento que mudaria o futuro.


Em 1955, a Jaguar era uma jovem empresa, mas já famosa e conhecida. O magnífico XK120 de 1948 (acima), fora um carro esporte revolucionário, algo quase tão grande quanto o E-type seria em 1961, e a marca também já tinha garantido memoráveis vitórias em Le Mans. A prova era uma das grandes formas encontradas por Lyons de elevar sua jovem marca para o nível das marcas mais estabelecidas como a Mercedes (ela de novo). Sir Lyons não era entusiasta das corridas, e preferia seus sedãs a seus carros esporte, mas sabia que sem eles a Jaguar não podia ser tudo que poderia ser.

Jaguar D e E-type, lado a lado

Naquela época Sir William fazia questão que os carros fossem para Le Mans por seus próprios meios, andando. Fazia parte de sua filosofia que achava monopostos de fórmula irrelevantes, por não ter ligação com os carros vendidos pela empresa. Quando o XK120 evoluiu para o C-type de corrida, que depois o D-Type de corrida, e este de novo evoluiu para o E-type de rua, todo mundo entendeu como ele pensava.


Estavam então os dois D-Type no aeroporto de Southampton, na costa inglesa, esperando o encontro com o carro de apoio, um MkVII. Mas por que aeroporto se os carros iam rodando? Explica-se: na época a Silver City airways mantinha um serviço de travessia do canal da mancha por via aérea, partindo de Southampton, voando aviões bimotores Bristol 170 (abaixo e acima).


Pois bem, dirigindo os dois D-Type estavam o lendário piloto de testes da Jaguar, Norman Dewis, e seu colega Bob Berry. Esperavam na fila e nada do Mark VII. Dois aviões perdidos e nada. Naquela época sem telefone celular, as pessoas tinham que tomar suas decisões em casos assim, e temendo perder tempo demais na longa viagem, os dois resolvem se pôr a caminho. Entram no Bristol e em pouco tempo desciam em Cherbourg, no lado francês do canal, e sem perder tempo tocaram a viagem para Le Mans.


O Mark VII (acima) acabou pegando o vôo seguinte, e desceu em Montebourg, a aproximadamente 30 km mais ao sul de Cherbourg. O motorista, sem dúvida ansioso para alcançar seus companheiros no próximo ponto de encontro, imediatamente se pôs também a caminho. Mas pouco tempo depois de abastecer num posto, já na estrada N13, não se sabe exatamente o por quê, o Mk VII colide a alta velocidade com um caminhão que vinha em sentido contrário, no meio da pista. O motorista morre instantaneamente. Seu nome: John Lyons, único filho homem de Sir William Lyons. Tinha apenas 25 anos.

Esse acidente trágico definiu o futuro. John estava sendo treinado para tomar o lugar do pai, e mesmo tendo duas filhas além dele, naquele tempo, e para um homem da época de Lyons, não havia maneira de pensar que alguma delas tocaria os negócios. Na verdade, não estavam interessadas nisso. Sem herdeiro, quando chegou a hora de se aposentar, Sir William acabou por resolver que a empresa estaria melhor na BMC. O triste é que ele viveu para se arrepender...

Sir William Lyons em uma de suas ultimas fotos para a Jaguar, nos anos 80, com o então presidente John Egan.

E a pobre Jaguar, sem um Lyons tomando conta, morreu. Não fisicamente, mas com certeza em espírito. Eu adoro o que fizeram a partir do novo e sensacional XF, mas é outra empresa hoje, apenas com o mesmo nome.

MAO

33 comentários:

  1. Aléssio Marinho29/09/11 16:39

    Mr. Lyons foi um homem admirável pela sua capacidade de trabalho, criatividade e por acreditar nesses valores piamente. Um homem como poucos nos mundo dos negócios.
    Parabens MAO por nos trazer essa história tão importante.

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  2. Venho deixar meus parabéns por mais um ótimo texto. Deliciei a leitura do começo ao fim.

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  3. Que saudade que eu tava desses belíssimos posts!!
    Parabéns!!!

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  4. Coisa de arrepiar realmente.

    São os "ses" da vida, se não fosse o acidente, se o filho tocasse, o que seria hoje da Jaguar, brigaria em pé de igauldade com Mercedes e outras???

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  5. pelas fotos, é impressão minha ou até nos retrovisores externos havia economia? onde eles estão?

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  6. luizborgmann29/09/11 19:30

    Olá amigos,
    Maravilhoso texto do MAO, parabéns. Para quem é fã dos maravilhosos XK120 e XK140, disponho dos manuais (operating, Maintenance and Service Handbook).
    luiz borgmann

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  7. Não duvido das habilidades desse senhor, nem da qualidade de seus trabalhos. Entretanto lhe faltou a capacidade indispensável e fundamental dos verdadeiros líderes: implantar de fato uma cultura na empresa que a habilitasse a caminhar com as próprias pernas. Centralizar tudo em uma ou duas pessoas jamais tem um fim diferente do que ocorreu com a Jaguar. Perdeu uma grande chance esse senhor.

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  8. Mister Fórmula Finesse29/09/11 20:26

    Uma história tão bela quanto triste; perder um filho a bordo do carro que criou...

    Talves o senso de justiça, pragmatismo e o certo idealismo do Sir Lyons já não achasse mais seu devido lugar naquela época da explosão da produção seriada.

    Jaguar hoje? Normal eu confundi-los com um Aston Martin....e uma vez era por demais singulares!


    Grande post MAO!

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  9. Antigamente as empresas tinha a alma dos seus criadores. Elas existiam com algum propósito. Hoje é marca, investidor, produto e recursos. Fico triste de imaginar o futuro.

    Guilherme Costa

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  10. Mais uma obra-prima, MAO, como sempre, parabéns! Sobre a morte prematura do filho de Lyons, ele se junta a Jean Bugatti, Edsel Ford e Dino Ferrari nas tragédias pessoais dos fundadores dessas fábricas de sonhos. Ferry Porsche, por sua vez, contrariou a regra. Quem sabe um dia vc nos brindaria com um post sobre isso?
    Abraços

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  11. Muito bom post! Eu tenho um livro sobre a Jaguar (fico devendo o nome) e a história dessa marca lendária é realmente incrível e totalmente centrada a volta de seu fundador.

    Tb espero que tenhamos outros líderes como Sir Lyons, aliás, tenho certeza que temos mesmo que não estejam no ramo automotivo, mas temos que admitir que os tempos mudaram...

    E outra empresa como a Jaguar misturando simplicidade com tecnologia de ponta e design primoroso ganhando das hj gigantescas mega corporações nas pistas com um carro inteiramente fabricado de forma independente é praticamente um sonho.

    Mas sonhar não custa nada... Sonhemos!

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  12. Realmente é interessante não só a história do fim da Jaguar como também a do fim da indústria automobilística britânica em geral, e da própria decadência do império britânico como um todo, enquanto nações devastadas e humilhadas como a Alemanha, a Itália e o Japão se reergueram de maneira impressionante.

    McQueen

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  13. Pow Lawrence...
    Passa o nome do livro lá pra gente?
    Só ir na estante ali...
    Valeu

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  14. Um grande administrador sabe preparar um sucessor... De todo modo, tenho esperança que a Jaguar renasça com os indianos. Um ótimo post, apesar da escorregadela - "brasileiro" - que denota a já comum neste blog "síndrome de vira-lata"...

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  15. Belíssimo Post, MAO!
    Obrigado.

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  16. Muito bom mesmo, incrível esse Lyons e suas criações.
    Só tem um para-choques que é horrivel demais e estraga o carro, o do Mk II.
    Em compensação, fizeram o mais bonito carro de todos os tempos, o E-Type.

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  17. Eurico Jr.30/09/11 09:43

    Podem me malhar, mas eu acho o XJ-S bonito, principalmente pela sua marca registrada, as famosas (e polêmicas) "flying buttresses".

    Teve um começo bem problemático, mas renasceu sob a batuta de Sir John Egan, com a introdução do motor HE. Terminou a longeva carreira reconhecido como um dos melhores GT's já fabricados. E sua base mecânica foi aproveitada no Aston Martin DB7 e no primeiro Jaguar XK8.

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  18. Muito obrigado pelo texto, MAO! Te agradeço.

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  19. Daniel San01/10/11 10:36

    MAO,Sir William não gostava quando via um botãozinho desnecessário no projeto de um carro.Creio que ele teria um enfarte com a profusão de botões de videogame,bluetooth,porta-trecos,etc,dos carros de hoje.
    No tempo dele carros eram carros,coisas para se curtir como se devem.

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  20. Alessio Marinho, Thales Sobral, Guilherme,

    Grato, feliz que gostaram!

    Comentem sempre!

    MAO

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  21. Fabio,

    É o que diria a revista Você S/A, mas pessoas raramente funcionam tão perfeitamente quanto esse povo quer que acreditemos ser possível.

    Ele formaria um sucessor se ele sobrevivesse. Depois simplesmente perdeu essa vontade.
    MAO

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  22. Luis Augusto, lawrence Jorge,

    Obrigado, feliz que gostaram.

    Comentem sempre!

    MAO

    ResponderExcluir
  23. Anônimo das 2:55,

    Sindrome de vira lata ou não, eu não me ufano mesmo...Não tem jeito, sorry.

    Mas que bom que gostou, comente sempre!

    MAO

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  24. JCQ,

    De nada, eu que agradeço! Sem vocês, os leitores, não há blog!

    MAO

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  25. Eurico Jr,

    Malhar nada, eu também adoro os XJ-S, principalmente os cabriolet dos anos 80...

    Mas comparados à beleza pura e não destilada dos carros de Lyons...nem dá para comparar.
    MAO

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  26. Daniel San,

    Acho que ele não teria problema com isso. Ele apenas queria ter a palavra final em TUDO nos seus carros, é só.

    MAO

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  27. JJ,

    Sei lá, não é permitido a mim criticá-lo, rsrsrsr

    MAO

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  28. Antônio C Jr,

    Eu que agradeço o comentário!

    MAO

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  29. Mcqueen,

    Verdade, os ingleses meteram os pés pelas mãos depois dos anos 60... Mas o mundo do automóvel mudou muito ali, os Americanos tb se complicaram.

    MAO

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  30. MAO,

    Vou colocar meu sobrenome no cadastro, pois temos mais Fabios frequentando o AE, já era de se esperar... hehehe

    Demais o post! Valeu mesmo!

    Abs

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